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Nesta casa só temos amor e orgulho

“Moonlight” é um filme deslumbrante e delicado mas também doloroso e violento. Está nomeado para oito óscares mas mesmo que não leve nenhum é um dos grandes acontecimentos do cinema recente. Ao longo desta semana, porque no domingo há óscares, estamos a prosar sobre os candidatos a melhor filme

CRÉDITOS: CONTA NO FACEBOOK DO FILME “MOONLIGHT”

Quando Alex Hibbert, um pequeno ator-revelação de apenas 12 anos, filmou uma das mais tocantes cenas de “Moonlight”, estava vigilante. “Estava a ver se a minha mãe não estava por ali, porque ela é muito severa e não gosta de que eu diga essas palavras.” O rapaz estava só a seguir ordens - segundo o argumento, adaptado pelo argumentista e realizador Barry Jenkins a partir da peça “In Moonlight Black Boys Look Blue”, a sua personagem, Chiron, tinha de fazer uma pergunta séria: “O que é que quer dizer ‘paneleiro’?”.

A cena dura uns poucos minutos, e cada um deles dá num novo sentido à gasta expressão sobre levar um murro no estômago. Chiron, a personagem interpretada por Alex, tem esta dúvida porque é a palavra que ouve na escola quando os outros miúdos fazem pouco dele ou quando lhe batem. Dirige-se a Juan, personagem que vale a Mahershala Ali a nomeação para melhor ator secundário, uma espécie de figura paternal no mundo duro em que Chiron se vê obrigado a crescer.

A ação passa-se em Liberty City, Miami, lugar onde cresceram tanto o realizador Barry Jenkins como o autor da peça em que o filme se baseia, Tarell Allin McCraney. As semelhanças entre as vidas dos dois e o que se passa em “Moonlight” não ficam por aqui: tendo crescido a poucos quarteirões de distância e estudado na mesma escola, ainda que em momentos diferentes, os dois foram criados por mães toxicodependentes.

Missão: encontrar três atores com a mesma alma

Em “Moonlight”, a necessidade que Chiron tem de ser guiado pela figura paternal de Juan, embora o próprio esteja inserido no mundo da droga, também se deve ao vício da sua mãe, interpretada pela britânica Naomie Harris. A cena em que ela pergunta, irritada com a influência de Juan sobre o seu filho, se é este que lhe vai contar porque é que os outros meninos gozam com ele é de arrepiar; para a própria atriz, que numa das cenas preferiu gritar para uma parede a ter Alex presente a contracenar consigo, foi difícil compreender e ter abertura para aceitar esta personagem.

CRÉDITOS: CONTA NO FACEBOOK DO FILME “MOONLIGHT”

“Eu não conseguia compreender o conceito. Sabemos quão destrutivas são as drogas. Por isso, como é que alguém se sente atraído por isto? E ela tem um filho. Por isso, eu julgava tanto, e tive de trabalhar arduamente para ultrapassar isso”, explica Naomie à CBS. No filme, a atriz passa por três fases diferentes – três fases da vida de Chiron, em que logicamente as personagens que o rodeiam devem envelhecer como ele; mas ainda mais impressionante é perceber que Naomie, que inicialmente teria três semanas para gravar as suas cenas, teve problemas com o seu visto, acabando por interpretar as três fases em apenas três dias, “completamente fora da ordem cronológica”.

Para essas três fases distintas, que correspondem ao Chiron criança, adolescente e jovem adulto – na casa dos 20 -, Jenkins tinha uma certeza: “Quis encontrar três pessoas que tivessem a mesma alma, o mesmo sentimento nos olhos, que são o espelho da alma”. Três atores fisicamente parecidos seria impossível, percebeu o realizador, que mudou o foco da sua procura: queria emoção.

O resultado foi o casting de Alex Hibbert, na fase em que Chiron, conhecido por Little, conhece Juan e este lhe ensina várias lições importantes, desde nadar – algo que o pequeno ator não sabia mesmo fazer – a “decidir por ele próprio” quem será na vida; Andre Holland, na fase em que Chiron é conhecido pelo nome próprio e luta para perceber a sua sexualidade e a sua identidade num meio que não o aceita; e Trevante Rhodes, quando é conhecido pela alcunha Black, já fora de Miami, a fazer a sua vida de adulto mesmo que tenha ainda algumas das mesmas questões que tinha em criança por arrumar.

