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Uma luta contínua chamada arte

antónio pedro ferreira

São mais de cem as obras de Graça Morais que a Fundação Champalimaud vai apresentar em exposição a partir do início de março. Três décadas de um trabalho centrado no figurativo e no ser humano e um trabalho que une Trás-os-Montes a um universo global. A pintura e a pintora numa conversa privada

Alexandra Carita

Alexandra Carita

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Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

A noite já caiu. Graça nem dá por ela. No ateliê da Rua da Costa do Castelo, aqueles 200 m2, que comprou a crédito e a fizeram suar as estopinhas, vibram de cor. Há tralha por todo o lado mas as obras encostadas às paredes batem o pé para mostrar que a arte ali se chama pintura. Rostos descansados, rostos assustados, rostos deformados e máscaras, muitas máscaras, teimam em mostrar os dramas das vidas que a pintora expõe em cada tela. Os dramas e as ameaças, os medos, os fantasmas de uma vivência que une um Trás-os-Montes rural a um mundo global feito de horror e violência. Tudo junto resulta numa obra tumultuosa feita de memórias ruidosas e de ecos de uma realidade que se impõe em cada dia. Telúrica e efabulada.

É assim o trabalho de Graça Morais, que, naquela sua calma aparente, sorriso fácil, ingenuidade à flor da pele, deixa escorrer de umas mãos que, com a razão, aos nove anos, teimaram em perscrutar o desenho, animadas por uma paleta de aguarelas de brincar. Com um olhar independente mas muito focado no mundo onde cresceu e onde aprendeu o que é ser mulher, a artista avança aos 68 anos de idade para uma exposição “quase antológica”. A mostra inaugura-se a 1 de março na Fundação Champalimaud, em Lisboa, e apresenta mais de cem trabalhos de uma Graça Morais apostada em trabalhar até ao limite. “Gosto é de pintar e não consigo deixar de o fazer mesmo que seja de uma forma caótica.” A maioria das pinturas, como chama a cada quadro, provém da coleção privada de José Paço d’Arcos, o seu maior colecionador, e a elas juntam-se obras que a artista produziu ao longo dos anos mas que não foram expostas e ainda alguns inéditos.

“Aqui, por exemplo, comecei por pintar um sírio que salvou uma criança dos escombros. Mas desde que Donald Trump ganhou as eleições passei a transformar a cabeça do homem nesta caveira que tenho aqui e que me foi oferecida por um pastor, e, agora, isto já é uma besta que entrou na minha pintura e que não sei para onde vai”, explica apontando para a tela enorme que está atrás de si e que ainda pinta e repinta no ateliê arrastada na narrativa que os jornais de hoje lhe vão ditando. “Hoje os jornais são uma fonte de inspiração para mim, o que não acontecia há 30 anos. Nessa altura, a minha documentação era direta ou feita com a minha máquina fotográfica. Quando estou a fotografar já estou a fazer o enquadramento e a pintura, mas depois chego à tela e ela surpreende-me sempre. Agora é diferente. Sempre fui uma grande leitora de jornais. Às vezes compro vários para perceber como é que o imaginário do meu país é alimentado. É curioso ver o que alimenta a cabeça das pessoas.”

Essas figuras dos jornais passaram a compor e a tomar conta do trabalho da artista desde 2011, quando apresentou “A Caminhada do Medo”, e mantiveram-se tema recorrente em “Os Desastres da Guerra”, em 2013. “Hoje um artista não pode ficar fechado no seu casulo. O que se está a passar no mundo desde 2008 a esta parte e que tem que ver com os grandes colapsos económicos que deram azo a esta desumanização e a esta corrupção. Tudo isso me fez refletir: Andei eu a pensar que lidava com pessoas de bem e, afinal, ou sou parva ou ingénua...”

“Aquela figura masculina”, diz, “é aquele jovem que foi maltratado pelos filhos do embaixador do Iraque”. Graça explica que reparou nele na televisão, onde primeiro aparecia muito contente e alegre e, depois, saído do hospital tinha já um olhar triste. “Que situação tão trágica e tão dramática aquele rapaz teve que lhe mudou o olhar. Coloquei-o neste quadro porque é um caso de violência. Que é a mesma violência das mulheres.” Aquelas que há anos retrata como se de um karma se tratasse, as mulheres da sua terra, as suas mulheres e a sua terra. “Os homens não conseguem encaixar a grande independência das mulheres. Quando uma mulher escolhe a separação, eles não entendem. Como é possível serem rejeitados?, perguntam-se. Mas eles rejeitam-nas e maltratam-nas. Elas não aguentam mais.”

