Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Uma alternativa aos contos de fadas

Pitu Saá

A pensar nas mulheres de amanhã, uma nova coleção de livros infantis chega às livrarias. A tempo de comemorar o Dia Internacional da Mulher, apresenta-se com o nome “Anti-Princesas”. Querem ser uma alternativa aos contos de fadas

Se está farto de ler livros à sua filha habitados por heroínas que são vítimas, órfãs ou salvas por um príncipe em cima de um cavalo branco, esta pode ser uma boa alternativa para si. A coleção "Anti-Princesas" chegou às livrarias esta sexta-feira e tem honras de lançamento oficial no Capitólio, em Lisboa, no Dia Internacional da Mulher, a 8 de março (às 18h30). A iniciativa partiu da empresa municipal EGEAC, que encontrou na editora Tinta-da-china o parceiro ideal para a publicação da coleção, de naturalidade argentina. Os textos são da jornalista Nadia Fink e as ilustrações de Pitu Saá - e uma das ideias é combater os estereótipos de género. Por isso, as quatro mulheres retratadas são a pintora mexicana Frida Kahlo, a escritora brasileira Clarice Lispector, a artista chilena Violeta Parra e a guerreira boliviana Juana Azurduy. Todas levaram vidas extraordinárias, romperam com os padrões da sua época e não se encaixaram nos cânones convencionais.

Em certa medida, elas são o oposto das princesas Disney, os antípodas das personagens femininas dos contos de fada. Frida Kahlo é talvez a mais conhecida das quatro. Lutou a vida toda contra a doença - a poliomielite que a pôs a coxear aos 6 anos, e o gravíssimo acidente que sofreu aos 18 anos, quando viajava num autocarro, que lhe partiu a coluna e a prostrou numa cama, meses a fio, com as costas engessadas. A verdade é que Frida transformou essa desvantagem em obra: pintou dezenas de autorretratos, com a ajuda de um cavalete e de um espelho que a mãe lhe colocou por cima da cama. Sem este acidente trágico, provavelmente Frida nunca teria pintado ou descoberto a veia artística dentro de si.

A escritora brasileira Clarice Lispector viveu uma vida longe dos cânones tradicionais

A escritora brasileira Clarice Lispector viveu uma vida longe dos cânones tradicionais

Pitu Saá

Clarice Lispector também é bastante conhecida dos portugueses. Esta enigmática escritora brasileira viveu a vida longe dos cânones. Nascida na Ucrânia, em 1920, com apenas um ano de idade embarcou com os pais – Judeus que fugiam às perseguições antissemitas - para o Brasil. Desde pequena que gostava de inventar histórias, difíceis e complexas. Ao longo da vida escreveu romances, livros infantis e crónicas para jornais para sobreviver, depois de se divorciar do diplomata com quem casou. Apesar disto, considerou-se sempre "antiescritora". Dizia que não gostava de regras, títulos ou gavetas, escrevendo em todo o lado, de guardanapos a pedaços de papel, "enquanto os filhos corriam pela casa e ela atendia o telefone e os ajudava com os deveres".

Violeta Parra foi uma artista chilena do início do século XX que viajou pelo seu país para registar todas as canções tradicionais

Violeta Parra foi uma artista chilena do início do século XX que viajou pelo seu país para registar todas as canções tradicionais

Pitu Saá

Já Violeta Parra foi uma artista chilena que viajou pelo seu país, no início do século XX, para registar e salvar do esquecimento as canções tradicionais. Nascida numa família pobre, aprendeu a tocar guitarra como autodidata, tocou e cantou na rua em troca de esmola e percorreu as zonas mais remotas do Chile, muitas vezes com os filhos pequenos, para registar e ouvir, da boca dos anciãos, as canções tradicionais em risco de desaparecer. Viveu a vida inteira do amor à música. "Graças à guitarra, pude deixar de descascar batatas", disse.

A guerreira da Bolívia Joana Azurduy é uma lenda viva no seu país. No século XVIII, lutou contra os espanhóis grávida e com a filha recém-nascida nos braços, conta-se

A guerreira da Bolívia Joana Azurduy é uma lenda viva no seu país. No século XVIII, lutou contra os espanhóis grávida e com a filha recém-nascida nos braços, conta-se

Pitu Saá

Quanto a Joana Azurduy, foi uma guerreira da Bolívia do século XVIII que pegou na espada para lutar e libertar o seu país do jugo espanhol. Expulsa do convento para o qual entrou aos 17 anos, casou pouco depois e lutou, ao lado do marido, lavrador, de pistolas e sabre em riste, contra o inimigo colonizador. Uma vez, terá mesmo ido salvar o marido da prisão - invertendo a lógica tradicional do príncipe que resgata a princesa. Conta-se até que chegou a combater com uma filha recém-nascida nos braços, e grávida - ela que foi mãe de cinco. Perdeu o marido, Manuel Padilla, no campo de batalha, e lutou na Argentina, até regressar ao seu país aquando da independência, em 1824. Uma mulher de armas.

Um livro bom para filhos e pais

Madalena Alfaia, da editora Tinta-da-China, explica que a iniciativa de lançar esta coleção em português partiu da empresa lisboeta EGEAC, no âmbito do Programa "Lisboa por Dentro". O lançamento oficial acontece a 8 de março, Dia Internacional da Mulher, no Teatro Capitólio, e coincide com a estreia de uma curta-metragem sobre a vida de Violeta Parra, "Cantar com Sentido", e um concerto de Mallu Magalhães. Questionada sobre o simbolismo do lançamento nesta data, Madalena assume: "Portugal é um país machista. Nem devia ser preciso provar que as mulheres podem fazer o mesmo que os homens – devia ser uma evidência. Mas a prova de que esta coleção fazia falta é a reação que temos tido. Muitos pais têm feito saber a sua alegria por poderem ter acesso à coleção em Portugal", conta.

Explica que este livros "combatem estereótipos de género, numa idade em que estes ainda partem dos pais para os filhos, e não o contrário". Na verdade, esta coleção destina-se a crianças mais velhas, se as quiserem ler sozinhas. "Sempre fomos uma editora de causas, e as anti-princesas são muito bem-vindas", afiança. Acrescenta: "Um livro só pode ser bom para as crianças se também for bom para os pais". Acredita que esta coleção faz isso mesmo.

Madalena defende que "os contos de fadas têm o seu papel, mas as fadas vivem em universos muito distantes. Alimentam a imaginação, mas não têm o fator de identificação que as crianças também procuram. Parece-nos importante que as crianças percebam que não precisam de superpoderes nem de viver em palácios para encontrar o seu lugar no mundo", diz. Além disso, "estas mulheres reais, que foram extraordinárias, cheias de complexidades – era difícil inventá-las". Pelo facto de serem mulheres de carne e osso, não quer dizer que não inspirem e não façam sonhar. "Estas mulheres tiveram sonhos reais e foram atrás deles", defende Madalena. "Um sonho não tem de ser uma fantasia inalcançável". Na coleção "Anti-Princesas", pode não se "viver feliz para sempre", mas também se pode ficar com uma noção mais real do que é a vida. E perceber que as mulheres reais são capazes de atos tão heróicos como os Super-Heróis. Só não precisam de capa.