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“É como Bond. Ele tinha de facto água gelada nas veias”

Dusko Popov, talvez o espião duplo mais importante na II Guerra Mundial, é o tema de um livro agora saído em Portugal. O Expresso entrevistou o biógrafo

Luís M. Faria

Jornalista

Dusko Popov foi um espião sérvio que tinha todas as características originalmente atribuídas por Ian Fleming à sua famosa personagem James Bond

Dusko Popov foi um espião sérvio que tinha todas as características originalmente atribuídas por Ian Fleming à sua famosa personagem James Bond

RALPH GATTI / AFP / Getty Images

Já toda a gente ouviu falar de James Bond, ou 007, mas o homem que lhe terá servido de modelo, embora conhecido há quarenta anos, permanece largamente ignorado pela maioria das pessoas.

Dusko Popov (1912-1981) foi um sérvio que tinha todas as características originalmente atribuídas por Ian Fleming à sua famosa personagem. Atlético e destemido, era também um homem culto e vivia em grande estilo, com uma fama de playboy bem justificada. Durante a II Guerra Mundial, a espionagem alemã contratou-o para estabelecer um rede de agentes. Ele foi imediatamente oferecer os seus serviços aos Ingleses como agente duplo, ficando com o nome de código "triciclo" – supostamente uma alusão ao seu hábito de ir para a cama com duas mulheres ao mesmo tempo.

Na política e na vida privada, Popov amava a liberdade. Naturalizado inglês após a guerra, nos anos 70 contou parte da sua história, que nem a sua mulher nem os filhos sabiam até esse momento. Agora, uma versão mais completa foi escrita por Larry Loftis, um advogado norte-americano que examinou uma enorme massa de documentos no FBI e noutros lugares.

Chama-se "Na Toca do Lobo" e acaba de sair em Portugal. O Expresso entrevistou Loftis no Hotel Palácio, lugar que na primeira metade dos anos 40 era um ninho de espiões. Quase ao lado fica o Casino Estoril, onde Popov teve um gesto que Fleming mais tarde reproduziu numa das cenas mais icónicas em "Casino Royale", mudando apenas os nomes.

Qual foi realmente a importância de Popov durante a II Guerra Mundial?
O mais importante foi ele ter ajudado os Aliados a vencer. Houve duas coisas grandes que fez. Uma, infelizmente, não foi aproveitada: em agosto de 1941, avisou o FBI de que os japoneses iam atacar Pearl Harbour. Hoover (J. Edgar Hoover, diretor do FBI) escondeu essa informação e ela nunca mais foi vista. Os milhares de pessoas que morreram em vão assombraram Popov até ao fim da vida.

Onde ele teve sucesso foi no dia D. Houve três agentes duplos que foram chave para enganar os alemães – entregando-lhes aquilo a que os ingleses chamavam 'ração de galinha'. Conseguiram convencê-los de que a invasão ia ser não na Normandia mas em Pas de Calais, e não a 6 junho mas algures durante julho. Inicialmente, foi sobretudo ele a fazer isso, pois dos três agentes dois ficaram em Londres. Popov foi o único que veio aqui, a Lisboa, para ser interrogado horas e horas pelos melhores interrogadores alemães. Foi interrogado durante seis, sete, oito, nove horas de cada vez por gente da Gestapo e da SD, incluindo o interrogador preferido de Hitler. Como advogado, sei que se soubermos fazer contra-interrogatórios acabamos por chegar à verdade. Se fizermos perguntas suficientes, de formas diferentes e em alturas diferentes... Popov teve de sobreviver a isso repetidamente.

É por isso que chamo ao meu livro "Na Toca do Lobo". O comandante Ewen Montagu, do serviço de espionagem naval, foi a principal pessoa a contribuir para criar a 'ração de galinha' que Popov forneceu aos alemães. Ele sabia que Popov já tinha sido exposto várias vezes e regressava sempre a Lisboa e a Madrid, mesmo quando a sua cobertura rebentava. Era como pôr a cabeça na boca do lobo, dizia.

