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“Paris, Texas”: o futuro não será pior que o passado

FILME. “Paris, Texas”, realizador por Wim Wenders, foi o vencedor da Palma do Ouro no festival de Cannes em 1984. Está de regresso aos cinemas portugueses

d.r.

Travis é um homem perdido que começa por querer esquecer e por isso caminha, caminha muito, muito rápido, como só caminha quem quer esquecer o passado. Depois, percebe que não consegue esquecer, deixa de querer esquecer, e continua a caminhar, mas já para se reconciliar consigo próprio e com a sua dor. “Paris, Texas”, o mais icónico filme do realizador alemão Wim Wenders e projetado inicialmente em 1984, está em exibição no Espaço Nimas, em Lisboa. Explicamos porque é tão bem-vindo

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Nesse dia, enquanto conversavam sentados num bar em Albuquerque, cidade no estado do Novo México, nos EUA, e emborcavam tequilas sem cerimónia ao som de uma banda de mariachi que, va lá saber-se porquê, estava então mais virada para temas pop norte-americanos, Harry Dean Stanton disse ao amigo Sam Shepard que um dia gostaria muito de entrar num filme que fosse, ao mesmo tempo, de grande sensibilidade e inteligência. Foi apenas uma observação, um desabafo, a verbalização, se quisermos, de um desejo, de uma vontade, sem quaisquer consequências práticas pelo menos no imediato, um comentário feito no meio de muitos outros comentários no meio de uma longa e muito bebida conversa, mas a verdade é que semanas depois, já depois de o ator norte-americano ter regressado a Los Angeles, Shepard ligou-lhe a perguntar se queria desempenhar o papel de ator principal no filme cujo argumento ele e o realizador Wim Wenders, que havia já realizado “Alice in the Cities”, “Kings of the Road”, “Hammet” e “The State of Things”, estavam a escrever. Stanton começou por hesitar. Não queria que o amigo estivesse a convidá-lo apenas porque haviam falado sobre o assunto. Queria que tanto Shepard como Wenders e os restantes membros da equipa, incluindo produtores, estivessem “entusiasmados” com a ideia de ele vir ser a protagonista do filme, como viria a confessar muitos anos mais tarde, em entrevistas. Não sabemos o que Shepard lhe disse, mas Stanton acabou por aceitar o convite e em 1984 o mundo conhecia “Paris, Texas”, aquele que viria a tornar-se o mais icónico filme de Wim Wenders, vencedor da Palma do Ouro no festival de Cannes naquele ano.

Travis (Harry Dean Stanton) é um homem perdido que começa por querer esquecer e por isso caminha, caminha muito, muito rápido, como só caminha quem quer esquecer o passado, não sabendo exatamente para onde ir ou como – a única certeza que tem é que não pode parar; que começa, dizíamos, por querer esquecer, mas depois, ao confrontar-se com determinados acontecimentos, percebe que não consegue esquecer, deixa de querer esquecer, e continua a caminhar, mas já só para resolver e reconciliar-se consigo próprio e aceitar a sua dor, incorporá-la, torná-la parte de si. “Para Travis, a redenção não está no desconhecido, mas em relembrar e expiar aquilo que ele tão desesperadamente tentou esquecer”, escreveu o escritor, jornalista e crítico de cinema Eric Hynes, que descreveu “Paris, Texas” como “uma desconstrução e uma ode ao herói do western clássico, simultaneamente”, e como uma “carta de amor e uma ode desencantada de Wim Wenders à América, realizador que cresceu sob influência da cultura dos EUA, tal como grande parte da Europa do pós-guerra”.

d.r.

A noite estava escura e o chão estava frio

No filme, vemos Travis pela primeira vez a calcorrear a crosta arenosa e adornada com pequenas fendas de um deserto no Texas, ao som da slide guitar de Ry Cooder, o guitarrista e compositor exímio que foi buscar inspiração a uma canção do exímio Blind Willie Johnson: “Dark Was the Night, Cold Was the Ground”. Willie Johnson, o cantor de blues-gospel nascido em Pendleton, no Texas, que ficou cego aos sete anos depois de a mãe lhe atirar com um balde de lixívia para a cara para se vingar do marido que lhe pusera os braços e as pernas e o rosto negros na noite anterior por achar que ela o traíra. A noite estava escura e o chão estava frio. Blind Willie Johnson, o cantor de blues-gospel que nasceu e cresceu pobre e conheceu a mulher da sua vida em Dallas, Angelina, com quem casou. Uma história que não estava destinada, porém, a acabar bem. Um dia, a casa onde eles viviam ardeu e o casal, não tendo mais para onde ir, decidiu ficar mesmo ali, a viver entre os escombros e as paredes ruídas e enegrecidas, dormindo em cima de jornais em cima de um colchão no meio do quarto, a respirar cinzas noite após noite. Blind Willie Johnson acaba por contrair uma pneumonia, mas o hospital recusa-se a tratá-lo e a interná-lo porque ele é cego. Blind Willie Johnson volta para casa e morre. A noite estava escura e o chão estava frio.

d.r.

