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O poder negro: é dia de óscares

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Terá havido um efeito-Trump nas votações para os Óscares a permitir surpresas? Ou tudo se passará conforme se alvitra escrito nos astros? 2017 parece ser um ano em que muitos vencedores afro-americanos vão subir ao palco do Dolby Theatre. A noite mais longa de Hollywood é este domingo

Se eu votasse, escolhia “La La Land” como Melhor Filme do ano? Escolhia nada! Votaria com o coração e a cabeça — e sem sombra de preocupação de ser politicamente correto — no surpreendente “Hell or High Water — Custe o Que Custar!” em que dois irmãos desatam a assaltar bancos para afrontar o sistema (e têm razão, não no que fazem, mas na justeza que os move) e um velho xerife vai atrás deles, como cão de fila que não larga o osso (sabendo que é a última perseguição que faz e que o mundo é um lugar escuro e injusto). Mas já não poderia votar em David Mackenzie para Melhor Realização, pois Mackenzie nem nomeado está nessa categoria. É um cineasta que, pelo menos por este filme, pertence à família de Peckinpah, não tão radical, tão duro, tão danado, mas, ainda assim, da família — de repente, apetece ver “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia”, saiu há pouco uma boa edição em Blu-ray no Reino Unido, acho que está na hora de a mandar vir, mas não é isso que agora interessa.

Catorze nomeações é obra. É um feito que já ninguém tira a “La La Land”, o musical autocelebratório do cinema, do grande cinema de estúdio que morou em Hollywood e de que Hollywood guarda memória e nostalgia. É um recorde absoluto nos anais da Academia que só por outras duas vezes foi atingido: em 1998, com “Titanic”, de James Cameron, e muito mais para trás com “Eva”, de Joseph L. Mankiewicz, em 1951. Em ambos os casos, filmes memoráveis a todos os títulos, “Titanic” como apogeu do romanesco e do grande espetáculo com efeitos especiais, “Eva” como suprassumo do melhor cinema clássico, com toda a elegância, crueldade, cinismo e glamour de que Mankiewicz era um dos muito poucos a deter a chave. Desde o dia das nomeações que é voz unânime que o simpático filme de Damien Chazelle não pertence ao mesmo escalão, embora também não seja a quinquilharia a que outras vozes tentam reduzi-lo. Acontece que teve catorze nomeações e a menos que nos arroguemos autoridade sobre a opinião generalizada dos membros votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, de Hollywood, convém perceber que eles não devem andar todos cegos.

“La La Land” é um musical muito bem arquitetado, colhendo boas lições dos mestres do género, de Busby Berkeley a Vincente Minnelli e a Bob Fosse, faz, com habilidade, a ponte entre o classicismo e a modernidade (veja-se a sequência inicial, veja-se a vera ausência de happy end após um número longo que evoca “Um Americano em Paris”) — e, sobretudo, tem a felicidade de mostrar que o cinema é um lugar mágico onde apetece estar. Eu vi o filme na estreia mundial, na abertura do Festival de Veneza do ano passado, e posso garantir que é uma fita ideal para abrir uma grande festa que celebre a arte das imagens em movimento. Que essa ideia de festa do cinema encontre eco na cerimónia dos Óscares não é fatalidade, é uma óbvia consequência.

Quando se tem uma massa impressiva de nomeações, é inevitável que elas se traduzam em estatuetas douradas? Não, não é inevitável. Há vários casos em que muitas nomeações não tiveram consequências à altura, na noite das premiações. Lembram-se de “A Cor Púrpura”, de Steven Spielberg”? Em 1986 foi nomeado em onze categorias e nem um Óscar ganhou. Nesse ano, “África Minha”, de Sydney Pollack, também tinha onze nomeações e venceu em sete. O que muitas nomeações querem, forçosamente, dizer é que há, na Academia, um largo consenso quanto aos méritos do filme, consenso que abarca a generalidade dos grupos laborais (lembremos que, nas nomeações para os atores votam atores, que nas nomeações para a fotografia votam diretores de fotografia — e por aí fora). Isso cria uma onda natural para que, nas votações finais, um filme muito nomeado tenha acrescidas probabilidades de ganhar o Óscar de Melhor Filme. É nesse sentido que aqui se aposta. Aliás, “La La Land” tem ganhado tudo (da Guilda dos Produtores ao BAFTA), não se vê como falhar agora. E o Óscar de Melhor Realização para Damien Chazelle também parece ser do domínio do inevitável. A menos que...

