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Sérgio Godinho: “A minha 
música interna”

“Coração Mais Que Perfeito”, a lançar esta semana pela Quetzal, é a mais recente obra de Sérgio Godinho. O primeiro romance e a certeza de que como escritor veio para ficar

Cristina Margato

Cristina Margato

(Entrevista)

Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

(Foto)

Fotojornalista

Sérgio Godinho vai continuar a escrever, apesar de prever o lançamento de um novo álbum de canções este ano

Sérgio Godinho vai continuar a escrever, apesar de prever o lançamento de um novo álbum de canções este ano

António Pedro Ferreira

Uma mulher das margens, para quem “a vida é mais que injusta, primeiro verde, depois vermelha” (como num semáforo). Um percurso cheio de tragédias e de desvios. Um ator que enlouquece, e se suicida, e um diamante, feito de cinzas, que se transforma numa ideia demasiado romântica. Não sei se se pode adiantar muito mais sobre o primeiro romance de Sérgio Godinho sem estragar a leitura de “Coração Mais Que Perfeito”, a lançar esta semana pela Quetzal. E se este não é o livro que inicia outra vida para o músico, cantor e letrista, senhor de muitas canções que passaram a fazer parte da nossa genética, é, de certeza, a afirmação de que Sérgio Godinho é, e quererá continuar a ser, escritor.

Já se sentia escritor antes deste livro?
Já. Mas descobri isso com o “Vidadupla” [Quetzal, 2014], nove contos, nos quais trabalhei em sequência, um após outro. Se bem que aqui foi diferente. Foi um abalançar para um outro fôlego. Nunca tinha vivido numa continuidade de escrita tão grande. As canções são o conjugar de duas artes, duas formas de expressão, cada uma com linguagens muito codificadas, porque há toda a dimensão harmónica, melódica, e há as rimas. Às vezes há inércias a fazer uma canção... Aqui nunca fiz um sacrifício. Apetecia-me escrever! Não tinha de me obrigar. Aqui há, de facto, um fluxo que eu não conhecia.

A criação de personagens não é uma novidade para si. Já existia 
nas canções...
Sim, e também existiam as mulheres fortes, como acontece neste romance. Ela [Eugénia] até pode ter valores flutuantes, e não ter rumo ou um fito na vida, mas é uma mulher com força própria, desde adolescente.

Queria voltar à questão da escrita para tentar encontrar a data em que nasce o escritor. Que idade é que tinha?
Teria 66... Por aí.

Antes disso nunca pensou em ser escritor?
Sempre gostei de escrever. Quando era miúdo escrevia e tinha um jeito natural para fazer as redações de português. Tinha sempre boas notas graças a essas redações. Os meus pais eram grandes leitores, mas o meu pai, que me incentivava a escrever, e a quem eu, de vez em quando, mostrava umas coisas, dizia-me, e com razão, que é preciso acabar o que se começa... Eu sou um bocado impaciente. Estudei piano dos 10 aos 12 anos e depois deixou de me apetecer...

Foi preciso alcançar uma certa maturidade?
Sim. É engraçado. Mas depois a escrita tornou-se algo tão evidente que eu sei que vai continuar, até porque já continuou. Já escrevi outro romance, que só sairá daqui um ano. Há duas datas importantes: a de quando percebi que estava a conseguir fazer canções em português; e esta em que se abriu uma espécie de fluxo criativo que muito depressa se tornou numa linguagem natural. Não quer dizer que eu não cuide a escrita. Também não é escrita automática...

Apesar deste e de “Vidadupla” serem dois livros completamente diferentes há um ritmo que é muito seu. Pode vir das canções?
Não sei se vem das canções. É a minha música interna. Quando escrevo, geralmente à noite, ou ao fim da tarde, ao computador, depois de um primeiro copo de vinho a sério, leio em voz em alta, porque acho que o equilíbrio musical ou paramusical de uma frase é importantíssimo. Porque é que a frase não soa bem? Porque é que emperra ali? Por vezes há rimas involuntárias que não ficam bem... e corrige-se.

Diz que ao escrever canções pensa na música primeiro... Aqui acontece algo semelhante?
Não. Aqui é mais uma respiração. Penso que todos os escritores têm uma música própria.