Vestido com um fato negro já cheio de mossas e vincos, uma camisa que parece ter sido em tempos branca, uma gravata da cor da areia e dos rochedos que recortam a paisagem em volta e um boné vermelho de basebol na cabeça, Travis caminha. É isso que ele faz, mesmo quando já não está a fugir. “Se não estivermos sozinhos, nunca seremos capazes de adquirir esta forma de ver, esta completa imersão naquilo que temos diante dos nossos olhos, em que já não é necessário interpretar, mas apenas olhar”, disse Wim Wenders numa entrevista.

É enquanto caminha no meio do deserto que o irmão, Walt (Dean Stockwell), o encontra e o leva para sua casa, em Los Angeles, onde vive com a mulher, Anne (Aurore Clément) e o filho de Travis, Hunter (Hunter Carson), de sete anos e meio, quase a fazer oito, que Jane (Nastassja Kinski) ali deixou quando abandonou Travis numa autocaravana em chamas para ir trabalhar para um clube num armazém nos subúrbios de Houston, onde as mulheres ouvem os homens em salas atravessadas por vidros. Para ir, também ela, caminhar, como sugeriu Nastassja Kinski numa entrevista: “Talvez Jane tenha tentado entender Travis e tenha tentado fazê-lo através de outros homens… Ela deixou-se levar para aquela cidade e para aquele lugar para fazer o que ela sabia que ia fazer”.

Em casa de Walt, que vive no cimo de uma colina nos subúrbios de Los Angeles com vista para o centro da cidade e trabalha em publicidade e faz outdoors, Travis dá lustre e arruma em cima de um muro os sapatos do irmão e da cunhada e do filho que lhe foi tirado; lava a louça empilhada na banca e vê, projetadas em bobines de super 8, as imagens daquilo que ele perdeu. A dada altura, já não caminha sozinho, mas com o filho, da escola para casa, um de cada lado do passeio, em figuras e hesitações cómicas a fazer lembrar o sr. Hulot dos filmes de Jacques Tati. Travis engendra depois um plano para tentar encontrar Jane e o pequeno Hunter, que poucas ou nenhumas memórias tem da mãe, mas ainda assim sente falta dela, decide juntar-se-lhe no caminho para Houston. Durante a viagem, pai e filho falam sobre o Big Bang e a teoria da relatividade. Mas falam também sobre Jane. Jane que, a comparar com a origem do universo, parece muito mais difícil de entender. “Porque é que a mãe nos deixou?”

O encontro entre Travis e Jane no clube onde esta trabalha é um dos momentos mais intensos e emblemáticos do filme. Jane não vê nem reconhece a voz daquele que lhe fala do outro lado do vidro. Travis vê-a, mas é já como se não visse. Como se não a visse da forma como via antes. Porque tudo aconteceu entretanto e já nada pode ser como era. Já nada é como era. E se lhe relembra, sentado de costas para ela e agarrado ao telefone (a comunicação entre eles cinge-se agora a palavras que viajam por um fio e olhares que atravessam um vidro), a história dos dois e aquela época feliz em que até uma ida à mercearia se transformava numa aventura, sobretudo para ela, que gostava tanto de aventuras, é só para lhe dizer – e foi para isso que ali foi – que há uma criança lá fora, dentro de uma carrinha, a precisar de a ver.

d.r.

O filme termina com o encontro entre Jane e Hunter num quarto de hotel no centro de Houston, que Travis observa à distância. Travis que desaparece tal como o encontramos no início, a caminhar sozinho, já não no deserto, mas na cidade, prédios e arranha-céus envidraçados e argamassa em vez de areia e rocha, a caminhar novamente, mas já um pouco mais em paz consigo mesmo, reconciliado enfim. Porque o futuro, como escreveu alguém, será sempre isto, a vida misturada com o cheiro húmido da terra dos mortos e as pulsações entusiásticas do coração misturadas com o som de ruídos sem sentido, mas não será pior que o passado.