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“Não fui treinado para procurar a notoriedade”

tiago miranda

Diplomata, poeta, ativista político, socialista, o ministro da Cultura não gosta do circo mediático, mas quer deixar a sua marca no sector, criando movimentos de contacto entre a cultura e os cidadãos

Ana Soromenho

Ana Soromenho

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Jornalista

Nicolau Santos

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Diretor-Adjunto

Tiago Miranda

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Fotojornalista

É um discreto resistente, um corredor de fundo. A política atravessou-lhe o trajeto nos anos quentes da revolução, e, nessa época, Melo Antunes foi o compagnon de route. Mas houve outros — Jorge Sampaio, Mariano Gago, Jorge Silva Melo, Nuno Portas, Nuno Júdice —, os amigos com quem sempre se reencontrou quando regressava a casa. Durante 41 anos, esteve ao serviço do Ministério dos Negócios Estrangeiros. O primeiro posto foi África. Angola, 1975. E depois Madrid, Paris, Budapeste, Nova Deli, Conselho da Europa, UNESCO... No Rio de Janeiro, lugar preferencial, criou fama ao projetar o Palácio de São Clemente na vida cultural da cidade. Sobre esse tempo recordará: “Encontrei nos brasileiros uma resposta extraordinária ao meu trabalho. No Rio estava à vontade. Sentia-me mais seguro, gostava mais de mim mesmo.” A par de tudo isto, houve outra vida. Luís Filipe Castro Mendes é poeta e escritor com obra premiada e foi por esta via que fez nome no espaço público. Chegou a Lisboa, onde não vivia há mais de duas décadas, para ocupar o lugar de ministro da Cultura, faz um ano no próximo mês de abril. Num encontro que decorreu entre a Casa Fernando Pessoa e a sua residência nas Avenidas Novas, abriu a porta do seu mundo para uma longa conversa que lhe traça o perfil.

Os seus primeiros anos são passados em itinerância. Nasceu em Idanha-a-Nova, com 6 anos vai para Angra do Heroísmo, depois Lisboa, São Jorge, Redondo, Chaves...
Esse percurso aconteceu porque o meu pai era magistrado. Naquela época, os magistrados não podiam estar mais de seis anos no mesmo sítio, o que acabou por me familiarizar com a vida errante. Gosto de mudar. Mas durante a infância foi duro.

Como é que essa experiência o marca?
Quando estamos permanentemente a mudar, não se criam laços. Uma experiência que me marcou foi ter chegado a Chaves com um sotaque alentejano e os meninos rirem-se de mim. Não é simpático os meninos rirem-se de nós, procuramos sempre assimilarmo-nos. Eu era uma criança fechada na leitura. Gostava muito de ler, naturalmente refugiava-me. Lia tudo. A minha mãe gostava de poemas, lia e recitava de cor. Cresci a ouvir o ritmo das palavras e logo desde muito pequeno comecei a ler poesia.

Que poetas o prendiam?
Houve duas descobertas que me mudaram a adolescência: Álvaro de Campos e Sophia de Mello Breyner. Sophia trouxe-me uma ideia de nitidez e responsabilidade. Nela tudo é cristalino. Já o Álvaro de Campos entra por via daquele torrencial discursivo. Com 15 anos, ofereceram-me uma “Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa”, de Eugénio Melo e Castro e Maria Alberta Menéres, e descobri o Herberto Helder e “Uma Colher na Boca”. Estamos em 1964 e leio: “Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra e seu arbusto de sangue. Com ela encantarei a noite.” Foi um baque, uma coisa extraordinária. O ressoar desses poemas ficaram-me para sempre gravados. A vida é também feita de encontros com livros e textos, e esses momentos são tão importantes como os que temos com as pessoas que nos marcam.

Tinha amigos?
Durante a adolescência era tão tímido que passava por arrogante. Na verdade, só tinha imensa vontade de conviver e de namorar, como toda a gente. Um dia, uma menina em quem eu estava interessado comentou: “Aquele tipo é um chato, veio falar da coleção de selos.” Temos de reconhecer que falar da coleção de selos a uma menina não é a coisa mais sedutora. Também lia poemas. Aí achavam mais graça, mas não percebiam. Uma professora chegou a dizer na aula: “O Luís Filipe está a gastar o seu tempo, o amor faz dos inteligentes estúpidos.”