Do livro de contos para o romance perde a contenção. Este livro 
permitiu-o espraiar a escrita?
O resultado acaba por ser esse, mas o que acontece é que o tempo de um conto é mais conciso, e deixa coisas em aberto que podiam continuar. Sobre o último conto que escrevi para o “Vidadupla”, houve quem dissesse, inclusive o meu filho, que lhe apetecia continuar a ler a história. Aquele era o tempo do conto. No romance há tempo para desenvolver as personagens. Pode-se abandoná-las e deixá-las desaparecer... para encerrar o assunto, que, para quem ler o livro, é o diamante.

Foi a história do diamante, que nasce da transformação das cinzas de um morto, que desencadeou este romance?
Foi. Depois andei para trás, criando personagens à volta disso.

Acha estranho transportar 
um diamante destes junto ao corpo, em forma de pendente ou de anel?
Sim, é muito estranho. Mas ao mesmo tempo transforma-se numa ideia estranhamente romântica. Ela [a personagem principal] passa a transportar o corpo do seu amado junto do dela, embora isso acabe por contaminá-la no mau sentido, por algo que ele [que é ator] também foi contaminado no teatro, por outra atriz. É, aliás, aí que ele começa a sua decadência, a sua depressão. São coisas que acontecem no teatro e há casos que conheço.

Já no outro livro começava com 
a história de uma atriz. O teatro está muito presente na sua vida, 
e até foi por causa do teatro que voltou a Portugal...
Sim. O teatro é muito importante. O romance permitiu-me desenvolver coisas que me são familiares, embora não tenha usado nada da minha vida de ator...

Porquê a vontade de se meter 
na pele de uma mulher e de uma história muito complexa, 
que incluiu um aborto?
Um aborto que é longo, e penoso. Embora o livro não tenha sido lido por muita gente, já houve duas mulheres que ficaram muito incomodadas com a parte do aborto, que é clandestino e que, ainda por cima, corre muito mal. Tinha de ter essa agonia, da febre que não desce... Sem me estar a gabar, gosto e compreendo o universo feminino e sempre tive amigas reais, com quem a minha relação é muito boa. Eu não compreendo aquelas pessoas que dizem: “Para mim, a mulher é um mistério completo e não compreendo o universo feminino.” Eu compreendo! Talvez porque tive uma relação cúmplice com a minha mãe. Talvez venha daí. Não sei. Sempre foi uma coisa que foi natural. E as minhas personagens femininas nas canções são fortes.

E se calhar são mesmo em maior número que as masculinas?
Sim.

Esta mulher é fácil de encaixar numa mulher real... Mas a história dela está cheia de tragédias, azares, que às vezes aligeira pelo lado cómico...
Sim, às vezes pelo insólito. Há um efeito de comic relief. Pode aligeirar-se num determinado momento a narrativa que às vezes é dramática. Há também uma personagem que tem um lado cómico, que é aquele Eugénio, que é um tipo que faz jogos de palavras.

Foi para corresponder ao seu gosto por trocadilhos?
Sim, de repente aconteceu. Há certos trocadilhos, piadolas, que eu faria de vez em quando. Mas é a única personagem em que isso acontece. A minha escrita não tem nada a ver com jogos de palavras.

É também um livro com muito sexo...
Sim. Tanto dele como dela. Há também uma sensualidade e intensidade na personagem dele. Apareceu-me naturalmente. Acho que não sei explicar. Embora a palavra mau gosto seja a palavra mais subjetiva do mundo, eu acho que no sexo se cai facilmente no mau gosto. É preciso ter um certo tato. As minhas descrições nunca são exaustivas. Tem de se ver o quanto é gráfico e o quanto é sugerido, ou apenas chapado.

De que maneira é que o escritor pode contaminar a sua música?
Não acho que contamine. São áreas muito diferentes. Agora parei o meu terceiro romance, já que o segundo está terminado. Parei porque tenho de ter recuo, para saber para onde é que aquilo vai. Tenho dois ou três caminhos possíveis. Quero repensar. Mas sobretudo porque estou a começar a compor. Se tudo correr bem, lá para setembro haverá um álbum novo, com letras minhas, e algumas músicas de outros compositores. Quero atirar-me mais a isso, embora vá agora ao [Festival] Rota das Letras, em Macau, como escritor e músico, por exemplo.

O músico não deixou de existir...
De maneira nenhuma. Ainda por cima, os palcos para mim são o exercício totalmente oposto da solidão da escrita. Mas gosto dessa solidão. Preciso dela. Gosto de estar sozinho.

Esse tempo de escrita foi roubado 
a quê?
A ler, a ver filmes. Às vezes, digo a brincar que, à noite, em vez de ler um livro escrevo um livro. Mas não é uma coisa obsessiva que me afaste dos meus amigos. É algo que vai avançando.