O efeito-Trump

Moonlight

Moonlight

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É uma verdade ‘lapalissiana’ que a eleição de Donald Trump para Presidente dos Estados Unidos choca de frente com os liberais americanos que, no universo das artes, da cultura e do cinema em particular, têm larga expressão. Esse choque já teve uma manifestação pública forte em vários discursos de agradecimento na temporada de prémios, em curso desde janeiro. A temporada foi inaugurada com as muito publicitadas palavras de Meryl Streep nos Globos de Ouro, a que Trump respondeu, grosseiramente — no Twitter, claro — dizendo que Meryl Streep é “uma das atrizes mais sobrevalorizadas de Hollywood”. Lembremos o que a atriz sublinhou nesse discurso, quando caracterizou a comunidade cinematográfica: “Mas quem somos nós? E o que é Hollywood, de qualquer forma? Um monte de pessoas de outros sítios. Hollywood está cheia de forasteiros e estrangeiros. Se corrêssemos com todos, não haveria nada para ver, a não ser futebol e artes marciais, que não são bem artes”. Esse monte de pessoas, muitas das quais com origens humildes, passados duros, vidas conquistadas a pulso, terá pensado na ameaça às liberdades que paira sobre a América no momento de votar? Poderá haver uma vontade inorgânica, mas real, de fazer da cerimónia dos Óscares um statement, um depoimento por valores contrários aos que a Administração Trump sustenta. Nesse caso, que melhor objeto cinematográfico encontrar do que “Moonlight” (oito nomeações, todas em categorias principais), a história de um miúdo negro, a crescer numa família destroçada, a descobrir-se gay no meio de uma comunidade violenta e homofóbica? Depois do ano marcado pelo hashtag #OscarsSoWhite uma vitória de “Moonlight” como Melhor Filme iria ser ouro sobre azul. É improvável, mas não é impossível.

Que a comunidade cinematográfica não está parada ante a ameaça que a eleição de Trump representa pode verificar-se desde logo no cancelamento da festa anual que a United Talent Agency costuma levar a cabo na noite dos Óscares. Em compensação, a UTA vai doar 250 mil dólares à American Civil Liberties Union, a poderosa organização que luta pelas liberdades individuais e pelos direitos cívicos, e ao International Rescue Committee que trabalha no apoio a refugiados. Sendo uma das maiores agências de talentos e de direitos literários em todo o mundo (com escritórios, entre outras cidade, em Nova Iorque, Londres, Toronto, Los Angeles e Malmö, na Suécia), a UTA representa gente tão diversa quanto Brian de Palma, os irmão Coen, Steven Soderbergh, Johnny Depp, Mariah Carey ou Angelina Jolie e propôs um comício de apoio à liberdade de expressão, dois dias antes dos Óscares. Numa carta aos funcionários da empresa, Jeremy Zimmer, o veterano CEO da United Talent Agency, declarou mesmo que “se a nossa nação deixar de ser o lugar onde artistas de todo o mundo podem vir expressar-se livremente, então deixaremos, na minha opinião, de ser a América”. Se houve um efeito-Trump no momento das votações, só na cerimónia das premiações se verificará.

De qualquer modo, já há um primeiro sinal de que pode haver mais baixas do lado de “La La Land” do que o que estava, originalmente, previsto. Nos Globos de Ouro, onde existe uma divisão de prémios de interpretação entre drama por um lado e musical/comédia, por outro, Ryan Gosling levou o troféu para casa como Melhor Ator nesta segunda categoria (do outro lado foi Casey Affleck, em “Manchester by the Sea” que ganhou). Mas Gosling nunca mais venceu, nem nos troféus da Guilda dos Atores (onde triunfou Denzel Washington, em “Vedações”) nem nos britânicos BAFTA (onde Casey Affleck levou a melhor). Parece, assim, fora da corrida onde, pelo menos a crer nas cotações que as casas de apostas americanas prometem pagar, Casey Affleck apresenta alguma dianteira sobre o veterano Denzel Washington. Mas “Vedações” está a obter um grande (e inesperado) sucesso de bilheteira e, dado que a Guilda foi para ele que se inclinou, podemos arriscar. Pessoalmente, também votava nele. No jogo das previsões as ousadias não são imperdoáveis: Denzel vai levar consigo o terceiro Óscar da sua carreira.

Quanto a Emma Stone, é praticamente certo que subirá ao palco do Dolby Theatre para receber, aos 28 anos, o Óscar de Melhor Atriz, pelo seu trabalho em “La La Land”. A unanimidade é total: começou por ganhar a Coppa Volpi no Festival de Veneza, depois o Globo de Ouro, o BAFTA, o prémio da Guilda dos Atores — não há que fugir. Por mim, apesar de toda a gentileza e empenho que Emma Stone põe no seu desempenho, acho que nem chega aos calcanhares de Isabelle Huppert que, em “Ela”, tem uma interpretação assombrosa. Mas, sabe-se, desde que, em 1962, Sophia Loren ganhou um Óscar, com “Duas Mulheres”, em italiano, quão raro é um intérprete poder chegar lá sem ser num filme em língua inglesa.