Como rompe o círculo?
Um elo importante foi a ligação ao Juvenil do “Diário de Lisboa”. Com 15 anos tinha começado a escrever poesia e recebi uma crítica muito simpática do Mário Castrim. Através do jornal tive uma terrível polémica com o Jorge Silva Melo por causa de um artigo sobre “Zorba, o Grego”, e a Alice Vieira insistiu que eu tinha absolutamente de conhecer o Jorge. Na altura vivia em Chaves e vim de propósito a Lisboa conhecer os amigos do “DL”. A ligação com o Silva Melo ficou para a vida.

Como lhe chega a atividade política?
Tinha lido o Althusser e o Marx, e com essas leituras mais subversivas vem o desejo de fazer a revolução. Com 17 anos chego a Lisboa para estudar Direito e entro nas associações. Durante uma associação presidida pelo Miguel Lobo Antunes fomos expulsos da universidade por atividades subversivas, e assim inicio a minha carreira de ativista.

Em 1969 integrou a Comissão Democrática Eleitoral [CDE], que girava em redor de pessoas como Jorge Sampaio, Ferro Rodrigues... É nessa constelação que se cruza com Ernesto Melo Antunes?
Não. Nessa altura, ele ainda estava em Ponta Delgada. Já tinha ouvido falar daquele militar de esquerda e, mal começámos a conversar, simpatizámos muito um com o outro. Achava extraordinário um oficial do Exército ter toda aquela cultura e preparação.

Trabalhou com ele nos governos provisórios de Vasco Gonçalves e tornou-se seu adjunto de gabinete quando foi ministro dos Negócios Estrangeiros. Também andou pelo Hotel Florida durante o célebre documento do Grupo dos Nove, onde se definiram as linhas e a posição política das Forças Armadas?
Tive essa sorte. Embora fosse demasiado novo para participar em decisões, permitiu-me ter uma experiência direta no processo revolucionário e no da descolonização.

O que fazia?
Fazia a ponte entre os militares e o grupo do Sampaio. Também era muito solicitado para escrever papéis. Como secretariava o Melo Antunes, havia naturalmente algum trabalho de colaboração. Curiosamente, há pouco tempo descobriram uns escritos meus durante a discussão do Pacto MFA/Partidos.

Logo em 1974 candidata-se ao concurso de admissão de adidos na embaixada. O primeiro posto é em Luanda. Que memória guarda desse tempo?
Já tinha estado em Angola, com Melo Antunes, em 1975, e cheguei a fazer a ata de uma reunião com o Agostinho Neto. A seguir houve um corte de relações diplomáticas, porque Portugal não reconheceu o MPLA. Só em 1977 se reataram as relações, e fui com o embaixador João de Sousa Coutinho abrir a nossa primeira embaixada. Mal chegámos, apanhámos com o golpe do 27 de Maio de Nito Alves. A nossa presença ficou marcada pelo acompanhamento desse processo terrível e da violência que se lhe seguiu. Agostinho Neto tinha sido muito claro, qualquer português que estivesse metido no golpe seria expulso de Angola. A nossa única missão era proteger os portugueses, para que não fossem perseguidos, e chegámos a ir buscar pessoas a casa e a metê-las no carro para as levar para o aeroporto.

Cidades. Ao longo do seu tempo de diplomata, Castro Mendes manteve a sua casa de Lisboa. Mas entre todas as cidades, o Rio de Janeiro foi aquela onde mais se transformou

Cidades. Ao longo do seu tempo de diplomata, Castro Mendes manteve a sua casa de Lisboa. Mas entre todas as cidades, o Rio de Janeiro foi aquela onde mais se transformou

tiago miranda

Nessa altura já era casado?
Só casei pouco depois, já estava em Madrid. Mas a minha mulher não me acompanhou. Cheguei a Madrid em 1981 e apanhei com o golpe de Estado do coronel Tejero de Molina. As fronteiras tinham sido fechadas, o nosso Exército entrou de prevenção, e na embaixada estávamos com ligação direta ao gabinete de Francisco Pinto Balsemão, o primeiro-ministro, que nos deu autorização para receber como exilados os democratas espanhóis. Chegámos a montar camas na embaixada! Esses tempos da transição pós-franquista para a democracia foram extraordinários.

