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“Sabe, há alturas, quando estamos a fotografar, que devíamos saber mais da vida”: 15 histórias de 15 fotos de 15 ilustres

O fotógrafo Alfredo Cunha expõe a partir desta sexta-feira quatro décadas de imagens. Entre as 500 que podemos ver na Cordoaria Nacional, em Lisboa, há 160 retratos. Para o Expresso, selecionou uma série de 15, de algumas das grandes personalidades do nosso tempo, e conta-nos a história de cada uma dessas imagens, uma das quais inédita

O capitão Salgueiro Maia na madrugada de 25 de Abril com os tanques no Terreiro do Paço e mais tarde já na marcha da Revolução; milhares de caixotes abandonados em frente ao Padrão dos Descobrimentos, nos meses da descolonização. Lembramos estas imagens que se tornaram símbolos da nossa História na democracia e recordamos que ele esteve lá.

Alfredo Cunha, profissão repórter, hoje com 63 anos, começou em 1972, com 19 anos, no “Século”, inaugurou o ”Público”, onde foi responsável pela edição de fotografia com Luís Vasconcelos, esteve no “Jornal de Notícias”, foi fotógrafo na presidência de Mário Soares, publicou livros, fez inúmeras exposições.

Agora, dedicam-lhe uma retrospetiva, ”Tempo depois do Tempo”, que ocupa todo o espaço da Cordoaria Nacional. É uma longa marcha para percorrer com vagar, por mais de quatro décadas de História que nos pertencem. Ao todo são mais de 500 fotografias, a preto e branco, distribuídas por oito núcleos - Anos 70, Anos 80, Anos 90, Século XXI português, Século XXI internacional, Retratos, e o projeto Toda a esperança do Mundo, feito para a AMI com o jornalista Luís Pedro Nunes.

Helberto Helder - (2015)

Eu queria muito fotografá-lo, sabemos que nunca se deixava fotografar. De cada vez que lho pedia, ele respondia: "Um dia destes, destes." Mas a coisa não andava. Até que, há dois anos, falei com o José Alberto Valente, um dos editores da Porto Editora, onde eu também publico, e pedi-lhe. O Valente foi falar com ele e o Herberto disse-lhe: "Está bem, também quero que ele me faça umas fotos e que me assine o livro "Os Rapazes dos Tanques" (que eu tinha publicado com o Adelino Gomes).

Fui a Cascais, fiz as fotografias, perguntei se podia publicar, disse que sim e não levantou qualquer problema. Mas depois houve uns equívocos com a família, não me senti muito confortável, e não publiquei. Passado um mês, o Herberto morreu - e senti-me à vontade para o fazer. O nosso acordo tinha sido eu assinar o livro e dar dez fotografias à família. Era essa a única condição que ele me tinha posto.

Já o conhecia há muitos anos, foi sempre uma figura misteriosa. De repente, do nada, abriu a porta. Foi surpreendente a facilidade com que o fotografei e a afabilidade com que me recebeu.

Álvaro Cunhal (1976)

Esta é uma fotografia de reportagem, na altura feita para “O Século”. Foi tirada durante um comício do PCP no Pavilhão dos Desportos. Cunhal era um homem impressionante, com uma bela presença. Manteve sempre aquele ar de clandestinidade, andava sempre de cabeça levantada, era um homem direito, muito forte. Olhava-nos de frente e era impenetrável. Mas nunca hostil. Era das pessoas que eu gostava mais de fotografar. Fotografar o Cunhal era sempre, sempre, uma boa fotografia.

António Lobo Antunes (2016)

Aqui faz-me lembrar o Corto Maltese. A história com o Lobo Antunes é semelhante à do Herberto. Já o queria fotografar há muitos anos, pedi à Ana Sousa Dias, que é amiga dele, e ele nada. Nem respondia.

