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“Gabriela Cravo e Canela” (da Rede Globo) estreou-se na RTP1 a 16 de maio de 1977 e ali ficou até setembro, sempre de segunda a sexta-feira, a seguir ao Telejornal das 20h

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Foi há quarenta anos que as novelas chegaram a Portugal. Desde então é o género de programa mais visto na televisão, numa relação apaixonada com os portugueses

Texto de Pedro Boucherie Mendes

“A Única Mulher”, exibida até aos primeiros dias de janeiro na TVI, foi a telenovela portuguesa com mais capítulos de sempre, com mais de 560 episódios. “A Única Mulher”, que teve a originalidade de introduzir pela primeira vez uma protagonista não caucasiana (a belíssima mulata Ana Sofia Martins) e de ter de forma explícita um núcleo (ou seja, um conjunto de personagens) de raça negra com incidência direta no desenrolar da trama, estreou-se no princípio de 2015 e obteve quase sempre excelentes resultados de audiências, o que justifica precisamente o número astronómico e invulgar de episódios. Tipicamente, uma telenovela tem cerca de 150 episódios, muito embora não haja qualquer regra, mas há muito que em Portugal se usa o dobro como norma. Desta vez, foi quase o quádruplo e a TVI encomendava sucessivos episódios, procurando renovar o ponto das histórias, porque isso se revelou possível e porque os espectadores continuaram a ver a novela, a despeito do número inusitado de episódios. Para que o público não se saturasse, a TVI fez uso do código das séries e “A Única Mulher” foi a primeira telenovela portuguesa a ter “temporadas” (um estratagema muito utilizado nas novelas turcas) sem que houvesse sequer um dia de pausa (em 2006-8, “Floribella”, da SIC, tivera duas, mas separadas por algum tempo). Neste caso foram três.

No mundo das novelas tudo é possível e no mundo das novelas na televisão portuguesa tudo não possível e provável. O episódio 489 de “A Única Mulher” teve apenas 18 minutos, mas o 468 teve 65 minutos, porque há muito que a noção ordinária de capítulo com duração de cerca de meia hora implodiu na nossa televisão. Tanto SIC como TVI têm durações indicativas (em volta dos quarenta minutos), mas alteram-nas consoante a estratégia de programação, podendo haver capítulos de mais de uma hora e capítulos de menos de vinte minutos. No primeiro caso quando se trata de ‘tapar’ uma estreia noutro canal e evitar que os espectadores mudem de canal, no segundo para acomodar uma nova novela própria, usando o que na gíria se chama ‘sanduíche’, isto é, duas fatias pequenas de uma novela com muito público com um episódio de uma nova no meio, considerada a melhor estratégia de lançamento de uma que o público ainda não conhece.

Os portugueses estão habituados a ver novelas há praticamente quarenta anos, desde que “Gabriela Cravo e Canela” (da Rede Globo) se estreou na RTP1 em maio de 1977 e ali ficou até setembro, de segunda a sexta-feira, a seguir ao Telejornal das 20h. Cada capítulo do que então era denominado por “folhetim” durava 30 minutos e havia apenas um em exibição de cada vez, embora por pouco tempo, porque rapidamente a RTP programou novelas também ao fim da tarde, em seguida à hora de almoço e no próprio segundo canal. Com a abertura às televisões privadas, em 1992, nasceu a competição e depressa se percebeu que a melhor arma era a novela, estas replicaram-se e nestes quase 40 anos houve centenas emitidas.