Também foi assessor diplomático na presidência de Ramalho Eanes. Como se deu com ele?
Muito bem. É um homem sério. A minha ligação ao Eanes, mais uma vez, tinha sido feita através do Melo Antunes. A nossa separação política só se dá quando ele decide fazer o PRD, mas ficámos amigos até morrer.

Nunca se inscreveu em nenhum partido?
Só em 1977, quando foi criado o Grupo de Intervenção Socialista [GIS], precisamente com o Jorge Sampaio. Quando o grupo se dissolveu para integrar o Partido Socialista, votei na integração, mas não aderi ao PS. Entretanto, tinha feito o concurso para a carreira diplomática, que era uma coisa que sempre me tinha atraído. Um diplomata não pode fazer política ativa.

Atraía-o um certo romantismo do diplomata escritor e viajante?
Essa ideia um pouco pomposa do diplomata nunca me seduziu. Interessava-me ter uma profissão na área política, e um diplomata é uma pessoa que trabalha para o seu Estado e o seu Governo. Também me atraía a expectativa de poder trabalhar em muitos contextos e muitos mundos.

Aquele que parece ter sido o seu objetivo mais marcante foi o de colocar o seu peso na área da diplomacia cultural. Foi unânime o reconhecimento do trabalho como cônsul no Rio de Janeiro. Diria que foi o ponto alto da sua carreira?
É verdade que sempre tive uma queda para a política cultural e, nessa área, a experiência do Rio de Janeiro foi extraordinária.

Por isso disse que foi a cidade do mundo onde mais intensamente viveu?
Mário Soares afirmava que ninguém volta igual do Brasil. Uma vez encontrou-me e disse: “Ó homem, você desde que esteve no Rio está muito melhor, parece outro!”

O que aconteceu no Rio?
Encontrei nos brasileiros uma resposta extraordinária ao meu trabalho e, por isso, era capaz de responder também de outra maneira a todos os estímulos que me eram dados. No Rio estava à vontade. Sentia-me mais seguro e gostava mais de mim mesmo. Naturalmente, tudo isso fazia com que tivesse uma relação melhor com os outros. Agostinho da Silva dizia que o português para se descobrir tem de encontrar o Brasil. Concordo absolutamente. Aprendi mais sobre o que é ser português depois de Angola, do Brasil e de Goa.

Um amigo seu disse-nos que o núcleo familiar era-lhe fundamental. Há pouco falava da solidão da itinerância na sua juventude, que é também uma circunstância dos filhos dos diplomatas. A sua experiência aproximou-o deles?
É inevitável. A saída do Rio, quando fomos para Budapeste, foi duríssima. As adolescentes já tinham os seus namorados, estavam na faculdade, e o Rio é muito acolhedor... Na verdade, custou-nos muito a todos. Mas também sabia que essa experiência os iria beneficiar. Tanto é que um dos meus filhos entrou agora para a carreira diplomática.

A família é o país que se transporta?
É a referência. Como se fôssemos uma ilha, porque à nossa volta tudo muda. De cada vez que mudamos temos de nos refazer e recriar como pessoas. Senti-me bem na carreira diplomática também por essa razão. Gosto muito da vida internacional.

E do que é que mais gostou na profissão?
Como já se disse, puxa-me muito para a diplomacia cultural. Mas a diplomacia envolve tudo, porque é a afirmação do nosso país num quadro de interesses em que o representamos junto de outros. Temos de os perceber e avaliar para explicar ao nosso Ministério o que os motiva e porque agem de determinada forma. O que mais me atrai é entender aqueles que são diferentes de mim, para poder negociar.

“Não há amigos, há interesses. Não há inimigos permanentes, há situações objetivas e relações de forças.” Citou esta frase como sendo uma das regras de ouro dos diplomatas.
E é de um enorme realismo em termos de relações internacionais. Existem duas escolas. A dos valores, dos direitos humanos e da ordem democrática e outra, da qual faz parte essa citação, que defende que em matéria de política externa nada é permanente e por isso temos de ser realistas e pragmáticos.

Por qual se guia?
É evidente que me guio por ideais. Sou socialista, acredito em determinados valores. Agora em termos de atuação, o mundo da política internacional é, infelizmente cada vez mais, um mundo de interesses. Temos de saber distinguir muito bem quais são os nossos interesses, para não nos deixarmos levar por determinados embalos ideológicos que, muitas vezes, traduzem os interesses dos outros.

Um diplomata tem de obedecer?
Tem.

