Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Entre as brumas da memória

“Comboio de Sal e Açúcar”, a memória da guerra civil moçambicana

DR

A evocação do passado colonial africano e das vicissitudes pós-independência em foco na 37ª edição do Fantasporto

É provavelmente um acaso mas se assim for é um acaso feliz. Nesta 37ª edição do Fantasporto passaram dois filmes que nos confrontam com o passado colonial português. Em ambos os casos se trata de coproduções envolvendo equipas portuguesas, angolanas, moçambicanas, são-tomenses, etc. Enquanto os americanos exorcizaram os fantasmas da derrota (político-militar) no Vietname com obras que entraram para a história do cinema, desde “Apocalpypse Now” a “O Caçador”, “Platoon” ou “Jardins de Pedra”, Portugal ainda hoje continua à espera do grande filme sobre a guerra colonial, pesem embora “Um Adeus Português” (João Botelho) ou “Non” (Manoel de Oliveira).

Esse indispensável olhar veio de fora, ou seja só foi possível filmando em África. Primeiro com “A Ilha dos Cães” de Jorge António que vos referi em crónica anterior, uma produção luso-angolana-são-tomense. Um olhar sobre Angola desde a escravatura, à luta de libertação e às atuais dificuldades em ter uma economia sã, livre dos tentáculos da corrupção. Com esta curiosidade: tanto Jorge António como o seu irmão Luís Correia se apaixonaram por África, o primeiro com este filme sobre Angola e o segundo com um belíssimo documentário passado há meses na Gulbenkian (“No Reino Secreto dos Bijagós”).

O filme passado quarta-feira à tarde chama-se “Comboio de Sal e Açúcar” de Licínio Azevedo (produção envolvendo Portugal, Moçambique, África do Sul e Brasil). Nada melhor que uma viagem de comboio em tempo de guerra para construir um filme. Pense-se em “O Comboio” ou “La Bataille du Rail” para nos ficamos só sobre a II Guerra Mundial e o papel dos ferroviários na resistência francesa.

A ação passa-se em 1988, no pico da guerra civil entre Frelimo e Renamo que ensanguentou Moçambique após a independência e durante a qual foram cometidas atrocidades pelos dois lados mas onde a extrema crueldade dos rebeldes sobre os civis não foi um aspeto menor.

O comboio faz uma viagem aventurosa entre Nampula e o Malawi. Os civis arriscam a vida para trocar sal por açúcar e os ferroviários têm que enfrentar linhas em mau estado, frequentemente sabotadas e represálias terríveis dos rebeldes. A bordo vai tropa para dar cobertura à viagem.

Estamos em África e as velhas crenças não morrem. O comandante Sete Lugares comanda os soldados governamentais e sente-se protegido por um poder superior que o faz ver o que mais ninguém vê: detetando algo de suspeito, manda levantar acampamento e pôr o comboio em marcha em plena noite com os faróis apagados para logo depois os mandar acender, a tempo de iluminar a via cheia de obstáculos. Os soldados temem-no mas temem ainda mais o comandante inimigo que dizem ter artes de se transformar em macaco para os espiar, coisa que Sete Casas não nega: manda parar com as comunicações pela rádio, não porque o inimigo as intercete mas porque “os espíritos que o protegem podem ouvir”.

O registo é o de um filme de aventuras mas ilustrando também o absurdo da guerra, os abusos dos soldados sobre os civis e o povo que tenta sobreviver e fazer uma vida normal no meio do caos. Em resumo, bom cinema e falando de algo que, mesmo depois da independência, não pode deixar de nos tocar.

Como o prezado leitor pode constatar o Fantasporto não é só zombies e fantasmas. Nem o Porto é só este festival. Ainda na terça-feira num intervalo dos filmes tive o privilégio de assistir ao concerto de Carnaval da Orquestra Geração na Casa da Música. Se há projeto de educação musical que merece todos os aplausos este é seguramente o caso.