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Conservadores do Museu de Arte Antiga não se entendem

Chafariz d'El Rei, um dos quadros presentes na exposição "A Cidade Global" que abre quinta-feira, gera controvérsia. Joaquim Caetano considera o quadro verdadeiro.Mas Anísio Franco acha que se trata de uma falsificação

Miguel Cadete

Miguel Cadete

Diretor-Adjunto

Dois dos mais reputados historiadores de arte em Portugal divergem quanto à autenticidade do quadro Chafariz d'El Rei, uma das peças que faz parte da exposição "A Cidade Global". Ambos são conservadores do Museu Nacional de Arte Antiga onde, a 23 de fevereiro, será inaugurada na presença do ministro da Cultura a exposição "A Cidade Global" com curadoria de Annemarie Jordan e Kate Lowe que tem sucitado controvérsia.

O quadro levantou dúvidas desde que foi descoberto por Vítor Serrão, que o encontrou em 1998 no Antiquário Caylus, em Madrid, dirigido por José António Urbina, até à semana passada, quando o Expresso publicou artigos e depoimentos dos historiadores Diogo Ramada Curto e João Alves Dias que contestam abertamente a sua autenticidade. A existência de Chafariz d'El rei foi primeiramente anunciada por Vítor Serrão num colóquio em Portimão, ainda em 1998, e em textos publicados nesse mesmo ano e em 2002. O painel era apresentado como uma vista da Lisboa de Quinhentos - coisa rara - mas suscitou sérias dúvidas logo em 1999. Estava no mercado e seria oferecido a vários potenciais compradores portugueses.

Joaquim Caetano, também conservador do MNAA, juntar-se-ia à defesa da sua autenticidade para escrever que se tratava de obra "de autor quinhentista português, com uma rara perspectiva do Chafariz d'El Rei, em dia de festividades, peça de alto interesse iconográfico olisiponense" ("Uma desconhecida obra-prima de Gregórios Lopes" in Estudo da Pintura Portuguesa. Oficina de Gregório Lopes; Lisboa, Instituto José de Figueiredo, 1999, páginas 129-132). Caetano validava assim o valor iconográfico do quadro, apesar de ter escrito no seu mural no Facebook, já esta semana e na sequência do artigo do Expresso, que nunca havia dedicado "uma linha que fosse sobre esta pintura". Confrontado com esta discrepância, o reputado historiador de arte não quis comentar.

Em sentido contrário, Anísio Franco, que à época já era conservador do MNAA, defenderia que se tratava de um quadro do século XX pintado "à maneira de quinhentos". A controvérsia alastrava e a tábua chegaria pouco depois a Lisboa para figurar na exposição "Os Negros em Portugal", em novembro de 1999. No catálogo da exposição, Fernando António Baptista Pereira, também historiador de arte, concluiria pela sua autenticidade, desmentindo Anísio Franco. Porém, ao contrário de Joaquim Caetano, passou a atribuir a autoria a um pintor dos Países Baixos.

O painel seria adquirido, pouco tempo depois e a título pessoal, por Joe Berardo, sendo integrado mais tarde na sua Coleção. A questão regressaria na semana passada quando os historiadores João Alves Dias e Diogo Ramada Curto contestaram a autenticidade de Chafariz d'El Rei em artigos publicados no Expresso (e agora disponíveis online), colocando também sérias dúvida quanto à veracidade de Rua Nova dos Mercadores, outro quadro igualmente atribuído a um pintor flamengo anónimo que inclusivamente foi escolhido para ilustrar o cartaz da exposição "A Cidade Global".