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Ramada Curto: “Há um Estado Cultural que quer pôr o MNAA a render no circuito turístico”

“Tudo isto a propósito da opinião, porventura ingénua, de um ministro que veio dizer que acreditava mais num historiador de arte do que num historiador generalista”

A questão dos quadros do Chafariz e da Rua Nova tem uma dimensão importante, por onde terá sempre de se começar, que é a da autenticidade dos mesmos. A começar pela sua materialidade, que poderá - assim o espero - ser resolvida por uma análise laboratorial. No entanto, não posso deixar de ficar impressionado com o facto de alguns historiadores de arte poderem construir interpretações sobre factos - neste caso, quadros - sobre os quais não há grandes certezas. Num tempo de exacerbados relativismos, a ética do ofício de historiador (como a dos jornalistas) tem de ser idêntica à de um combate pela verdade. Doutra forma, lá virão os "factos alternativos" e quem impõe a interpretação certa é quem tem o poder para o fazer. É a porta aberta para o autoritarismo... O que me espanta, a este respeito, é já ter começado toda essa exibição de galões e de argumentos de autoridade, onde se acaba por dizer que quem tem razão é quem possui as credenciais ou os títulos. A verdade deixa, então, de resultar de um conjunto de operações de análise, verificação e prova, que estão muito longe de poder ser reduzidos a argumentos de autoridade. Tudo isto a propósito da opinião, porventura ingénua, de um ministro que veio dizer que acreditava mais num historiador de arte do que num historiador generalista, como eu sou, devido às maiores credenciais exibidas por aquele sobre este. Ora, não é isto que está em causa, a questão está no apuramento dos factos e da verdade, nunca no estatuto dos seus autores. Tanto mais que um debate, que queira ser crítico, não é uma feira de vaidades e de exibição de galões ou condecorações.

Porém, há uma outra dimensão que não pode desaparecer do debate. Insisto neste facto por me parecer haver interesse em esquecê-la, afunilando os termos do debate, reduzindo tudo a uma questão técnica, asséptica ou só ao alcance dos especialistas da história de arte. Chutando para canto tudo o resto. Ou seja, remetendo tudo para uma questão técnica, só alcance de especialistas e que, uma vez resolvida, tudo ficará solucionado. Foi, aliás, por essa mesma outra dimensão que quis começar este debate, nas páginas do Expresso da semana passada. O que é isso de uma cidade global e como é que os quadros justificam a ideia de que Lisboa foi uma cidade global, multicultural e miscigenada? À primeira vista tal acontece pelo facto do Chafariz representar uma série de africanos: uns em funções profissionais, a acartar água e outras coisas, próprias de um estatuto de subalternidade; outros a dançar e a tocar, muito contentes; outros a representar uma ascensão social ao mundo da cavalaria ou, talvez, a simbolizar um mundo de pernas para o ar; e ainda os que representam uma visão mais ou menos carnavalizada, de baixo ventre, com um balde de dejectos enfiado na cabeça, uma imagem de paródia mas com evidentes conotações de um gozo racista. Mas como é que se passa deste elenco de representações, mais ou menos possíveis de imaginar à luz da literatura e dos textos da época, para um ciclo em que se postula que Lisboa era uma cidade global? Bastará juntar outros elementos, nomeadamente, objectos que circulavam a uma escala mundial para se fazer essa passagem ou produzir esse feito? Pelo menos o livro em inglês, nem sequer interroga esta passagem. Postula-a, para vender a ideia de Lisboa - Cidade Global. Ora, é este o ponto que também deve ser discutido. Claro que, também aqui, há margem para interpretações diversas. Porém, será sempre preferível manter em aberto o debate do que submetermo-nos a modelos pré-construídos, prontos a consumir, sem qualquer tipo de questionamento. É que uma história feita com base em problemas não se compadece com ortodoxias de escola ou com perspectivas que são boas por estarem na moda.

Por último, desde os anos 1920 e, sobretudo, durante o Estado Novo, a discussão sobre os Painéis de São Vicente envolveu concepções opostas da história de Portugal num período de exacerbado nacionalismo. Almada escreveu a este respeito textos importantes e as suas entrevistas a António Valdemar não poderão ser esquecidas. Porém, esta discussão sobre três peças, ainda por cima de origem duvidosa, corre o risco de se transformar numa polémica pífia, se for reduzida aos aspectos técnicos e na conclusão da falta de autenticidade das peças em causa. Tudo isto ao serviço de um Estado Cultural que pretende pôr os museus, nomeadamente o MNAA, a render no circuito turístico, transformando - com a conivência de alguns historiadores de arte - a Lisboa quinhentista numa cidade global, moderna, conectada com o mundo pela porcelana chinesa ou os marfins africanos, excepcional no seu multiculturalismo, feito de ciclos de representações miscigenadas. É com esta lusa bambochata que não pactuo. Por dever de ofício de historiador, antes de mais, sinto-me obrigado a alertar para o desvario que para aí vai. Mas também me parece que é preciso agir por respeito em relação a um público que não pode ser reduzido - pelos representantes do referido Estado Cultural e dos que se mostram mais fogosos a com ele colaborar - a uma massa de consumidores de exposições e de patranhas, tudo a bem do espectáculo, do comemorativismo e do turismo.