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Museu de Arte Antiga abre as portas a obras suspeitas

A exposição “A Cidade Global”, com inauguração marcada para quinta-feira, esteve a ser instalada durante 
esta semana. Ao todo são cerca de 250 peças que tentam recriar a Lisboa renascentista

Alberto Frias

Reputados historiadores portugueses consideram falsos dois quadros da exposição

Miguel Cadete

Miguel Cadete

Diretor-Adjunto

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

A autenticidade do quadro na origem da exposição “A Cidade Global — Lisboa no Renascimento”, no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, está a ser contestada. Os historiadores João Alves Dias e Diogo Ramada Curto consideram falsa a pintura “A Rua Nova dos Mercadores”, peça central da exposição que será inaugurada na quinta-feira, com a presença de Luís Filipe Castro Mendes, ministro da Cultura. Alves Dias garante ao Expresso tratar-se de “um quadro forjado no século XX a imitar o passado”. Ramada Curto desenvolve, em ensaio publicado hoje na Revista E, a tese de que a finalidade da pintura é perpetuar a ideia “patrioteira” de um Portugal neotropicalista.

O investigador da Universidade Nova de Lisboa e especialista na História de Portugal do século XVI, João Alves Dias, acredita que o quadro — revelado em 2009 pelas historiadoras e curadoras da exposição no MNAA, Annemarie Jordan e Kate Lowe, como sendo uma vista da famosa artéria comercial lisboeta no século XVI — não é senão uma “continuação de outro quadro”, o igualmente controverso “Chafariz D’El Rei”.

“Facilmente vejo este quadro como uma continuação do mesmo tema e até, porventura, do mesmo artista.” E acrescenta: “Há uma figura, no lado direito, de um negro com uma coisa à cabeça que parece ser tirada do quadro do ‘Chafariz’. É evidente que agarraram em imagens do passado — além das duas iluminuras na famosa gravura de Georg Braun, a mais antiga gravura impressa de Lisboa — e, por sua vez, fizeram uma montagem de outras gravuras e reconstituições. Foram sendo acrescentados aspetos de várias épocas. Essa vista, do Braun, dá o pormenor das arcadas. O homem que vai a cavalo numa mula existe, exatamente dessa maneira, em outros desenhos da obra de Braun.”

A obra “Rua Nova dos Mercadores” 
é considerada por alguns historiadores como o seguimento do quadro “Chafariz D’El Rei”

A obra “Rua Nova dos Mercadores” 
é considerada por alguns historiadores como o seguimento do quadro “Chafariz D’El Rei”

Alberto Frias

Rua Nova em Londres

A “Rua Nova dos Mercadores” foi originalmente identificada em 2009 como uma representação da Lisboa de Quinhentos, por Kate Lowe e Annemarie Jordan, sendo os dois painéis que compõem o quadro expostos pela primeira vez no Museu Rietberg, em Zurique, em novembro de 2010. Até então, o quadro estaria esquecido no espólio do pintor inglês do século XIX Dante Gabriel Rossetti e à guarda da Society of Antiquaries de Londres, em Kelmscott Manor. Era considerado uma vista de uma cidade do Norte da Europa e não de Lisboa. Contudo, a sua história é, de acordo com os historiadores que contestam a veracidade da pintura, muito semelhante à de o “Chafariz D’El Rei”.

O “Chafariz...” surgiu no mercado pela primeira vez no verão de 1997. Foi avistado pelo historiador de arte Vítor Serrão num antiquário de Madrid, a Galeria Caylus, de José António de Urbina, um comerciante de arte antiga suspeito de ter vendido, em 2006, quadros de Goya à Fundação Plaza, do Governo Autonómico de Aragão, por um preço muito superior ao de mercado. Vítor Serrão apresentaria a pintura num colóquio em Portimão em maio de 1998 e em diversos artigos, vindo mesmo a recomendar a sua aquisição por parte do Museu da Cidade de Lisboa — compra que não chegou a acontecer devido às dúvidas suscitadas.

A polémica alastrou, inclusive entre os curadores do Museu Nacional de Arte Antiga. Anísio Franco, que à altura era já um dos mais reputados especialistas do MNAA, duvidou da datação atribuída ao “Chafariz D’El Rei” e outros especialistas sustentaram tratar-se de “um quadro do século XX à maneira de Quinhentos”. Em sentido contrário, Joaquim de Oliveira Caetano, Vítor Serrão e Fernando António Baptista Pereira defenderam o valor patrimonial e, sobretudo, iconográfico da pintura.