Até que, no ano passado, desabafei com o Rui Cardoso Martins: "Já fotografei os irmãos todos e só me falta ele. Não consigo nada." O Rui falou com o António e eu acabei por ir lá a casa. As fotografias demoraram dez minutos a tirar, ficámos três horas à conversa e desfiz toda a má impressão que tinha sobre ele. No fim acabou a dar-me conselhos matrimoniais!

David Mourão-Ferreira (1996)

Era um senhor discreto, muito educado. Falava num tom muito suave. Intimidava por ser quem era, mas também por ser tão educado. Somos mais metidos em respeito pela educação do que pela brutalidade. Este retrato tem uma particularidade muito engraçada. Foi feito numa sessão de estúdio, para uma entrevista do "Público". Fiz uma sessão normal, estava muito satisfeito, porque tinha tirado bons retratos. Acabei de o fotografar e desliguei as luzes. Quando ele veste o sobretudo, encosta-se. Estava com um ar muito cansado. Olhei para ele e, completamente fora da sessão, sem iluminação especial, sem nada... Sabe o que é de repente vermos na nossa frente a fotografia certa? Foi o que me aconteceu com o David-Mourão Ferreira.

Eugénio de Andrade (1998)

Também foi tirada para uma entrevista no "Público". Cheguei a casa dele, no Porto, e ele disse-me: "Quero ser fotografado ali". Ao princípio não percebi. Só depois vi que os vidros eram espelhados. Estava a posar e estava a ver-se ao espelho. Sempre que tentava que ele mudasse de posição, resistia. Mudei eu de posição e fiz a sessão toda desse ângulo. De facto, o Eugénio de Andrade tinha razão, aquele era o sítio certo. Ele era um homem muito teatral, de grandes gestos. Posava como quem declamava poesia.

João Lobo Antunes (2013)

Dávamo-nos muito bem, era muito divertido, enquanto o fotografava dava-me consulta. Uma vez tive um acidente: "Ó João, estou aqui cheio de dores no braço. E ele: "Deixa lá isso, tens é de fazer exercício", isto durante a sessão. Fotografei-o muitas vezes para os jornais, mas esta fotografia foi feita de propósito para o livro de retratos com a Ana Sousa Dias. Ele já não estava bem. Disse-me: "Vá lá, então. Fotografa-me enquanto estou bonito."

João Perry (1994)

Foi também para uma entrevista. Cheguei a casa dele e fiquei surpreendido com a sua biblioteca de fotografia. Enorme. Das pessoas todas que conheço, provavelmente só o António Barreto terá uma biblioteca de fotografia maior do que a dele. O Perry sabe imenso de fotografia e sabe exatamente como quer ser fotografado. É um ator. Não me deu trabalho nenhum. Demorei dez minutos a fotografá-lo e daquela sessão saíram montes de retratos. Foi uma dificuldade escolher um retrato de João Perry. Podia fazer um portefólio inteiro só dele.

Joana Vasconcelos (2014)

Durante muitos anos fui sócio do Luís Vasconcelos. Éramos os dois editores de fotografia do "Público" e também fotógrafos de Mário Soares.

Ele é pai da Joana, conheço-a desde pequenina. Lembro-me dela com três, quatro anos, íamos juntos para a praia de Sesimbra. Para mim sempre foi "a Joana ". Esta fotografia também foi feita para o livro de retratos. Cheguei ao ateliê e ela apareceu: "Bom, chefe (sempre me tratou assim), então vamos lá". E assim foi. Sem história.

Mário Cesariny de Vasconcelos (1994)

O Torcato Sepúlveda foi entrevistá-lo a casa dele e a sessão foi muito longa, porque o Torcato avariou o gravador e teve de repetir tudo. Ficámos lá uma data de horas. O Cesariny quis ser fotografado junto dessa estátua. Não sei se é dele, ou não, sei que fez questão em ser fotografado aí.

