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“Uma voz renascida em cada momento”

Bagão Félix, gestor e político

Era impossível não gostar de Zeca Afonso. A não ser por preconceito redutor. Fez parte do meu encantamento, enquanto jovem, ainda antes do 25 de Abril, faz parte do meu castelo do que em memória, está dentro de mim.

Era um homem simples, generoso, ingénuo até. Sensível, genuíno, autêntico. Sem biombos ou disfarces. Competente. Com alma.

Um cantautor irrepetível. Abriu novos caminhos à boa e cristalina música portuguesa de raiz popular e eclética. Chegava às pessoas, não pela via da agora tão em moda sofisticação forçada e liofilizada, mas pela singeleza da naturalidade, pela beleza da musicalidade e pela mensagem da poesia.

Zeca Afonso permanece em nós na decantação da memória e no registo da gravação de que continuamos a usufruir no tempo que há para além do seu tempo. Através dessa presença memorial e da sua voz renascida em cada momento em que nos continua a chegar docemente aos ouvidos, pode sentir-se a radicalidade da boa saudade, feita da confluência entre a presença ausente e a ausência presente. Onde cabe a alegria, a quietude, a estética. E a esperança.

No meu livro “Trinta árvores em discurso direto”, juntei Zeca Afonso e botânica, por via do choupo: “Do Choupal até à Lapa foi Coimbra meus amores” com que se inicia o fado coimbrão de Zeca Afonso, deu-lhe uma projeção (ao choupo, entenda-se) que, de outro modo, não teria alcançado.

Tenho praticamente todos os discos de Zeca Afonso. No velho vinil e nos mais compactos cd. Difícil eleger a minha música preferida. Mas se tem de ser, arrisco: “Cantigas do Maio” (1971)