Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

“Um firme balizar do tempo”

Ruben de Carvalho, dirigente do PCP

Já quase tudo foi escrito sobre José Afonso. Como poeta, como compositor, intérprete, cidadão. Mas ainda há muito para ouvir.

Não se trata de inéditos (o que não significa que os não haja), mas desse traço particular que toca as grandes criações musicais e a sua relação com o tempo, em especial o tempo próprio de cada ouvinte, as suas memórias, as suas emoções, as suas descobertas.

Há na música de José Afonso um firme balizar do tempo, que nos transporta ao escutar cada uma das canções a um e vários períodos. Ou pelo tema que abordam, ou pelo que significaram num momento vivido, pela memória que despertam. Mas não há só um tempo vivido no prazer de continuar a escutar temas com dezenas de anos: o mais deslumbrante nessa audição será não apenas o inevitável prazer agora, mas a constante descoberta de que há sempre algo mais que agora se encontra. Uma significativa inflexão de voz, a revelação de um até hoje despercebido poético encadear de palavras, uma sequência musical que ou não se escutara ou, entretanto, ganhou novo significado e subtileza.

A música de José Afonso é inevitavelmente datada, mas não fica por isso imobilizada no tempo, qual lápide sonora imobilizada num momento: a mesma canção, exatamente a mesma canção, com todas as suas palavras, harmonias e voz, escutada em 1965 foi uma canção, dez anos depois outra, hoje ainda outra. E a última escuta impõe sempre a conclusão de que haverá revelações numa próxima.

Logo à nascença a música de José Afonso tinha um passado: escutá-la pela primeira vez foi uma revelação, mas sobretudo a revelação de um tempo português que vinha de trás, que os sons invocavam da mesma forma que intervinham naquele momento e anunciavam um futuro. Não apenas as palavras, tudo para tanto contribui.

E tudo numa outra riqueza de temas, situações, sugestões acompanhando a diversidade da vida e do viver. É outro elemento que sustenta essa constante renovação no ouvir, a garantia de que nada se esgota no silêncio final.