Se não concordar com o programa do seu Governo em matéria de política externa, como faz?
Se estamos num país democrático e se se tomam decisões com as quais não concordo mas que não afetam os limites mínimos de decência, como funcionário do Estado tenho de seguir aquilo que o Governo eleito entende ser o melhor para o país. Já nos aconteceu a todos ter de votar numa organização internacional num sentido em que não estamos de acordo. Essa é a regra do jogo.

Poemas. A escrita é a constante que o acompanha desde a infância, apesar de ter ciclos, que podem durar anos, em que deixa de escrever

Poemas. A escrita é a constante que o acompanha desde a infância, apesar de ter ciclos, que podem durar anos, em que deixa de escrever

tiago miranda

Qual considera ser a sua maior qualidade como diplomata?
Paciência.

Faz agora um ano que foi convidado para substituir João Soares no lugar de ministro da Cultura. Estava em Paris, na UNESCO, e ia passar à disponibilidade na carreira diplomática. O que tencionava fazer?
Escrever.

Porque aceitou?
Atraiu-me a ideia de ter uma experiência que nunca tinha tido na esfera da ação política, numa área que sempre me interessou. Ia participar numa linha de governo com a qual me identifico e sentir-me-ia mal se não respondesse ao desafio.

É um Ministério difícil de gerir. Um dos traços que tem marcado a política cultural é a falta de orçamento e o descontentamento dos agentes culturais...
Sabia que não ia ser um alegre passeio pelo campo. Quando uma pessoa aceita um lugar destes, sabe que é um desafio difícil mas que vale a pena.

Encarou-o como uma missão?
Queria ajudar e contribuir para que a situação da gestão pública da cultura em Portugal melhorasse.

E melhorou?
Claramente. Quando cheguei, encontrei uma situação em que os instrumentos administrativos estavam completamente desarticulados. Alguns tinham sido simplesmente destruídos. Isto aconteceu por causa da obsessão em fazer fusões para reduzir a máquina administrativa. Estou a lembrar-me, por exemplo, da fusão entre a Direção-Geral de Arquivos e a do Livro, que não fazia nenhum sentido, porque são organismos com funcionamentos objetivos diferentes, ou da Direção-Geral do Património Cultural, que concentrou todos os organismos nacionais desta área e esvaziou os museus da sua autonomia administrativa. Muitos transformaram-se em meras repartições. Apenas alguns, como o Museu de Arte Antiga, tiveram uma grande criatividade e conseguiram libertar-se. Foi também preciso iniciar reforma na DGARTES [Direção-Geral das Artes], que estava sem dinheiro para completar e lançar os concursos de apoio à criação artística relativos ao ano anterior. Tudo isto leva tempo.

O orçamento para 2017 são 209 milhões de euros. Mais 20 milhões do que no ano anterior. Foi um ‘prémio’?
Foi o reconhecimento do Governo de que a cultura é fundamental para a requalificação dos portugueses. Se queremos um país que entre na concorrência internacional, tem de se criar um eixo de conhecimento que passa pela educação e tecnologia e pela inovação. A cultura é que dá a articulação e sentido a tudo isto.

Considerou qual o programa que gostaria de pôr em prática? Teria autonomia para o fazer?
Havia um programa estabelecido pelo Governo com o qual eu concordava. Claro que há um modo de o pôr em prática e queremos sempre acrescentar qualquer coisa. Se não o fizermos, não vale a pena. Nesse sentido, sempre considerei que poderia dar o meu contributo para que se fizessem as coisas bem.

Como?
Privilegio a auscultação e o diálogo entre os vários sectores culturais, e esse trabalho está a ser feito. Uma das coisas que me deu grande satisfação foi ter evitado a extinção da Fundação Coa Parque. Conseguimos pagar as dívidas e chamar novos fundadores, e agora o plano é que se revitalize a fundação com outros parceiros — como o Ministério da Ciência e as universidades —, para que se possa juntar ao turismo e ao ambiente a componente científica.

Teve agora o seu primeiro grande embate com vários agentes da área do cinema por causa do novo decreto-lei...
O que está em causa é a bolsa de júris da SECA, que tem o poder de apreciar todos os projetos a concurso para os filmes que serão financiados pelo ICA.

