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Lisboa era uma cidade global?

A obra "Rua Nova dos Mercadores" é propriedade da Society of Antiquaries of London

Duas pinturas da exposição “A Cidade Global — Lisboa no Renascimento”, que abre quinta-feira no Museu Nacional de Arte Antiga, levantam sérias dúvidas quanto à sua autenticidade

Diogo Ramada Curto, historiador

A abertura de mais uma grande exposição no Museu Nacional de Arte Antiga, anunciada para dia 23 de fevereiro, cria elevadas expectativas nacionais e internacionais. As suas comissárias, Annemarie Jordan Gschwend e Kate Lowe, organizaram, em 2015, um livro intitulado “The Global City. On the Streets of Renaissance Lisbon”. Ora, a exposição de Lisboa parece seguir os mesmos termos, intitulando-se “A Cidade Global. Lisboa no Renascimento”. O catálogo, que sairá no dia da inauguração, não corresponde totalmente ao original em língua inglesa. Estão previstos novos contributos — bem interessantes, a julgar pela escolha criteriosa dos seus autores —, provavelmente relacionados com núcleos expositivos não contemplados na edição original.

Começo por esclarecer que não pretendo dar conta de uma exposição que ainda não abriu e a cujo catálogo não tive acesso por ainda não estar pronto. Um facto que é normal nestas andanças. No entanto, posso e devo pronunciar-me sobre alguns aspetos desta exposição que teve, na sua origem, o referido livro de 2015. Duas representações de Lisboa, respetivamente do Chafariz D’El Rei e da Rua Nova dos Mercadores, principal artéria comercial de Lisboa, estão no centro do livro (e da exposição que aí vem). A primeira pertence à coleção do empresário Joe Berardo e a segunda, dividida em dois painéis, é propriedade da Society of Antiquaries of London, dona e gestora da Kelmscott Manor, em Oxfordshire. Segundo as organizadoras, ambas seriam da autoria de um pintor holandês não identificado, tendo sido pintadas respetivamente entre 1570-1580 e 1570-1619.

Pertenço ao pequeno e, porventura, minoritário grupo de historiadores que têm dúvidas acerca da autenticidade de ambas as representações. No que escrevi sobre descrições e representações de Lisboa ainda nos anos 1980, limitei-me a analisar textos e discursos escritos. Nunca me achei competente para entrar no campo das representações visuais. Dito isto, não me parece correto que a questão da autenticidade dos quadros em causa nunca seja abordada no livro. Ora, quando os factos são dados como adquiridos, prescindindo-se de qualquer demonstração e do recurso a qualquer tipo de prova, fica aberta a porta à interpretação arbitrária. Bem como aos factos alternativos, ou seja, a tudo o que não faz parte da realidade, mas de um tipo de imaginação que relativiza tudo e todos.

História dos quadros

Por todas as razões apontadas vale a pena recorrer a um crivo que comece por reconstituir o contexto em que os quadros foram encontrados. O quadro “O Chafariz D’El Rei” começou por aparecer à venda em Lisboa, em 1997, nas vésperas da Expo-98. O intermediário era um conhecido antiquário alfarrabista da já desaparecida livraria Biblarte, que representava Rainer Daehnhardt, um colecionador luso-alemão de armas e de antiguidades, com vários livros publicados. Ensaiaram-se, à época, modos para justificar a autenticidade do quadro. Este foi, então, proposto para figurar na capa do volume V da “Nova História de Portugal — Do Renascimento à Crise Dinástica”, coordenado por João Alves Dias, que se recusou a aceitar a proposta por ter duvidado da sua autenticidade. Argumentou, então, que o vestuário da mulher à janela, a coleira do cão, o hábito da Ordem de Santiago exibido por um cavaleiro de origem africana, e o estado impecável da pintura ao fim de séculos, sem mostrar ter sido repintada, tudo isto o levava a colocar a mesma pintura como tendo sido feita no século XX. Esta é uma história ignorada pelas organizadoras do livro.

