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“Um gajo porreiro, um amigo que faz falta”

Vitorino, músico

Conheci-o nos meus vinte anos quando o Zeca Afonso era professor numa escola secundária em Faro. Já antes conhecia a sua música, de o ouvir clandestinamente. Os primeiros que ouvi dele foi o “Menino do Bairro Negro” e os “Vampiros”. Nessa altura eu andava na tropa e vi um projeto que anunciava o doutor José Afonso, na Casa dos Pescadores de Olhão. Eu e outros recrutas fomos lá ouvi-lo. Ele movimentava as pessoas com um sentido que ia muito além da música. Ele simbolizava o reviralhismo, o movimento contra a ditadura. Sabíamos bem de que lado ele estava. Professor de esquerda, da escola do existencialismo, não punha gravata.

Um dia antes de um concerto ele pediu-me para lhe afinar a viola. Ficámos amigos desde então e nunca mais deixámos de o ser. Passámos pela revolução. Acompanhei-o antes e depois do 25 de Abril. Era um homem expansivo, sanguíneo q.b. e profundamente solidário em todas as circunstâncias. Quando me ligaram a dizer-me que ele tinha morrido eu estava a desfilar no Carnaval do Rio de Janeiro, no Brasil, pela escola de samba ‘Mangueira”. Eu estava na altura a fazer carreira por lá, cantei em locais muito interessantes. Mas os brasileiros gostam é de samba no pé. Sobre o Zeca digo sobretudo o seguinte: Era um gajo porreiro, um amigo que faz falta, com uma atitude ética e social irrepreensíveis e que deixou uma obra única na música europeia. A minha canção preferida do Zeca é o “Redondo Vocábulo”. Uma canção belíssima que ele escreveu na prisão de Caxias, onde esteve preso.