Aquelas mulheres são as mesmas com quem Graça Morais vivenciou a experiência do dia a dia. Entre 1980 e 1982 instalou-se outra vez em Trás-os-Montes, onde vivia a família, e pintou-as a todas, da mãe, figura proeminente na sua obra e na sua vida, a Maria, empregada lá de casa durante uma vida, e à mulher anónima vergada pelo trabalho e pela amargura de uma existência pouco vibrante. São séries e séries de rostos desencantados, de dramas coletivos, que gritam como as mulheres que viu em Madrid nos desenhos preparativos da “Guernica”, de Pablo Picasso. “É a grande transformação da dor.” Mas também o trabalho que mais lhe ficou colado ao corpo. Trás-os-Montes debaixo de um olhar feminino sobre o universo feminino. Sem direito a paisagem, o figurativo da artista apodera-se desses olhares com que as mulheres se entendem sem terem sequer de dialogar.

Graça Morais nasceu na pequena aldeia do Vieiro, em março de 1948. Terra isolada, sem estrada que chegasse lá, sem eletricidade e sem telefone, dependente da lavoura e da vida dura que lhe está associada. Sem acesso a jornais, além do jornal católico e do jornal da Casa do Douro, descobriu-se pintora logo em criança. Ninguém na família tinha ligações à arte mas a escolha do ofício foi teimosa e perentória. “Às vezes pergunto-me porque é que eu, nascendo numa aldeia tão isolada, com nove anos pensei que gostava de desenhar e de pintar, e queria ser pintora.”

Nessa altura estava em África, numa aldeia moçambicana tão afastada do mundo como o Vieiro. Foi para lá com sete anos com a mãe e os cinco irmãos ao encontro do pai, que tinha deixado Trás-os-Montes há um ano. “O meu pai, que era uma pessoa muito sensível, e que tocava muito bem guitarra, ofereceu-me lá em África uma caixinha de aguarelas. Lembro-me de que passava o tempo a desenhar porque aquelas aguarelas me deram a certeza de que gostava de pintar. Antes só desenhava com lápis de cor, com as aguarelas senti o que era a cor, a maravilha da cor.”

antónio pedro ferreira

A decisão estava tomada. Obstinada, dizia à mãe insistentemente que queria ser pintora e sabia que seria difícil, “então para uma mulher!” A mãe respondia-lhe que ela não podia ser pintora porque iria passar fome, ela ripostava que preferia passar fome. “Não percebo porque tive essa necessidade e quis impô-la.” O certo é que quando chegou ao colégio de Vila Flor já o desenho a obcecava. Conteve-se até ao secundário, mas em Bragança, onde frequentou o liceu, além de nome até já tinha cognome. Era Graça, a pintora. “Era muito solicitada para o jornal do liceu e sempre que havia qualquer coisa para pintar lá ia eu.”

O desenho lado a lado, ali, muito presente a acompanhar a tela, a dar-lhe força. “Preciso de desenhar. Mesmo que deixe muitos desenhos incompletos a encher blocos e blocos que andam sempre comigo.” Ao mesmo tempo, a música e a leitura a preencherem os tempos mortos que lá ia tendo. “Na casa da minha mãe havia poucos livros, lembro-me de os ir buscar às célebres carrinhas da Gulbenkian. No entanto, na família do meu pai, que eram uns proprietários cultos, com uma casa grande, já havia muitos livros, mas sobretudo os nossos autores portugueses.” Não obstante, nas férias passava o tempo a ler banda desenhada. O irmão Cristiano, dois anos mais novo, assinava o “Cavaleiro Andante” e Graça aproveitava para se entreter com os bonecos.