Só depois, em 1998, terá “O Chafariz” surgido no mercado madrileno, segundo as mesmas organizadoras, com a indicação de que provinha de uma coleção holandesa e figurado na exposição no Mosteiro dos Jerónimos, intitulada “Os Negros em Portugal” (1999). Segundo pude apurar, a discussão da época, nem sempre tornada pública, sobre a autenticidade do quadro, permitiu ao empresário Joe Berardo negociar condições mais favoráveis para a sua aquisição e baixar o preço do mesmo. Existem razões de sobra para imaginar negócios e outras tentações mais criativas, quando o mundo dos antiquários se cruza com o dos interesses de colecionadores e de museus financiados pelo Estado. Diga-se de passagem, mas a título de exemplo, que foi o mesmo conhecido alfarrabista — que, em determinada altura, já só queria negociar em moedas de ouro e não em livros – quem vendeu, também na década de 1990, ao Estado português, o mesmo exemplar da “Genealogia do Conde da Feira” que reaparecera inicialmente em leilão, em Londres, por um preço muito mais baixo do que veio a ser comprado em Lisboa, mas que se sabe ter pertencido à Biblioteca Nacional nos anos 1930!

Se todas as minudências acabadas de referir nos fazem duvidar quer da autenticidade quer também das certezas da datação dos quadros, menos esclarecidos ficamos com a argumentação a que Vítor Serrão recorreu, em trabalho publicado em 1998 (“O Chafariz D’El Rei da Ribeira Velha, em Lisboa, numa valiosa pintura do século XVI”), sobre o mesmo quadro.

O eminente historiador de arte, que muito admiro e estimo, recorreu a uma argumentação que considero circular: o quadro era etnográfico e popular, “picaresco” nas suas palavras, porque continha em si elementos que eram confirmados por uma série de discursos e descrições textuais da Lisboa quinhentista. Quanto à paródia racista feita ao africano que se encontra no centro do quadro, cujo balde de dejetos se rompeu enfiando-se-lhe pela cabeça, ela só tem paralelo no gozo eventual de pôr um africano a cavalo com um hábito de nobre. E como se concilia tal registo de paródia com a presumida dimensão etnográfica do quadro? Ficamos, por assim dizer, na mesma. E a menos que sejam válidos argumentos de autoridade, só ao alcance dos historiadores de arte que procedem por intuição, dispensando o recurso a provas, as minhas dúvidas em relação à autenticidade de “O Chafariz” mantêm-se.

Quanto à “A Rua Nova dos Mercadores”, a questão é mais complicada e Annemarie Jordan Gschwend escreveu um embrulhado e pouco esclarecedor epílogo ao referido livro, para argumentar o seguinte: o quadro teria sido comprado em Londres, no ano de 1866, pelo conhecido colecionador, poeta e pintor pré-rafaelita Dante Gabriel Rossetti; tendo este considerado que se tratava da descrição de uma paisagem com cerca de 120 figuras oriunda da escola de Diego Velázquez; o “Stupendous Velázquez” seria, pois, o quadro hoje em Kelmscott Manor (pág. 237). Como é que esta argumentação que liga “A Rua Nova dos Mercadores” a Rossetti e à escola de Velázquez se constitui em demonstração da autenticidade dos quadros é uma questão que fica por resolver. Ora, da leitura que fiz na íntegra das mesmas cartas de Rossetti, do contexto em que o seu ato de colecionismo se insere e da referência por ele feita a Velázquez e à sua escola, não me parece que, por um momento só, Rossetti pudesse cair no erro infantil de atribuir o quadro de “A Rua Nova” à escola espanhola de Velázquez. Por isso, não foi esse o quadro que Rossetti comprou em 1866.