O problema é que nestes júris encontram-se empresas de telecomunicações que têm objetivos comerciais. Os agentes desta área consideram que esta lei gera conflitos de interesses.
Trata-se efetivamente de um conflito, na medida em que os próprios produtores e realizadores se encontram divididos na matéria. Temos estado em diálogo com o sector, conduzido pelo secretário de Estado, Miguel Honrado.

Mas vai alterar a lei?
Continuamos a trabalhar em diálogo neste processo. A nossa proposta de alteração legislativa reforça a posição dos produtores e realizadores na constituição dos júris.

Esteve em Berlim durante o festival, onde houve uma carta aberta que recebeu apoio de várias personalidades internacionais, incluindo o diretor do festival. Sentiu-se hostilizado?
Pelo contrário. Na apresentação do filme “Colo”, de Teresa Villaverde, que é signatária da posição da APR, tivemos oportunidade de conversar sobre este assunto de uma forma totalmente franca e cordial.

A discussão sobre a política de subsídios é central na estratégia para a cultura. Qual deve ser o papel do Estado?
Deve ajudar, não abdicando da sua função alienável, que é a função reguladora, fiscalizadora e também a de definir grandes objetivos. Uma cultura estatizante, completamente subsidiada, não é possível. Uma das linhas deste programa é precisamente encontrar mecanismos para aligeirar o peso do Estado, para que possa haver mais autonomia por parte das instituições que dele dependem. Considero fundamental uma efetiva descentralização, e estamos a trabalhar no sentido de devolver às autarquias, que têm desenvolvido uma grande atividade, determinados poderes que fazem sentido ficarem sob a sua tutela. Com critérios, evidentemente. Agora, também não subscrevo a ideologia liberal que defende que cada um vá ao mercado e se governe, porque o papel do Estado é defender o património. Essa não é a minha filosofia.

Qual é, então?
Entendo que uma parte da criação cultural tem de ser apoiada quando, naturalmente, não tem mercado que a sustente.

A sua marca de água vai sempre no sentido de criar condições para que as coisas aconteçam. Não o interessa edificar obra?
Mitterrand quis fazer uma pirâmide. Talvez eu seja menos estático. Como sou funcionário público, gostava de deixar o sector arrumadinho... A marca que gostaria de imprimir na minha passagem pela Cultura seria a de deixar movimentos para aproximar a cultura das pessoas.

Num dos barómetro da Eurosondagem para o Expresso/SIC, foi tido como um dos ministros com menos popularidade deste Governo. Um das críticas que lhe fazem é de ser uma figura demasiado na ‘sombra’.
Talvez tenha sido treinado na vida a não procurar a notoriedade. Quando é preciso estar na linha da frente, estou.

Mas concorda que um político deve ter visibilidade e, para isso, tem de ser mais impositivo...
É verdade que um político, se quer que reconheçam o seu trabalho, não pode ser apagado e tem de participar no circo mediático. Também não escondo que estou a fazer coisas e me dá gozo anunciá-las e que gostava que a tarefa que estou a conseguir desempenhar fosse mais conhecida. Mas não gosto de espetáculo nem de criar excitação em meu redor. Tenho o meu estilo. Cada um tem de viver de acordo com o seu estilo.

“A minha maneira de responder ao mundo é através da poesia.” É uma frase sua...
É verdade. Não a nível funcional, claro, mas a nível mais profundo e da minha interação com o mundo e as minhas circunstâncias. Quando fui para a Índia, o Manuel Alberto Valente desafiou-me a escrever, e eu descobri aquela máxima do escritor inglês que diz que quem vai para a Índia pensa que vai fazer um livro, ao fim de um mês pensa que vai fazer um artigo e ao fim de um ano desiste ou então dedica-se inteiramente à Índia para a vida toda. Realmente, a única maneira de responder à experiência extraordinária que é aquele território foi escrever poemas.

O seu desejo de notoriedade concentra-se na literatura?
Sim. É o nível de reconhecimento que está mais presente na minha imaginação.

São poucos os leitores de poesia.
Muitos ou poucos, são leitores. Cada poema, cada livro dirige-se a alguém que se reconheça naquele texto. O problema é que a gente não sabe se isso acontece e, portanto, procura o reconhecimento público. Mas o verdadeiro sucesso é quando um texto alcança e transforma o outro.

Tem essa confiança?
Escreve-se sempre numa situação de instabilidade e de suspeita. Escreve-se por desinquietação. Como dizia Horácio, ninguém, quando escreve, tem a certeza de que o que faz é eterno como o mármore.