A operação para enganar os alemães teve outros elementos além dos agentes duplos. Que peso real tiveram estes, e em especial Popov?
Bem, foi todo um esquema. Os ingleses a porem tanques de borracha e outras coisas em Dover. Mas nada disso funciona se não houver a informação dos agentes duplos a dizer que eles estão lá. Popov é o único com aquilo a que os advogados chamam prova testemunhal direta. Uma coisa é dar a prova por escrito, como acontecia com os outros dois agentes duplos. Coisa bem diferente é ter a pessoa sentada em frente a nós, e perguntarmos-lhes repetidamente as mesmas coisas. Ver se piscam os olhos, se suam, se parecem desconfortáveis, quais são as expressões faciais, que linguagem corporal... Às vezes isso dá uma resposta completamente diferente daquilo que lhes sai da boca. E Popov foi o único a fornecer esse tipo de prova. Foi absolutamente crítico. E eles confiavam tanto nele. Sempre que a sua cobertura estava prestes a cair, ele safava-se com a conversa que tinha. Era tão bom que os persuadia: não, não, o que de facto aconteceu foi isto ou aquilo, por este ou aquele motivo. Eles acreditavam e davam-lhe outra oportunidade.

Além da capacidade verbal, devia haver outras características pessoais que lhe davam esse nível de autoconfiança, permitindo-lhe manter o sangue frio.
É como Bond. É o que se vê nos filmes, com Sean Connery e os outros atores que fizeram de 007. Ele tinha de facto água gelada nas veias. No livro, eu conto que uma vez o desafiaram para um duelo à espada. Quando chegam lá, ele diz que não vai ser com espadas mas com pistolas. Ele era um excelente atirador, tinha ganho competições. O outro tipo recuou. Mas foi uma atitude bastante corajosa. Subir parada para a vida ou a morte.

Ele não queria ficar com o rosto marcado.
Isso também. Mas Popov era muito bom com a pistola. Jamais perderia o duelo. E depois encontramos a mesma atitude aqui em Portugal, quando Fleming (Ian Fleming, o futuro autor dos romances sobre 007, que nessa altura trabalhava para a espionagem britânica e fora encarregado de controlar Popov em Portugal) o segue até ao Casino Estoril. Popov tem nele o dinheiro do MI6 e atira-o para a mesa. Isso também foi bastante corajoso, porque era o resgate de um rei.

Não o fez 'em serviço', por assim dizer. Foi algo pessoal.
Sim. Sem propriamente se insubordinar, tomou liberdades inacreditáveis.

Qual foi o seu verdadeiro motivo? E o que é que isso diz sobre ele?
Acho que houve duas razões. Uma é que naquele momento ele não tinha completamente a certeza de quem Fleming era. Fleming conhece-o, e Popov pensou que ele devia ter sido encarregado de seguir o dinheiro. Fleming segue-o do Hotel Palácio para o Casino. Popov suspeita que ele é britânico, mas quer descobrir. Ao atirar o dinheiro para a mesa, se Fleming for alemão ou russo não haverá reação, embora seja imenso dinheiro. Mas se for britânico... Em dinheiro atual, seriam uns 750 mil dolares [706 mil euros], uma fortuna. O estratagema resulta. Popov vira-se e Fleming está verde. Claro que é britânico.

A segunda razão é a personalidade de Popov. O gentleman que no romance "Casino Royale" é Le Chiffre, na vida real é um homem chamado Bloch. É rico, é parvo, e tinha estado a exigir apostas ilimitadas. Isso é considerado rude. Num jogo de gentlemen, deve-se deixar o croupier fazer isso. Popov quis ensinar-lhe uma lição. Ele não gostava de bullies. Quis pô-lo no seu lugar.

Esse desprezo pelos prepotentes tem alguma relação com a sua hostilidade face ao nazismo?
Sem dúvida. Ele disse em muitas entrevistas que o seu objetivo principal era derrotar Hitler. Derrotar os nazis e restaurar a liberdade para toda a gente. Ele era um patriota, gostava da liberdade, como toda a gente, e tinha visto em primeira mão o que eles estavam a fazer, quando foi preso pela Gestapo na Alemanha nos seus tempos de estudante.

Mesmo a sua vida privada, ele viveu-a com um elevado grau de liberdade.
Pode dizê-lo. Ele e o seu irmão mais velho, que por acaso também se tornou agente duplo, eram os dois ferozmente independentes. Em parte era por serem ricos. Vinham do dinheiro, gostavam de ter escolhas. Mas em parte também era por se ver como um ragusino (a Ragusa era uma velha república marítima centrada em Dubronivk, na atual Croácia). Os ragusinos tinham sido ocupados pelos turcos e por outros países. lutaram sempre pela sua independência. E ele tinha orgulho nisso. Nós somos independentes, dizia.