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As coisas incríveis que acontecem quando pomos as nossas diferenças de lado

CRÉDITOS: CONTA NO FACEBOOK DO FILME “HIDDEN FIGURES”

A história até agora quase desconhecida das três mulheres afro-americanas que ajudaram a levar o homem à Lua é contada em “Hidden Figures”, um filme que o elenco descreve como uma obra “maior do que as entregas de prémios”: é um “movimento”. “Hidden Figures” está nomeado para três óscares: melhor filme, melhor atriz secundária e melhor argumento adaptado

A promoção e a divulgação de “Hidden Figures” (em português, “Elementos Secretos”) não foi aquela que se esperaria de um filme candidato a três óscares – incluindo o de melhor filme. Não houve apresentações em festivais premonitórias, nem muito dinheiro envolvido, e a estreia aconteceu tardiamente, já no final do ano passado. Antes disso, em setembro, num evento especial durante o Festival de Cinema Internacional de Toronto, foram transmitidos apenas 20 minutos de cenas por editar do filme a um público numeroso.

Apesar das circunstâncias, o público parece ter adorado “Hidden Figures”, que já conta com números animadores nas bilheteiras. Talvez parte disso tenha que ver com a dedicação e empenho que cada membro da equipa e do elenco colocou neste filme. “Kevin Costner dividia uma caravana. Jim Parsons voava por sua conta até ao local das gravações”, detalha o realizador Ted Melfi ao “IndieWire”. Mais: a equipa considerou o filme tão importante que vários dos seus membros, incluindo Melfi e a esposa, alugaram salas de cinema inteiras e permitiram que as pessoas entrassem gratuitamente para verem o filme, sem pagar bilhete. “Já não é um filme. É uma missão”, explica Melfi.

Mas porque é que um filme sobre a América segregada dos anos 1960, sobre racismo, sexismo e diferença, mas sobretudo “sobre as coisas que acontecem quando pomos as nossas diferenças de lado”, como dizia a protagonista Taraji P. Henson nos prémios SAG, é tão pertinente na América e no mundo de 2017? Porque “estamos quase em 1962 outra vez”, respondia a atriz na passadeira vermelha do evento.

Pioneiras esquecidas pela História

Em “Hidden Figures”, Henson interpreta Katherine Johnson, uma das mulheres pioneiras que trabalharam na NASA e ajudaram a estabelecer as trajetórias das primeiras viagens espaciais e à Lua – é a história real de uma mulher afro-americana que tinha todos os obstáculos colocados diante de si, mas que com o seu trabalho e perseverança conseguiu contorná-los, um após outro, e em 2015, aos 97 anos, recebeu a mais alta distinção civil que a Casa Branca atribui, pelas mãos do primeiro presidente afro-americano dos Estados Unidos – algo certamente inimaginável na época em que o filme se passa.

CRÉDITOS: CONTA NO FACEBOOK DO FILME “HIDDEN FIGURES”

As situações que nos fazem perceber as dificuldades que aquelas mulheres – não só Katherine, mas também as colegas Dorothy Vaughan, interpretada pela candidata ao óscar de melhor atriz secundária Octavia Spencer, e Mary Jackson, cuja história é interpretada pela cantora e atriz Janelle Monàe – passavam todos os dias no trabalho, de fazerem um percurso muito mais longo para usarem a casa de banho das pessoas “de cor” a almoçarem numa copa diferente; de não conseguirem as promoções a que tinham direito e para as quais estavam qualificadas a terem de pedir permissão para estudar mais e se sentarem ao lado dos colegas brancos.

Uma das cenas mais tocantes do filme, e uma das que condensam melhor a raiva interior de Katherine, uma mulher que quem conhece garante nunca se ter lamentado ou vitimizado, acontece quando o chefe desta, interpretado por Kevin Costner, a questiona sobre o tempo que passa nas suas “pausas” para ir à casa de banho diariamente. “Não há casa de banho para mim aqui. Não há casas de banho para pessoas ‘de cor’ neste edifício. Sabia disso? (…) Trabalho que nem um cão dia e noite e vivo do café desta cafeteira que nenhum de vocês quer tocar”, grita Katherine furiosa para o resto da equipa que trabalha na trajetória de Alan Shepard, o astronauta que pouco depois se tornará o primeiro norte-americano no espaço.

Se o chefe de Katherine, personagem construída para este filme a partir de uma mistura de pessoas reais, lhe dá o seu apoio (“A nossa urina é toda da mesma cor”, lembra, depois de destruir o sinal que distinguia as casas de banho para negras na NASA), nem sempre é esta a relação com as chefias num tempo difícil. Dorothy Vaughan, a primeira supervisora negra da NASA, tem no filme uma relação turbulenta com a sua superior, interpretada por Kirsten Dunst, que relembra que “tem sorte por sequer ter um trabalho”. Mais tarde, numa cena que é uma lição sobre racismo internalizado, as duas encontram-se numa casa de banho – já partilhada - e a personagem de Dunst garante: “Ao contrário do que devem pensar, não tenho nada contra vocês”. Dorothy retorque: “Eu sei que acredita nisso”.