Por último, se o quadro de “A Rua Nova” é uma pintura holandesa, melhor seria compará-lo com a representação de “O Leilão que se Faz cada dia pola menhã na Rua direita na Cidade de Goa” que consta do “Itinerario” (Amesterdão, 1596), de Jan Huyghen van Linschoten (uma obra citada no livro em apreço, mas não esta imagem de Goa). No primeiro plano, a mesma preocupação em representar os desclassificados. Mas, depois, quantas diferenças existem, nomeadamente no que respeita à representação bem mais clássica das figuras! Será, talvez, a partir de comparações deste tipo que melhor se resolverão as expectativas criadas pela anunciada exposição sobre “Lisboa — Cidade Global”. Inseri-la num debate de ideias ajudará, com certeza, a atrair públicos mais alargados, também eles interessados numa visão crítica da história e do património.

Sublinho que se trata de aspetos que envolvem críticas próprias de quem exerce o ofício de historiador e que nada têm de pessoal, nem tão-pouco implicam falta de consideração e estima em relação a todos os envolvidos. Pelo contrário, há uma evidente generosidade que tem de ser reconhecida no trabalho empreendido pelas comissárias e pelo Museu Nacional de Arte Antiga, que entendeu por bem acolher esta exposição. Salvaguardo e explicito com muito cuidado esta minha posição, por não querer ser indelicado para com as historiadoras responsáveis pela organização desta iniciativa, as quais têm dedicado boa parte das suas carreiras a estudos relacionados com a História de Portugal. E não quero, com as minhas críticas, afetar a visita de públicos cada vez mais alargados que o principal museu português — pela mão do seu responsável, o operoso António Filipe Pimentel, e de uma equipa ímpar de conservadores — tem sabido organizar. A minha intenção é, assim, que as críticas possam contribuir para aumentar, ainda mais, a expectativa criada por esta anunciada exposição, associando-a a um verdadeiro debate de ideias acerca da história e do património de Lisboa e dos mundos que com ela se relacionaram.

Caput Mundi

No livro “The Global City”, o argumento principal é que, na transição do século XV para o XVI, Lisboa passou a ser global porque nela confluíam objetos e, também, pessoas de várias proveniências e continentes. A circulação de tais objetos e a existência de ligações, comunicações ou conexões em rede, tudo isto são noções que invadiram diferentes áreas da investigação em história e não só, determinando a natureza dos problemas colocados, como acontece no livro em apreço. Por isso mesmo, a Lisboa de D. Manuel I, com o seu palácio e edifícios administrativos, que governavam a “rede ultramarina portuguesa”, estava “estrategicamente colocada ao lado do centro mercantil de Lisboa” (pág. 30). Um dos principais aspetos considerados para governar esse império — que alguns historiadores pensam que se define melhor como constituindo uma rede — é o da ciência náutica, com a sua profusão de mapas, roteiros e portulanos, para os quais chamou a atenção uma recente exposição da Gulbenkian, “360 Graus. Ciência Descoberta” (2013). D. Manuel é então referido como sendo um rei mercantil que procurava o controlo de “centros comerciais ultramarinos” (pág. 32).

Segundo as organizadoras, são cinco as razões que justificam conceptualizar a Lisboa quinhentista como uma cidade global: o facto de ter estar no centro da circulação de produtos comerciais; ter concentrado em si uma população misturada, de indígenas (entenda-se, lisboetas ou portugueses), outros europeus e de povos de todo o globo; ter tido uma “consciência global”; ter sido reconhecida por outras cidades como detentora dessa capacidade; e, por último, a de ter estado na vanguarda de novas formas de conhecimento, de tecnologia e de comunicação (p. 34).

Muito haveria a dizer acerca desta perspetiva de Lisboa, de Portugal, do seu império e dos gloriosos tempos manuelinos. Longe de ser original, ela forma uma espécie de lengalenga que se instalou, sob a forma de impensado, em teses, livros e exposições. Corresponde, em geral, a uma versão eufemística do glorioso passado português, agora recoberto de um vocabulário importado das ciências sociais, onde a noção de rede, a viagem dos objetos, a escala global e as relações entre conhecimento, informação e poder são alvo de conceptualizações superficiais. Mais: trata-se de uma perspetiva que tende a constituir-se numa espécie de cartilha neo-luso-tropicalista, que não deixa de se atualizar, incluindo uma referência aos aspetos económicos e comerciais, nem tão-pouco deixa de aludir a populações mistas, as quais sugerem uma espécie de carácter híbrido new age.