Mas essa não foi a primeira vez que estive com ele. Já o tinha fotografado algumas vezes. A história mais divertida foi quando ele resolveu fazer sozinho uma manifestação contra o Dr. Soares em frente ao Eden e pôs-se à porta do cinema com um cartaz na mão. Chegou um polícia e quis levá-lo para a esquadra. O Dr. Soares, que estava lá dentro, veio cá fora: "Ó sr. guarda, deixe lá, que o homem é poeta!" E o Cesariny enrolou o cartaz e foi-se embora. Fotografei-os neste acontecimento para a última página do "Público".

Marcelo Rebelo de Sousa (2016)

A primeira vez que o fotografei talvez tenha sido em 1980, quando era líder do PSD. A gora queria fotografá-lo na sua condição de Presidente da República. Em vez de ter a bandeira nacional, fiz-lhe o retrato com a matrícula oficial do carro da presidência, porque ele anda muito à pé. Propus-lhe fazermos assim a foto, e ele concordou logo.

O Marcelo foi o meu primeiro editor. Fiz com o Luís Vasconcelos um livro sobre o Sá Carneiro. Na altura, Marcelo tinha uma editora, a Cognito, e escreveu o texto. Sempre que nos encontramos fala-me nesse livro: "Temos de o reeditar!" É muito engraçado.

Maria Lamas (1972)

Foi uma entrevista que a Maria Antónia Palla, a mãe do António Costa, lhe fez para o "Século Ilustrado". Eu tinha acabado de entrar para o "Século", era um miúdo, tinha 19 anos, e não sabia quem era a Maria Lamas. A Maria Antónia explicou-me: "Vais fotografar uma senhora muito importante e está ligada à oposição. É uma senhora de grande cultura". Quando cheguei, fiquei muito impressionado. Era uma senhora de cabelo branco, muito bonita, com um porte muito firme. Só voltei a vê-la mais uma vez. Logo depois do 25 de Abril.

Francisco Sá Carneiro (1975)

Também foi uma entrevista para o "Século Ilustrado", no Verão Quente. A fotografia foi tirada na casa dele, no Porto. Foi uma coisa rápida, estava com pressa, porque tinha de fotografar muitas outras coisas no Porto, a redatora ficou a fazer a entrevista e eu fui-me logo embora... Sabe, há alturas, quando estamos a fotografar, que devíamos saber mais da vida. Mais tarde acabei por fotografar muitas vezes Sá Carneiro, fiz até um livro sobre ele, mas tenho muito poucos retratos dessa sessão e desse momento de intimidade. Hoje sinto-me frustrado por não ter dado importância ao momento. Essa fotografia é muito conhecida, porque ele depois veio a ser uma figura muito importante. Mas na altura não me apercebi.... É muito estranho.

Urbano Tavares Rodrigues (2013)

Foi no verão. Já o tinha fotografado várias vezes, mas desta vez o Baptista Bastos que disse que eu tinha mesmo de ir lá a casa fotografá-lo e combinou tudo. Eu tinha trabalhado com ele no "O Século" e percebi que seria uma despedida. Foi duas semanas antes de o Urbano morrer. Mais tarde, ao olhar para as fotografias, pensei que ele sabia. Já sabia que estava muito perto do fim.

Valter Hugo Mãe (2016)

Já o fotografei muito. Gosta sempre dos meus retratos e sempre que me encontra diz: "Tens de fotografar, agora é que estou bem!". E andamos nisto há uns cinco anos... A primeira vez que me encontrei com ele foi para uma sessão para a revista "Ler". A minha filha é leitora dele, e levei um livro para autografar. Entendemo-nos imediatamente. Hoje somos grandes amigos.

António de Spínola (1990)

Não é um retrato formal. Foi no desfile militar do 10 de junho. Eu estava intrigadíssimo, a tentar perceber como é que segurava o monóculo. Eu tinha uma teleobjetiva com 300 mm - na altura andava sempre com este material - e foquei-o. O interesse desta fotografia é esse, é ter percebido como é que ele segurava o monóculo. É a primeira vez que a publico.