Nessa época, a vida da pintora passava muito pelos trabalhos da casa. Com o pai ausente desde os seus 12 anos (a artista só viria a encontrá-lo de novo aos 23 anos), Graça via na mãe a figura determinante da sua vida, vindo a tornar-se também marcante na sua obra. “Passei a minha adolescência a ajudar a minha mãe a tomar conta dos meus irmãos. Fui desde muito nova o braço-direito dela. Tive muitas responsabilidades. Era novíssima e ia a Vila Flor pagar as contribuições, por exemplo. Tinha o dever de apoiar a minha mãe e era muito sensata. Sentia solidariedade para com ela, sentia que ela era uma grande lutadora, uma mulher de grande coragem e de uma grande honestidade. Sempre apaixonada pelo meu pai, que foi o homem da vida dela, e a sofrer imenso com a ausência dele. Uma sábia, daquelas que na aldeia se tornam referenciais na vida coletiva. Morreu há três anos.” O único momento em que Graça Morais teve contacto com a morte e com o vazio. “Acho que o ato de pintar é um ato de luta contra a morte.”

A vida levou a pintora de Bragança para o Porto para continuar os estudos na Escola de Belas-Artes, deu aulas em Guimarães para se sustentar, mas depressa percebeu que tinha de viver outra vida para vingar na profissão. Concorreu a uma bolsa na Gulbenkian e foi dois anos para Paris. Uma viagem absolutamente fundamental para a descoberta da pintura. “Quando temos o encontro com a grande pintura, tudo é tão forte que a partir daí as escolhas e as identificações são imprescindíveis.” Graça identificou-se aí com a pintura figurativa e reconheceu a genialidade de Picasso. “Não entendia Picasso quando era aluna de Belas-Artes, nessa altura gostava do Greco, do Goya, do Chagall e dos surrealistas. Paris fez-me ver outras coisas. A pintura egípcia, sobretudo os retratos de Fayon, foi outra descoberta e continua a ser uma grande referência para mim.”

De Picasso trouxe ainda mais força para os desenhos que faz. “Os desenhos de Picasso parece que foram feitos ontem, nunca são velhos, tal a força, a intimidade e a intensidade. Eu quando desenho, desenho com muita força, ponho-me toda nos desenhos, toda a minha energia vai para ali, a entrega é total. A pintura é mais lenta. Os quadros que aqui estão foram feitos durante meses. O quadro em que estou a trabalhar começa por me dar respostas. É ele que manda em mim, enquanto no desenho sou eu quem domina. A pintura impõe-se. Descubro coisas que não conhecia dentro de mim, porque aquilo que pinto tem que ver com aquilo que já vi, senti, interiorizei, estudei.”

Por tudo isso, quando regressou a Portugal e a Lisboa vinda de Paris quis voltar para a aldeia onde nasceu. Queria conhecer-se a si própria, queria saber porque é que naquela terra tão distante de tudo quis ser pintora. A pergunta continuava a inquietá-la. Queria também saber o que é que aquela terra tinha que ver com a sua pintura, com a sua história e com a história que estava a fazer. “Voltei a Trás-os-Montes, vivi lá dois anos e vivi os meus dias em ligação completa com aquela comunidade. Acho que comecei a criar um mundo novo. A minha é uma pintura com uma identidade muito forte e com voz própria.” Há artistas, diz, que nasceram num certo lugar e esses lugares estão toda a vida ligados a esses artistas. “Porque é que isso acontece? São os mistérios da vida, fazem parte desta maravilha que é sermos surpreendidos por tanta coisa.”

Nasceu três anos depois da II Guerra Mundial e menos de uma década após a Guerra Civil Espanhola. No Vieiro, à lareira, deitada no escano (móvel de madeira que permite que várias pessoas se sentem lado a lado) atrás do avô materno — outra figura central na sua vida — ouvia assustada aquelas histórias dos conflitos que em tempos tinham assolado a tranquilidade dos mais velhos. “Contavam aquelas histórias horríveis e ficava cheia de medo. Ainda por cima, não havia luz elétrica e aqueles candeeiros a petróleo projetavam grandes sombras nas paredes. Era um mundo cheio de medos e ao mesmo tempo fascinante.” O mesmo mundo onde mandava a tradição que os rapazes se mascarassem nas festas populares para aterrorizarem as crianças, entrando dentro de casa com vozes também alteradas. Dois mundos fundidos num só através da máscara, outro dos ícones da pintura de Graça Morais, como se a transformação da pessoa em bicho traduzisse os medos da artista enquanto jovem. Guerra e terror num encontro com esse imaginário infantil tornado realidade no momento atual, é o espelho da pintura que lhe rouba os dias.