CRÉDITOS: CONTA NO FACEBOOK DO FILME “HIDDEN FIGURES”

As lições que aprendemos com Mary Jackson, que se tornou na realidade e no filme a primeira engenheira negra da NASA e de todo o país devido à sua resiliência, são igualmente valiosas. Como é valiosa a cena em que Mary vai a tribunal defender o seu direito a estudar, de forma a completar o curso de engenharia, numa escola só para brancos no estado segregado de Virgínia, depois de assegurar que “se fosse um homem branco já seria um engenheiro”. Com palavras que persuadem o juiz, Mary relembra-o de que se ele a tornar a primeira afro-americana a frequentar aquela escola segregada, também ele será um pioneiro. Ele concorda. São medidas que Mary precisa de tomar, porque o seu caminho está sempre a ser dificultado: “Quanto mais avançamos, mais eles afastam a linha da meta”.

Finalmente somos celebradas não só por sermos mães ou bonitas

É sobre pioneiros e sobre inspiração esta história, como recordou Henson no discurso emocionado em que aceitou o prémio para melhor elenco nos prémios SAG. “Este filme é sobre união (…). Os ombros das mulheres nos quais nos erguemos são os de heroínas americanas. Sem elas, não saberíamos como chegar às estrelas. Obrigada por valorizarem estas mulheres, elas já não são elementos secretos”. Nessa noite, a plateia ergueu-se, numa ovação impressionante, enquanto o elenco se emocionava.

Se o filme significa tanto para atores e equipa é porque parece particularmente atual, defendem, e porque é importante desvendar a história destas mulheres, “para que nenhuma rapariga pense que a ciência e a matemática não são para elas”, diz Henson. Ted Melfi, que estava a ser considerado para realizar na altura um filme da saga do Homem-Aranha, desistiu assim que ouviu falar desta história. Não fazia ideia de quem fossem estas mulheres.

“Percebi que podíamos fazer a diferença, enquanto atrizes neste filme, a representar pessoas que eram muito subrepresentadas”, explicava Octavia Spencer nos SAG. Monàe acrescentava: “A melhor parte deste filme é que enfatiza as nossas particularidades enquanto mulheres. Somos complicadas, somos complexas, somos seres humanos completos – e muitas vezes somos retratadas como personagens unidimensionais (…). Finalmente somos celebradas não só por sermos mães ou por sermos bonitas, e também não é por sermos objetos”.

“Eles querem a lua, eu já estou em Marte”

Para elas, “este filme é muito maior do que uma entrega de prémios - é um movimento”, diz Henson. Ted Melfi garante que a história representou uma mudança drástica no seu trabalho: “Não me vejo a voltar a fazer um filme que não represente o mundo de hoje, em termos de elenco e equipa”, diz ao IndieWire – “Hidden Figures contava , na fotografia, com Mandy Walker, no argumento Allison Schroeder, e na equipa com 35% de mulheres. “Não voltarei a tocar em nada que seja sobre quatro homens brancos com perucas. Nunca mais”.

Embora a música original deste filme não esteja nomeada para ganhar uma estatueta dourada – os óscares que pode vencer são os de melhor argumento adaptado, melhor atriz secundária para Octavia Spencer e melhor filme – vale a pena deixar aqui as palavras cantadas por Pharrell Williams, no tema original “Runnin’”, e Kim Burrell, em “I See a Victory”, que se ouvem durante as longas viagens de Katherine, à chuva, para ir à casa de banho para pessoas “de cor”.

“Se eu estiver quieto não posso chegar longe / Eles querem a lua, eu já estou em Marte/ Eu não quero uma boleia gratuita, só estou cansada de correr”, canta Pharrell. “Eles chamam a isto um mistério, mas nós vamos chamar-lhe uma vitória, vamos escrever História / Juntei as minhas perdas e transformei-as em lições / E o que parecia ser pior / Transformei-o numa bênção”, responde Kim.

(No dia em que são anunciados os vencedores dos Óscares, o Expresso recorda os artigos que publicou, sobre os principais filmes na corrida)

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    A busca incessante de Saroo, um menino indiano que aos cinco anos se perde da família e aos 25 recorre ao Google Earth para tentar reencontrá-la, já fez o argumentista deste filme chorar 15 vezes, porque é um verdadeiro “testemunho sobre o espírito humano”, daqueles que nos fazem sentir que somos “mais do que carne e osso”. “Lion” está nomeado para seis óscares: melhor filme, melhor ator, melhor atriz secundária, melhor fotografia, melhor argumento adaptado e melhor banda sonora original. Ao longo desta semana, porque no domingo há óscares, vamos publicar dois textos por dia sobre os candidatos a melhor filme. Espere, não é bem assim: são dois textos por dia até quinta e só um na sexta, porque são nove os nomeados e não há 10 para a matemática bater certa. Mas estes serão os nove textos certos para se preparar devidamente para a madrugada de 26 para 27 de fevereiro. Começamos com “Lion” e no fim deste texto há canções e amor para tempos de cólera, que é o equivalente a “La La Land”