Para Melhor Atriz Secundária, o nome de Viola Davis também parece imbatível. Do Globo de Ouro ao BAFTA, passando pela Guida dos Atores, todos incensam o seu desempenho em “Vedações” que, de resto, já nos palcos da Broadway a fizera ganhar um Tony — e eu, se fosse membro da Academia, juntaria o meu voto ao consenso. Mais problemático é saber quem vai triunfar do lado masculino. Mahershala Ali (“Moonlight”) ganhou a Guilda dos Atores, Dev Patel (“Lion — A Longa Estrada Para Casa”) conquistou o BAFTA, nas casas de apostas quem menos paga é Mahershala Ali. Sinistro e doce, o seu personagem merece uma estatueta dourada com a minha inteira concordância. Se se cumprirem estes prognósticos, pelo menos em matéria de atores e atrizes, o hashtag #OscarsSoWhite bem poderá transmutar-se em #OscarsSoBlack.

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No campo da escrita

Se houvesse que sublinhar uma característica comum à generalidade dos melhores filmes da fornada dos Óscares, a qualidade da escrita seria a mais evidente. Todos assentavam em muito sólidos argumentos e se, depois, tinham outros arrimos (o design de produção de “O Primeiro Encontro”, a realização e os atores de “Moonlight”, a música de “La La Land”, a montagem de “Hell or High Water — Custe o Que Custar!”), era na escrita que faziam as fundações, dando corpo à ideia muito anglo-saxónica de que não há um grande filme que não seja precedido de uma boa escrita, o que, na Europa, não é um dado adquirido. Não admira que seja no território dos argumentistas que mais se adensem as dúvidas quanto aos ganhadores.

Comecemos pelo Melhor Argumento Original. Nos Globos de Ouro, a maré “La La Land” que, em janeiro, parecia imparável, premiou Chazelle, mas essa onda desapareceu entretanto. Ergueu-se ao invés, a de “Manchester by the Sea”, um drama familiar escrito pelo nova-iorquino Kenneth Lonergan que venceu o BAFTA. A Guilda dos Argumentistas, para baralhar as coisas, premiou, no passado fim de semana, Barry Jenkins (“Moonlight”), que, por diferenças de regulamento, está nos Óscares na categoria de Melhor Argumento Adaptado. As casas de apostas apontam para Kenneth Lonergan como favorito — e eu assino, duplamente, por baixo.

Como Melhor Argumento Adaptado, a Guilda dos Argumentistas laureou Eric Heisserer (“O Primeiro Encontro”), ao passo que o BAFTA foi para Luke Davies (“Lion — A Longa Estrada Para Casa”). Confusos? Pessoalmente penso que a tendência da Guilda prevalecerá, pelo que Barry Jenkins deverá sobraçar o seu Óscar, mais um para a comunidade afro-americana. Seria nele, aliás, que eu votaria se pertencesse a uma Academia a que, pelos estatutos que só admitem profissionais do cinema, nunca poderia pertencer.

“Hell or High Water — Custe o Que Custar!”

“Hell or High Water — Custe o Que Custar!”

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O ano da coelhinha e da dentadura

O cinema de animação não teve, em 2016, um ano dourado. Não houve filme que se pudesse medir com “Shrek”, com “O Rei Leão” ou com “A Bela e o Monstro”, para citar o topo da bitola neste terreno, de maneira que não há paixões por que pugnar. Os cinco títulos que competem para Melhor Longa-Metragem de Animação afinam todos pela craveira da competência, nenhum se alcandorando ao nível da excelência. A coelhinha-polícia que quer ser um agente da ordem no duro mundo dos animais de “Zootrópolis” ergue-se um tudo-nada acima da mediania (é, aliás, um bem concebido boneco, bem melhor do que a Vaiana que parece uma Barbie das ilhas do Pacífico). Será por isto que o filme que Byron Howard, Rich Moore e Jared Bush dirigiram para a Disney caiu no goto dos jornalistas estrangeiros de Hollywood — que lhe deram o Globo de Ouro — e nas preferências dos membros da Guilda dos Produtores que o laurearam como melhor Filme de Animação? Não sei, mas para mim foi o melhor. E todos os indícios apontam para que seja o premiado pela Academia.

