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“O criador aventureiro”

Pedro Ayres Magalhães, músico

Não acho muito bom sinal que a música de Zeca Afonso tenha estado tão ausente todo este tempo nos media. Fala-se muito do Zeca e da importância da música dele. Mas de facto a sua música não é verdadeiramente gozada, usufruída. Os meios de comunicação de massas não o fazem. Não promovem o seu papel lúdico. É pena que não se oiça mais vezes Zeca Afonso de forma casual, por aí. O que é pena para mim que conheço bem a sua obra e usufruí muito dela.

Considero a música do Zeca muito moderna, no quadro da música popular portuguesa. Na verdade, ele tem um repertório popular e erudito, muito bem articulado. Pensava muito bem os textos das canções, os arranjos e dotou a musica portuguesa com uma expressão própria e contemporânea. Há quem faça a defesa da música dele do ponto de vista mais sectário, esquerdista. E ele ficou muito marcado por essa imagem desse tempo revolucionário dos anos 60/70. Ainda está muito encostado à parede da revolução. Mas ele é maior do que isso. E ainda há-de ser maior do que essa imagem do cantautor revolucionário. Ele é um grande criador português. Um artista letrado, bem preparado, idealista, um criador aventureiro que se fez à estrada e se entregou à desproteção da vida musical.

Recordo que o José Afonso foi professor em Moçambique e estudante em Coimbra. A forma como incluiu no seu repertório a guitarra portuguesa de Coimbra, a música africana de Moçambique, o cante alentejano ou as cantigas de amigo da musica medieval é único. É um cruzamento de eixo muito interessante. E não posso deixar de referir a sua voz fantástica, vigorosa, e que cantava um português extraordinário. O que tinha muita força.

O tema que escolho do Zeca é o “Adeus ó Serra da Lapa”. É uma canção de saudade linda que ouvia muito quando era adolescente.