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A vida para além da morte

“Realive”, produção franco-espanhola que confronta a medicina com os seus limites éticos

DR

Produção franco-espanhola inspira-se no “Admirável Mundo Novo” e confronta a medicina com os seus dilemas éticos

Nesta crónica falo-vos daquele que é, muito provavelmente, o melhor filme até agora passado na 37ª edição do Fantasporto. Se pensarmos puramente em terror, a fita americana de que já vos falei em crónica anterior – The Evil Within”, de Andrew Getty – leva a palma. Mas se abrirmos o leque, “Realive” de Mateo Gil vai bastante mais além.

É um filme simples, construído por episódios (algo do princípio da Sétima Arte a que muitas vezes se continua a recorrer, como o fez o argentino Gonzalo Calzada em “Ressurección”) e que conta a história de Max, um artista plástico talentoso a quem tudo corre bem até descobrir que a mesma doença incurável que lhe levou o pai o ameaça também a ele.

Como não quer repetir o calvário do pai e não lhe falta dinheiro, decide optar pela congelação, à espera que a medicina do futuro o possa curar. Há apenas um problema: a mulher da sua vida, com quem tem uma relação intensa mas tempestuosa, não o pode acompanhar nessa viagem.

Acorda em 2084, numa sociedade muito diferente, num corpo semissintético que só é parcialmente seu, atormentado pelas recordações do que deixou para trás. Ao mesmo tempo é tão estranho numa terra estranha como o selvagem despertado em “Admirável Mundo Novo”. Só quer voltar a morrer, mas será que os cientistas que investiram fortunas na sua reanimação/reconstrução estão pelos ajustes? A narrativa oscila constantemente entre futuro e passado, um pouco à maneira de “Peggy Sue Casou-se” fita de que alguns ainda se lembrarão.

Belíssimo, comovente sem ser lamechas e perturbador, “Realive” obriga-nos a reflectir sobre os paradoxos da existência, pois, como recorda a certa altura o personagem antes de se suicidar para poder ser congelado, “vivi intensamente o último ano da minha vida, espremendo cada segundo, mas tê-lo-ia feito se não tivesse escolhido morrer?”

Vindo doutras paragens e num registo completamente diverso um filme israelita também nos fala de amores impossíveis e corpos modificados pela tecnologia. Trata-se de “OMG, I’m a Robot” de Tal Goldberg e Gal Zelezniak, uma comédia de ficção científica no meio da qual emergem subtilmente alguns dos problemas da atual sociedade israelita, desde os ultraortodoxos, caricaturados por um robô beato que passo o tempo a dar bênçãos e não corre programas ao sábado, até aos imigrantes judeus russos dos quais há razões (políticas) para desconfiar.

Referência final para um divertido desenho animado francês (Les Animaux Domestiques) que humaniza os bichos com os quais o homem convive há milénios, desde os cães e gatos, aos sapos (que não se transformam em príncipes), moscas ou borboletas.