Temos, finalmente, o cinema de todo o resto do mundo que não quer falar em inglês e onde 2016 não foi de vacas magras, embora não o indicie a lista dos cinco nomeados para o Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Faltam lá “Ela”, o filme francês de Paul Verhoeven, ou “Julieta”, do castelhano Pedro Almodóvar, ou “El Ciudadano Ilustre”, dos argentinos Gastón Duprat e Mariano Cohn — isto para só irmos pescar dentro das nomeações possíveis, isto é, dos filmes que os países oficialmente propuseram (a Academia não tem autonomia nesta categoria, embora na generalidade das categorias, qualquer filme, de qualquer nacionalidade e língua possa ser nomeado e premiado). O português “Cartas da Guerra”, de Ivo Ferreira, não destoaria, aliás, em matéria de qualidade cinematográfica, se as forças promocionais da nossa cinematografia tivessem vigor financeiro e ânimo bastante para fazer lobbying em Los Angeles.

Um título se destaca: “Toni Erdmann”, da alemã Maren Ade. Foi uma produção de pequena monta e muito voluntarismo, um filme organizado quase em modo de improvisação com base num núcleo bem definido e forte: um pai que escolhe a via do grotesco para se aproximar de uma filha de que está, há demasiado tempo, ausente. É uma obra surpreendente e indescritível, onde se presentificam opções de vida inabitáveis e os nossos tempos ocidentais e europeus bem gélidos nas relações humanas. E é uma comédia, assente na plasticidade de representação de dois intérpretes (Peter Simonischek e Sandra Hüller) que carregam a maior parte do peso e dos méritos que, depois, a montagem da realizadora organizou. E assente também no desatino que o uso inconfessado de uma dentadura carnavalesca pode introduzir nas convenções dos contactos entre as pessoas.

O filme teve um destino feliz. Começou por ser selecionado para Cannes, em maio, de onde saiu só com o prémio da FIPRESCI, mas com uma boa fama. Essa fama levou-o a correr festivais e a angariar prémios, um pouco por todo o lado. No fim do ano, quando a European Film Academy atribuiu os seus galardões dedicados ao cinema europeu, “Toni Erdmann” venceu em toda a linha (Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Argumento — o que mais querer?). Veio depois a nomeação para os Globos de Ouro (ganhou “Ela”), para os BAFTA (ganhou “O Filho de Saul”, que se atrasou na estreia britânica e não entrou nas premiações do ano passado, como devia) e para os Óscares. Tudo indica que não vai falhar a estatueta dourada. Atente-se que está em exibição, em Lisboa, Porto e Coimbra, mais vale não esperar muito para o ir ver, já que as 2h42 que o filme dura não auguram vida longa em cartaz.

Se eu votasse não era nele. Votaria em “O Vendedor”, do iraniano Asghar Farhadi, com o gosto de escolher um filme mais coerente, socialmente mais inquieto e politicamente mais ativo. Teria, ainda, o resultado suplementar de acrescentar um cisco de embaraço à Administração Trump, coisa que não deve ser menosprezada. Farhadi já anunciou que não estará presente em Los Angeles, em protesto contra o diktat de Trump que proíbe cidadãos de vários países (entre os quais o Irão) de cruzar as fronteiras norte-americanas. Embora os tribunais tenham obstaculizado as intenções presidenciais, o protesto de Farhadi deverá manter-se. Seria de estranhar que “O Vendedor” ganhasse contra a maioria das expectativas? Não, se tiver acontecido o tal efeito-Trump no momento das votações. Esse é afinal um dos principais acicates para se seguir de perto a cerimónia dos Óscares que Jimmy Kimmel apresentará e que a SIC e a SIC Caras vão emitir, em exclusivo, para Portugal. É este domingo, ao fim da noite, até alta madrugada.

Os prognósticos

Melhor filme: “La La Land”
Melhor realização: Damien Chazelle, “La La Land”
Melhor atriz: Emma Stone, “La La Land”
Melhor ator: Denzel Washington,“Vedações”
Melhor atriz secundária: Viola Davis, “Vedações”
Melhor ator secundário: Mahershala Ali, “Moonlight”
Melhor argumento original: Kenneth Lonergan, “Manchester by the Sea”
Melhor filme em língua estrangeira: “Toni Erdmann” de Maren Ade (Alemanha)
Melhor longa-metragem
de animação: “Zootrópolis”

Se Jorge Leitão Ramos votasse

Melhor filme: “Hell or High Water
— Custe o Que Custar!”
Melhor realização: Barry Jenkins, “Moonlight”
Melhor atriz: Isabelle Huppert, “Ela”
Melhor ator: Denzel Washington, “Vedações”
Melhor atriz secundária: Viola Davis, “Vedações”
Melhor ator secundário: Mahershala Ali, “Moonlight”
Melhor argumento original: Kenneth Lonergan, “Manchester by the Sea”
Melhor argumento adaptado: Barry Jenkins, “Moonlight”
Melhor filme em língua estrangeira: “O Vendedor”de Asghar Farhadi (Irão)
Melhor longa-metragem
de animação: “Zootrópolis”