O quadro “Chafariz D’El Rei” surgiu 
à venda, em Lisboa e em Madrid, no final da década de 1990. Seria adquirido por Joe Berardo

O quadro “Chafariz D’El Rei” surgiu 
à venda, em Lisboa e em Madrid, no final da década de 1990. Seria adquirido por Joe Berardo

Alberto Frias

“Chafariz” em Madrid

Meses depois, o “Chafariz D’El Rei” seria comprado, a título pessoal, por Joe Berardo a outro antiquário espanhol, Francisco Escudero. O quadro veio, mais tarde, a ser integrado na Coleção Berardo que agora o cedeu para a exposição que abre quinta-feira no MNAA. Manuel Leitão, o especialista que alertara Berardo para a importância da obra, diz ao Expresso que Escudero terá feito “um trabalho de investigação muito bom, como de resto confirmava a documentação que acompanhava a obra”. Garante ainda que, “desde as análises de suporte às de pigmentação, tudo estava em ordem”. Rainer Daehnhardt, um conhecido antiquário e colecionador de armas, também confirmou ao Expresso que lhe foi proposta a aquisição do quadro, desta feita pela antiga livraria Biblarte. Daehnhardt optou por não o adquirir devido ao elevado preço, embora tenha considerado a obra “autêntica”.

Não é a opinião de João Alves Dias, a quem, em 1998, também foi sugerida a compra do quadro, de forma a ilustrar a capa do volume V da “Nova História de Portugal”, por ele coordenado. “Este negro com o hábito da Ordem de Santiago... Não há conhecimento de que se tenha dado a Ordem de Santiago a um negro, muito menos no século XVI.” E recorda ao Expresso uma máxima corrente entre colecionadores e bibliófilos: “Um bom falsificador põe sempre a sua impressão digital na pintura de forma a poder dizer, caso seja descoberto, que é da sua autoria e que nunca pretendeu fazer uma falsificação mas sim uma inspiração; por isso colocou aqueles sinais.”

A argumentação com que sustenta a tese da falsidade do “Chafariz D’El Rei” inclui outros pormenores. “Aquele tipo de pintura, daquele cão eriçado com aquele passear, à solta, não é habitual na época. Os cães com coleira estavam sempre acompanhados por pessoas. Alguns negros vestem uma espécie de sobrecasaca com calças por baixo. Ora, isso é um traje à século XIX.” João Alves Dias reclama ainda que o falsificador se terá inspirado em “duas iluminuras com a representação de Lisboa: uma da ‘Genealogia do Infante D. Fernando de Portugal’ que está na British Library, em Londres, e outra da ‘Crónica de D. Afonso Henriques’, de Duarte Galvão, da coleção do Museu dos Condes de Castro-Guimarães, em Cascais. Ambas têm o ‘Chafariz D’El Rei’ em pequenino.”

Por seu lado, Diogo Ramada Curto, que desde a década de 1980 tem publicado sobre a expansão marítima portuguesa, tenta desmontar a argumentação que sustenta a veracidade do quadro “A Rua Nova dos Mercadores”, tal como é apresentada pelas curadoras Annemarie Jordan e Kate Lowe no livro “The Global City”. O argumento de base é a impossibilidade de o quadro fazer parte do espólio de Dante Gabriel Rossetti. Na sua epistolografia, o pintor pré-rafaelita britânico atribui o quadro à escola de Diego Velázquez, o que não é comprovado pela pintura. “Não foi esse o quadro que Rossetti comprou”, afirma o historiador português para concluir que a sua autenticidade nunca foi comprovada.

Proveniência duvidosa

A autoria do quadro ”A Rua Nova dos Mercadores” é atribuída por Annemarie Jordan e Kate Lowe a um pintor flamengo desconhecido, que o teria pintado algures entre 1570 e 1619. No epílogo do livro “The Global City”, Annemarie Jordan confessa que a proveniência do quadro ainda tem de ser esclarecida convenientemente, garantindo porém que fez parte do espólio do pintor inglês do século XIX Dante Gabriel Rossetti.

Contactado pelo Expresso, António Filipe Pimental, diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, não quis comentar. A propósito da argumentação que contesta a autenticidade dos quadros, o responsável pelo primeiro museu português alega não estar na posse do seu “teor concreto, nem outrossim matéria que permita aquilatar da autoridade de quem as subscreve”. António Pimentel diz sentir-se “inibido” para tomar posição, sublinhando porém que a obra “O Chafariz D’El Rei” já “foi descoberta há vários anos e exposta desde então”.

No que respeita a “A Rua Nova dos Mercadores”, o diretor do MNAA apenas adiantou que “a sua divulgação foi apoiada pela Fundação Calouste Gulbenkian e o livro em que foi apresentada galardoado em 2016 com o Prémio Almirante Teixeira da Mota, da Academia de Marinha”. Filipe Pimentel considera ainda que a exposição não se resume a estas duas obras, envolvendo “além das pinturas em apreço, cerca de 250 peças de cerca de 80 generosos emprestadores, nacionais e internacionais. Nesse contexto, são, a mostra e o seu catálogo, uma viagem outra, que não a mera tradução do livro ‘The Global City. On the streets of Renaissance Lisbon’, a que os autores das teses parecem necessariamente reportar-se — e só nesse quadro o conceito de ‘autenticidade’ pode ser cabalmente aferido.”

Texto original publicado no Expresso de 18 de fevereiro de 2017