Hoje o medo é o da doença, da dependência. O medo é o do surgimento de uma “direita que está a ocupar o mundo”, o medo de que em França uma Le Pen ganhe as eleições. “Sou herdeira de um património europeu francófono, toda a minha cultura é francófona. A minha grande liberdade como mulher, como artista, como cidadã, tem que ver com os valores da França e tem que ver com os valores do nosso país depois do 25 de Abril. Antes, nunca me reconheci num Governo de ditadura.”

Apesar disso, diz-se uma pessoa religiosa. E compara essa religião à dimensão da pintura, à sua ligação ao divino, ao sagrado, ao espiritual. Um dia, numa exposição sua no centro de arte que leva o seu nome, em Bragança, alguém lhe disse que ia frequentemente ver as suas obras porque aquele espaço não era um museu mas um templo. Deliciou-se. “Quando os museus se transformam em templos, acho que é bom. É o contrário dessa obsessão de querer os museus cheios de gente, que altera muitas vezes o sentido da arte, dando conta apenas do seu lado mercantilista e dos números.” Na cabeça ainda a educação religiosa que recebeu em casa, com comunhão diária até aos 18 anos. “E acreditava, quando acredito levo tudo muito a sério.” Depois afastou-se da prática religiosa, mas não deixou de ser crente. A Igreja também a afastou. “Agora estou a reconciliar-me com este Papa. Acho que é um homem de uma grande abertura, de uma grande humanidade. Aquilo que ele diz é profundo mas é simples. É um homem que está sempre atento ao que se passa no mundo. Identifico-me muito com este Santo Padre e ainda bem que ele existe porque vai ajudar-nos a equilibrar estas forças negativas e estes diabos à solta.”

antónio pedro ferreira

Nessa assunção de que a arte é uma representação do sagrado conta ainda na obra da artista uma ligação pessoal com aqueles que pinta, como se ao encontrá-los não pudesse deixar de lhes transmitir a dimensão espiritual. É um universo outro onde mergulha constantemente. “Nunca parei de trabalhar. Preciso de pintar. Fico doente quando não consigo pintar. Fico esquisita. Não sou uma pessoa de rotinas, mas sou capaz de pintar horas a fio até me esgotar. Não sou metódica.”

O resultado é, na maior parte das vezes, uma obra onde o corpo manda, a figuração e a mente dão as mãos e tanto o olhar como a ausência dele, tanto a forma como o gesto traduzem uma opinião vincada por naturezas e mundos por descobrir. “Há realmente uma descoberta de mundos que gostava que tivesse acontecido quando tinha 30 anos. De tal forma, que digo muitas vezes que sou uma ignorante. Há tanta coisa que devia saber e não soube na hora certa. Mas porque foi impossível saber.”

O que nunca deixou de acontecer a Graça Morais foi o encorajamento que os “grandes artistas” e as “grandes obras” lhe proporcionam sempre que o convívio é real. Desses encontros nasce sempre a sensação de poder fazer melhor. De poder crescer artisticamente, de abençoar essa nova realidade em que passa a participar. “Tive o privilégio de lidar com a Sophia [de Mello Breyner Adresen] e com a Agustina [Bessa-Luís], mulheres que quando falavam estavam como que a escrever. Por isso eu estava a entrar no universo da literatura ao conversar com elas. Sentia que também era grande quando estava com elas. Era uma felicidade enorme.” A pintora, de resto, conta com uma extensa colaboração artística em livros de inúmeros escritores nacionais, de Saramago a Miguel Torga, Pedro Tamen, Nuno Júdice ou Manuel António Pina, entre vários outros.

Mais profícua, contudo, a relação dos seus desenhos com a escrita de Agustina ou Sophia vai ser homenageada em Paris já em maio. Trata-se de uma exposição na delegação da Fundação Calouste Gulbenkian, com curadoria de Helena Freitas (comissária também da mostra que levou Amadeo de Souza-Cardoso de volta à cidade-luz) e de Ana Marques Gastão, a partir das obras “As Metamorfoses” e “Orpheu e Eurídice”, uma comunhão entre pintura e literatura.