CRÉDITOS: CONTA NO FACEBOOK DO FILME “MOONLIGHT”

Para Jenkins, esta busca pela identidade própria num meio que não parece aberto a isso tem servido para que boa parte do público se identifique com o filme – sobretudo o público negro que não costuma ter essa oportunidade, depois de anos da polémica hashtag #OscarsSoWhite a dominar a discussão sobre diversidade em Hollywood. “É importante criar imagens que não estão a ser criadas, falar por pessoas que não têm voz”, explica. “Houve um ponto em que percebi que estavam a acontecer coisas em frente à minha câmara que não costumava ver com frequência, ou mesmo nunca. Vou ao Twitter e ao Instagram e recebo estas mensagens de perfeitos desconhecidos constantemente. Eles nunca pensaram entrar num cinema e ver-se no ecrã.”

“Há certos aspetos deste filme que são desafiantes”, diz Jenkins à “TIME”. “Não há estrelas de cinema. Estruturalmente, é um bocado aventureiro, é visualmente aventureiro. Não é feito para ser uma obra de arte comercial, mas as pessoas estão a ir ao cinema.” Não era esperado, mas “Moonlight” é um filme recordista: entre os 8 óscares para os quais está nomeado (melhor ator secundário, melhor atriz secundária, melhor realizador, melhor filme, melhor argumento adaptado, melhor fotografia, melhor edição, melhor banda sonora original), conta com a primeira mulher negra nomeada para melhor edição (Joi McMillion), o quarto realizador negro nomeado (um sentimento “agridoce”, diz Jenkins, ainda a fazer parte dos “primeiros” a chegar aqui) e é a primeira vez que um negro é nomeado ao mesmo tempo pelo melhor filme, realização e argumento.

Pode ser um bom sinal em tempos de divisão. A receber o seu prémio de melhor ator secundário pelo papel - que é curto mas nos deixa com o coração apertado - nos Screen Actors Guild Awards, Mahershala Ali fez um discurso que emocionou para lembrar os bons exemplos do seu Juan: “Acho que o que aprendi a trabalhar em ‘Moonlight’ foi o que acontece quando perseguimos as pessoas. Elas viram-se para elas próprias. (…) Eu interpretei um cavalheiro que viu um jovem virar-se para dentro como resultado da perseguição da sua comunidade e agarrou essa oportunidade para o elevar, dizer-lhe que ele importava, que estava bem e que o aceitava. E espero que façamos um trabalho melhor nisto. Quando nos focamos nos detalhes que nos diferenciam, temos a oportunidade de ver a textura dessas pessoas, as características que a tornam única… Ou de entrar em guerra”.

De seguida, o ator contou como a mãe, líder de uma comunidade cristã, lidou com calma com a notícia de que ele se queria converter ao islão, há 17 anos. “Pusemos as coisas de lado, conseguimos ver-nos, amamo-nos, o amor cresceu e essas coisas são detalhes. Não são assim tão importantes.” A ovação foi inequívoca: o momento que Ali, o ator com décadas de experiência que considera o jovem Alex o “melhor parceiro de cena” de sempre, criou naquela sala será difícil de esquecer.

Se não fosse lição suficiente, o mundo azul (provavelmente devido às referências da peça “In Moonlight Black Boys Look Blue”) de “Moonlight”, aquele tão particular em que até a dureza consegue ser subtil e arrebatadora ao mesmo tempo, em que não precisamos de ver feridas na pele negra para sofrermos com Chiron, ainda nos oferece outro pensamento que podemos levar connosco. Quando o Chiron adolescente janta em casa de Juan e a namorada deste, Theresa (interpretada pela cantora e atriz Janelle Monàe, que também faz parte do elenco de “Hidden Figures”, igualmente nomeado para o óscar de melhor filme), o vê de cabeça baixa, afetado pelos problemas da mãe toxicodependente e dos colegas que o perseguem, só tem uma resposta para lhe dar: “Pára de baixar a cabeça em minha casa! Sabes a minha regra: nesta casa só temos amor e orgulho”.

(No dia em que são anunciados os vencedores dos Óscares, o Expresso recorda os artigos que publicou, sobre os principais filmes na corrida)

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