Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

“Fui pobre a minha vida toda, tal como os meus pais e os pais deles antes deles. É como uma doença passada de geração em geração”

Parece uma premissa improvável para o western mais popular do ano: no Texas, há uma comunidade que se sente roubada pelos bancos e pelo sistema. É por isso que dois irmãos se armam em Robin Hood – em proveito próprio – e se transformam em ladrões com “intenções nobres”. “Hell or High Water” está nomeado para quatro óscares – melhor filme, melhor ator secundário, melhor guião original e melhor edição. Se a premissa lhe parece fútil, desengane-se - isto é sério, é complicado e é bom

CRÉDITOS: CONTA NO FACEBOOK DO FILME “HELL OR HIGH WATER”

Três vezes no Iraque, mas não há resgate para pessoas como nós.” O graffiti faz parte da primeira cena de “Hell or High Water”, que mostra uma pequena cidade isolada, aparentemente fantasma, com a pouca circulação de pessoas que as primeiras horas da manhã prometem. É aqui que dois irmãos com boas intenções (ou nem por isso, depende da perspetiva) vão tentar assaltar o primeiro de vários bancos.

As primeiras imagens, o graffiti, o retrato da cidade, os texanos de chapéu de cowboy na cabeça e arma pronta a disparar dizem-nos grande parte do que precisamos de saber sobre este filme que, embora poucas ou nenhumas vezes apareça nas listas de favoritos ao óscar de melhor filme, volta a trazer o western e o sentimento daquelas histórias da década de 1970 ao grande ecrã.

O resto, o que não cabe nas roupas e nos acessórios dos homens que dividem o protagonismo (Chris Pine, Ben Foster e o incrível Jeff Bridges, este último nomeado para melhor ator secundário pela Academia), é menos compartimentado, menos rotulável, e passa por um sentimento que o realizador, David Mackenzie, queria transmitir: “‘Hell or High Water’ dá-nos uma ideia sobre os nervos crus da América contemporânea”, explica, em entrevista ao “The Independent”.

O tipo de cara marcada por anos de sol e desilusão

Serão esses “nervos crus” e essa desilusão da América aparentemente esquecida que justificarão as personagens e a narrativa do que de outra forma poderia ser categorizado e esquecido na gaveta dos western. No argumento, como relata o “New York Times”, descreve-se um dos irmãos que andam a roubar bancos, interpretado por Chris Pine, como tendo “o tipo de cara marcada por anos de sol e desilusão”, sendo o homem mais correto e mais inteligente dos dois que desespera por uma solução para os seus problemas e, mais importante, os da família; e o irmão rebelde, acostumado à vida do crime e à adrenalina que esta lhe proporciona e interpretado por Ben Foster, como detentor de “um ar de perigo que atrai tantas mulheres quantas afasta”.

São estes dois irmãos que se lançam aos bancos das pequenas cidades do este do Texas, seguindo um cauteloso plano concebido por Toby (Pine) e por vezes furado pelo irmão, como forma de compensarem os problemas financeiros que a crise das hipotecas naquela zona trouxe à família e, especialmente, de manterem em sua posse e passarem aos filhos a casa onde a mãe de ambos viveu, até ao seu recente falecimento.

“Há este tema nas culturas britânica e americana de identificação das pessoas com o fora da lei que volta a ser o Robin Hood. Estas pessoas estão a fazer coisas más, mas ao mesmo tempo não conseguimos deixar de torcer por elas, porque percebemos as razões por que as fazem”, explica Mackenzie. Simultaneamente, há que torcer também por Marcus (Jeff Bridges), o agente à beira da reforma que tenta resolver o caso enquanto faz parelha com o colega Alberto (Gil Birmingham), nativo americano, e lhe dirige insultos raciais que pensa serem amigáveis e funcionarem como brincadeira.

Para conseguir esse efeito em que torcemos pelos vilões mas também pelo polícia é preciso equilibrar os timings com que as informações são introduzidas no argumento, explica o argumentista Taylor Sheridan (o mesmo que assinou “Sicário”, nomeado para três óscares no ano passado): “Se soubessem o que eles estavam a fazer desde o início, que eles têm razões nobres, isso faria de Marcus o vilão. Eu queria que se apaixonassem por estes rapazes e depois soubessem o que eles estavam a fazer, para torcerem por Marcus e Alberto também. Para que quando vissem a inevitável conclusão, não se importassem se os dois carros chocassem um contra o outro”.

CRÉDITOS: CONTA NO FACEBOOK DO FILME “HELL OR HIGH WATER”

As instituições abandonaram as pessoas

Não vamos revelar aqui a conclusão, mas houve uma premissa que Sheridan, antigo ator farto de desempenhar papéis em maus argumentos (como os das séries de CSI), se comprometeu a seguir à risca: “Eu queria que fosse verdadeiro. Não queria que o filme acabasse e toda a gente fosse para casa e se esquecesse dele”. A intenção, explica, é que se fique “a mastigar sobre ele durante dias ou semanas depois de o ver. E talvez mostrar um bocadinho de nós próprios, de que gostemos muito ou não gostemos nada, e talvez façamos assim uma pequena mudança sem termos de sentir o fardo de aprender a lição”.