“Em Lisboa sempre tive muita aceitação do mundo literário”, confessa com satisfação, enquanto se agasalha num arrepio de frio dentro do ateliê nesse princípio de noite tão invernoso. “A primeira pessoa que escreveu sobre mim em Lisboa foi o Assis Pacheco. Escreveu um texto maravilhoso e a partir daí outras pessoas começaram a ir ver as minhas exposições e a querer escrever sobre mim”. Tinha chegado à capital sem conhecer vivalma. As aulas foram, mais uma vez, o seu modo de subsistência e da filha Joana que sempre teve ao seu lado. Não vendia nada. Mas não bateu a portas. As portas da arte foram sendo abertas pela sua pintura a passo. “Nunca foi fácil, foi sempre muito difícil, muito duro, nunca tinha dinheiro. A minha vida foi uma luta contínua. Vendi bem enquanto os preços foram baixos. O meu marchand, Manuel de Brito, era muito bom. Mas quando os preços começaram a subir as vendas diminuíram muito. Nunca me importei porque quero ter dinheiro só para trabalhar. Não quero ter dinheiro para ser rica.”

Graça Morais defende que hoje os artistas já não deviam ser marginais mas a realidade entra-lhe pela casa adentro. “Os grandes músicos não têm trabalho, os escritores correm o país a dar conferências que não são pagas. Aqui, em Portugal, estamos muito violentados, continua tudo na mesma. Acho que as pessoas que estão nos lugares de decisão são muito arrivistas, chegaram lá muito depressa mas não se cultivaram. Por isso, é usar e deitar fora.” Só os artistas continuam a trabalhar face a um Ministério da Cultura que não tem dinheiro e que nada faz. “Nós fazemos. E porque fazemos? Porque temos sempre uma grande necessidade de fazer. Somos nós os protagonistas do novo mecenato cultural deste país.”

Uma vez um astrólogo disse-lhe que tinha uma boa estrela, Graça respondeu-lhe que às vezes a estrela se apagava. “É preciso dar-lhe brilho para ver se ela reluz mais.” Foi isso que fez. É isso que faz. “Agarro tudo com muita convicção. A exposição que agora se inaugura na Fundação Champalimaud, por exemplo, era para ser uma mostra mais pequena. Mas fui lá, vi o espaço e entusiasmei-me. Quis que crescesse e deixaram-me fazê-la crescer. Quantas vezes não me foram oferecidas coisas assim. Os livros que escreveram sobre mim foram assim. O primeiro foi da autoria de António Mega Ferreira, a pedido de Vasco Graça Moura para a Imprensa Nacional — Casa da Moeda. Colaborei com toda a minha energia.”

No centro de tudo isso, as pessoas. Graça Morais gosta de pessoas e cria com elas uma empatia natural. Acha que esse dom, o de não afastar de si os outros, está ligado à religiosidade que a anima. Se olharmos com muita atenção para as pessoas, diz a pintora, sentimos uma afinidade, espécie de entendimento, que faz com que, mesmo que não sejamos amigos, nos transformemos em cúmplices. “Isso vem com a idade, com os conhecimentos da vida, mas também com a minha forma genuína de amar as pessoas, de gostar delas e de as trazer para a minha pintura. É que a minha pintura sem pessoas não existe. A natureza e as paisagens estão dentro das pessoas. Lembro-me de quando pintava as pessoas mais velhas, com muitas rugas, as caras delas tinham dentro uma paisagem.”

E há sempre uma paisagem que a faz ter saudades. Os campos, as montanhas, os vales daquele seu Trás-os-Montes, onde não pode refugiar-se enquanto a vida artística a obrigar a trabalhar a partir de Lisboa, enquanto a calma não lhe bater à porta pelo menos por um período de tempo razoável. “Às vezes apetecia-me estar lá um ano inteiro, ver a transformação da natureza. Acho que a natureza ainda é inocente. Essa inocência e essa surpresa constante que a natureza nos oferece pede-me um ano inteiro de observação. Mas quando lá chegar, não sei se vou pintar mesmo a natureza ou se a natureza me vai pintar a mim.”