Vinho novo em odres velhos, e tal como sucedeu com a referida exposição da Gulbenkian, também agora, a propósito de Lisboa, como cidade global, volta a estar presente a cartilha luso-tropical. Não é a primeira vez, claro, que ela se difunde em língua inglesa. Citado na bibliografia do livro em causa, Sanjay Subrahmanyam — que é autor de uma biografia sobre Vasco da Gama, em que o poema épico de Camões é referido nos seus “sete” cantos! — se não é o autor principal, tem sido o principal responsável pela divulgação dessa lusa bambochata que alimenta ilusões acerca da memória da nação.

Existem outras interpretações e outra historiografia — mais analítica, mais crítica, menos patrioteira e avessa à utilização celebrativa da história — que talvez pudesse interrogar Lisboa numa perspetiva global. Estabelecendo comparações, percebendo diferenças e desigualdades, procurando captar os diferentes modos de discriminação étnica ou racial que a cidade gerou, fruto de diferentes medos e preconceitos, historicamente situados. Em suma, tentando compreender as várias dinâmicas da Lisboa quinhentista e das configurações que se lhe sucederam. Uma historiografia, com certeza mais pautada pelas lógicas de controlo dos poderes da coroa, do município, das diferentes confrarias e irmandades que se vão organizando e que se articulam com a Igreja renovada por Trento. Uma historiografia que é também mais dinâmica porque — em lugar de postular circulações num plano horizontal, em rede — procura captar as hierarquias e perceber os comportamentos dos grupos sociais mais desclassificados e a violência própria das situações de escravatura. Mas esse seria um caminho diferente, que obrigaria a integrar as obras de Jorge Ferreira de Vasconcelos de meados do século XVI ou o tratado sobre Lisboa de Luís Mendes de Vasconcelos (dois autores inexplicavelmente ausentes da bibliografia do livro em causa).

Mendes de Vasconcelos, notou-o há muito António Sérgio, mostrou-se bem cético em relação à manutenção de um império a uma escala planetária. Os seus interesses, diretamente relacionados com o tráfico de escravos, impunham um tipo de fecho ou, melhor, de concentração à escala do Atlântico. Angola seria outro Brasil.

Muito mais haveria a dizer se, em lugar de se postular o facto de a Lisboa manuelina ser global, se tivesse recorrido a outras fontes e procurado traçar uma agenda de investigação em correspondência com os belos objetos e a iconografia referidos no livro. Por exemplo, ao passar por Lisboa, ainda no primeiro quartel do século XVII, Vincent Voiture regista numa das suas cartas que, aqui, era mais fácil obter notícias provenientes de Cabo Verde e de uma forma geral dos trópicos do que do resto da Europa. Ora, não poderá esse afastamento de Lisboa da Europa ser considerado um sinal de abertura de um lado, mas de fecho do outro? E, como se poderá, neste último caso continuar a falar de uma Lisboa global?

Também seria importante que as autores integrassem melhor, no seu próprio projeto de “Lisboa — Cidade Global”, alguns dos contributos do livro que não alinham em modelos interpretativos pré-construídos. Por exemplo, com a sua enorme erudição e conhecimento dos textos do século XVI, Tom Earle argumenta, num dos capítulos, que “aquela grã Rua Nova conhecida por todo o Mundo” — conforme escreveu o poeta António Ferreira pelos anos de 1557 ou 1558 — simbolizava algo de negativo. Ou seja, em meados do século XVI, já existia uma enorme aversão a um império que ia da Baía ao Japão. A consciência do global surgia, então, associada à sua recusa.

Texto original publicado na revista E do Expresso de 18 de fevereiro de 2017