Essa autenticidade perseguiu-o desde início, a ele, um verdadeiro texano, que diz ter-se limitado a escrever o que conhecia, evitando que o filme fosse “estilizado” (“isso minimizaria o impacto emocional da história”), intenção que conseguiu cumprir na parceria com Mackenzie. “As pessoas no Texas usam chapéus de cowboy, são bons para tirar o sol da cara e do pescoço. Localizas algo no Texas moderno e é tão identificável com o oeste antigo, e toda a gente está a usar armas”, explica o argumentista, que teve a ideia numa visita a Archer City, cidade que lhe pareceu “fisicamente abandonada”, ao pensar: “Alguém podia roubar tudo neste sítio”.

A autenticidade teve os seus riscos. “O filme é sobre como as instituições abandonam as pessoas, com uma personagem importante na casa dos 60 que cospe gíria racista – nunca pensei que vendesse, por isso fiz exatamente o que queria fazer. É algo que existe. É assim que estes homens falam (…). Acho que vem da insegurança. Os homens não sabem como expressar o seu carinho pelos outros, por isso usam estes insultos.”

Também nesse sentido é um filme duro – por entre as “nuvens e o sol quase opressivos”, aquela luz do meio dia tantas vezes evitada nos filmes, usada pelo diretor de fotografia, Giles Nuttgens, e a autencidade daquela gente, daqueles homens, porque este é um filme sobre como os homens se sentem e como têm medo de explorar e demonstrar o carinho e a afeição – verifica-se na relação entre Toby e o irmão, que ao declararem o amor que sentem um pelo outro se sentem obrigados a acrescentar um “vai-te lixar”; e na relação de Marcus e o seu comparsa Alberto, a quem pede para fazer o “grito do índio” quando os progressos na investigação pedem uma celebração.

A morte de uma forma de vida

CRÉDITOS: CONTA NO FACEBOOK DO FILME “HELL OR HIGH WATER”

Mesmo assim, o carinho entre as duas duplas, escolhidas muito por causa da química que existe entre ambas, é palpável e as conversas inesperadamente honestas com Alberto sobre a forma como os “avós desta gente” levaram as terras dos nativos, deixando-os sem nada, parecem ter que ver com o que os brancos daquele sector da América vivem naquele momento, sentindo-se roubados e enganados pelos bancos.

Para Sheridan, é a forma de completar, depois de Sicário, mais uma etapa de uma “trilogia” sobre “a fronteira americana moderna”: “Eu estava a explorar a morte de uma forma de vida”, concretamente “as consequências agudas da crise das hipotecas no este do Texas”. Nunca mais bem explicado do que nas palavras do próprio Toby, no confronto final com o inimigo Marcus, justificando as suas razões – as do irmão já se conhecem, porque “ele gosta de roubar”: “Eu fui pobre a minha vida toda. Tal como os meus pais e os pais deles antes deles… Como uma doença, passada de geração em geração. É isso que se torna, uma doença… Que infeta todos os que conheces”.

(No dia em que são anunciados os vencedores dos Óscares, o Expresso recorda os artigos que publicou, sobre os principais filmes na corrida)

  • As coisas incríveis que acontecem quando pomos as nossas diferenças de lado

    A história até agora quase desconhecida das três mulheres afro-americanas que ajudaram a levar o homem à Lua é contada em “Hidden Figures”, um filme que o elenco descreve como uma obra “maior do que as entregas de prémios”: é um “movimento”. “Hidden Figures” está nomeado para três óscares: melhor filme, melhor atriz secundária e melhor argumento adaptado

  • Canções e amor para tempos de cólera

    Os fãs adoram a história de amor e otimismo (q.b.), os críticos arrasam a falta de diversidade e o “monte de clichés”. Por muito que as opiniões se dividam, certo é que “La La Land” é um sério concorrente a um número recorde (14 - na verdade 13 porque tem duas nomeações numa mesma categoria) de óscares: está nomeado para melhor filme, melhor ator, melhor atriz, melhor realizador, melhor fotografia, melhor guião original, melhor banda sonora original, duas melhores canções originais (!), melhor edição, melhor edição de som, melhor design de produção, melhor mistura de som e melhor guarda-roupa. Como é que isto aconteceu?

  • Estamos vivos e somos mais do que carne e osso

    A busca incessante de Saroo, um menino indiano que aos cinco anos se perde da família e aos 25 recorre ao Google Earth para tentar reencontrá-la, já fez o argumentista deste filme chorar 15 vezes, porque é um verdadeiro “testemunho sobre o espírito humano”, daqueles que nos fazem sentir que somos “mais do que carne e osso”. “Lion” está nomeado para seis óscares: melhor filme, melhor ator, melhor atriz secundária, melhor fotografia, melhor argumento adaptado e melhor banda sonora original. Ao longo desta semana, porque no domingo há óscares, vamos publicar dois textos por dia sobre os candidatos a melhor filme. Espere, não é bem assim: são dois textos por dia até quinta e só um na sexta, porque são nove os nomeados e não há 10 para a matemática bater certa. Mas estes serão os nove textos certos para se preparar devidamente para a madrugada de 26 para 27 de fevereiro. Começamos com “Lion” e no fim deste texto há canções e amor para tempos de cólera, que é o equivalente a “La La Land”