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Cinco considerações esquisitas sobre Mahershala Ali, o melhor ator rápido do mundo

Frazer Harrison / Getty

O Mahershala Ali venceu o óscar de melhor ator secundário. E se isto parecer uma declaração de afeto é porque é

O Mahershala Ali tem um bigode delgado e um nome extraordinário: Mahershala é exótico, podia ser nome de perfume egípcio, Ali é Ali e por isso evocativo da violência e honra dos punhos do Muhammad. E um bigode diz muito sobre um homem: o dele é subtil logo enigmático, é meditado logo vaidoso. O Mahershala Ali tem um nome e um bigode distintos e um homem não precisa de possuir muito mais.

O Mahershala Ali fez de manipulador e manipulado no House of Cards: começa orgulhoso enquanto se mexe por entre horrores políticos, acaba vergado enquanto protege essa fraqueza poética que é o amor impossível. Aquela ambiguidade de um homem tendencialmente bom cercado por gente alegremente má e que o transforma num homem tendencialmente menos bom cercado por gente ainda mais alegremente má é uma das dádivas de House of Cards. O Mahershala Ali faz muito com o pouco tempo que lhe dão e um homem não precisa de desperdiçar muito mais.

O Mahershala Ali faz de rufia vintage no Luke Cage e só dura metade da série: mata com os punhos para manifestar a autoridade de um homem que não precisa de uma arma, mata com armas para manifestar a incoerência de um homem autoritário, morre na incoerência de ser assassinado pela pessoa mais frágil do mundo dele. E enquanto ele mata e não morre vemo-lo a administrar o melhor clube noturno do mundo – num dos episódios do Luke Cage há Delfonics a tocar ao vivo esse acontecimento erótico que é a “Stop and Look (And You Will Have Found Love)” -, descobrimos-lhe a angústia de infância que fez dele um músico frustrado e um mafioso deslocado e compreendemos que aquela aparição em House of Cards não foi acaso mas aptidão: ele tem o dom de representar a ambiguidade. O Mahershala Ali manifesta que não há gente plenamente boa nem determinantemente má e um homem não precisa de saber muito mais.

O Mahershala Ali faz de traficante no “Moonlight” mas na verdade o Mahershala Ali faz de fantasma no “Moonlight”: só lhe dão um terço do filme e os dois terços seguintes não explicam como morreu mas cumprem-lhe a assombração - tudo o que acontece depois é por ele, inspirado nele, influenciado por ele. No pior e melhor dele. Porque o Mahershala Ali recapitula no “Moonlight” a ambiguidade que lhe apreciamos, resumida assim: vende droga à mãe da criança que decidiu salvar. E a bondade é tão complexa como a violência, tal como é complexa a violência de o ver sumir de “Moonlight”: uma das últimas cenas dele é um milagre de cinema - é ele, o mar e a criança a aprender a nadar. Só isso. Tanto isso. O Mahershala Ali esclarece-nos a virtude da simplicidade e um homem não precisa de complicar muito mais.

O Mahershala Ali é o melhor ator rápido do mundo porque o Mahershala Ali ora aparece pouco, ora fala pouco, ora vive pouco e nós precisamos dele muito mais. Para descobrirmos se ele é o melhor ator não rápido do mundo.