Os portugueses gostam de novelas e se forem portuguesas gostam ainda mais. “A Única Mulher” — e várias outras da TVI ou da SIC — conseguiu que entre 1,3 e 1,5 milhões de espectadores em média a seguisse com fidelidade, todos os dias. Só que além destes, mais de um milhão de outros em média estavam a seguir fielmente mais novelas noutros canais. Em números por alto, cerca de metade das pessoas que vê televisão a seguir ao jantar, vê novelas em televisão generalista. No clássico da História da Literatura, “The Rise Of The Novel”, Ian Watt disse que a ideia de romance na Inglaterra nasceu das cinzas do tédio em meados do século XVIII. Por cá, que nunca fomos tão literatos, talvez o gosto por enredos diários dramáticos simples de seguir e de tomar partido tenha filiação semelhante e possa ter brotado da ressaca com a pós-revolução e a aceitação da democracia. O que é seguro é afirmar que só tivemos dois anos de democracia sem novelas. “Gabriela” estreou-se a 16 de maio de 1977 sem qualquer tipo de polémica, talvez porque fosse baseada na obra homónima de Jorge Amado, um escritor muito popular no nosso país e do agrado e estima dos intelectuais de então. O “folhetim”, como era chamado à época, chega à RTP como adaptação de uma obra literária e teve uma campanha de lançamento com conferência no Ritz e espetáculo em Lisboa de Vinicius de Moraes. Como todas as telenovelas (ou teledramaturgias, ou telesséries, ou folhetins), “Gabriela” orientava-se para a(s) de história(s) de romance na obra, onde aquilo que o amor suscita e implica (desejo, luxúria, paixão, ciúme, sensualidade, manipulação, poder, capricho) faz mexer a ação. Dizer que o folhetim foi um retumbante sucesso naquele Portugal talvez não seja dizer o suficiente. Em menos de nada, o livro escrito em 1958 subiu a número um do top (ultrapassando “Cavalgada Cinzenta”, de Fernando Namora), na tabela publicada no semanário “O Jornal”, que na semana de estreia dera considerável destaque de capa à novela, escolhendo para título a sugestiva frase “Gabriela, Cá Está Ela”. Fosse pela sensualidade de Sónia Braga, pela música do genérico de Gal Costa, pelo talento dos atores que revelavam a perfídia ou força de alguns personagens, pelo hábito e ritual que se criou, a novela era vista e discutida em todos os quadrantes da sociedade e muitos portugueses descobriram que “enxergar” podia ser sinónimo de “ver” ou acrescentar “cafageste” à lista de insultos que conheciam. Nem a situação política quente ficou imune. Um trabalho publicado em “O Jornal”, em outubro de 1977, aborda aquilo que o jornal chama de “Gabrielomania” que se “instala em Portugal”. Um articulista de então, Portela Filho, é citado como tendo escrito que se houvesse “Gabriela” a 24 de abril de 1974, a revolução não teria existido (“Porque a ‘Gabriela’ é emoliente, embaladora e dissolvente”) já que os portugueses teriam ficado em casa a ver um capítulo. Otelo, consultado nesta reportagem, discorda.

Recorde Tipicamente, uma telenovela tem cerca de 150 episódios mas “A Única Mulher”, da TVI, conseguiu a proeza de chegar aos 560

Recorde Tipicamente, uma telenovela tem cerca de 150 episódios mas “A Única Mulher”, da TVI, conseguiu a proeza de chegar aos 560

d.r.

Desde então há novelas porque o público gosta e continuam de altíssima eficácia enquanto mecanismos de programação a um extremo tal que nos anos mais recentes se transformaram numa espécie de rolo de massa a fritar na panela das farturas que se vão cortando em pedaços consoante as necessidades. Desde 1977, sempre tivemos novelas, mas desde que a TVI passou a investir em ficção portuguesa na viragem do século que entre portuguesas e brasileiras, os três canais generalistas portugueses emitiram dezenas de milhares de horas deste género habitualmente criticado por ser simplista, básico ou entediante. Descontando o Cabo, onde já existem bastantes novelas, na televisão generalista em Portugal teremos atualmente em média umas 2500 horas por ano, com a RTP a estragar a média, porque a nova administração as recusa em prime-time, apesar de muito recentemente ter estreado uma ao início da tarde.

A influência de “Gabriela” foi profunda e motivou a ascensão quase imediata da telenovela como género prevalecente e dominante na televisão portuguesa: a circunstância de ser diária criou as bases de uma ritualização que ainda impera, horizontalizando a grelha de programação. As pessoas habituaram-se a ver a mesma coisa a seguir ao jantar todos os dias, fazendo de Portugal muito mais latino-americano na sua dinâmica televisiva, do que europeu ou americano, televisões onde prevalece o ritual semanal e não diário no chamado prime-time.

A partir de “Gabriela” nunca mais deixámos de ter novelas brasileiras na nossa televisão e durante décadas o seu impacto sociocultural e na própria indústria da televisão e dos atores foi debatida vezes sem conta. Seriam boas ou más? Estariam a roubar emprego aos atores portugueses? Eram demasiadas? Tirariam espectadores ao cinema e ao teatro? A crise da Revista no Parque Mayer seria culpa das novelas? Os cinemas de cidade e da província fecharam por causa das novelas? E as más notas das crianças? Acabou por vencer a vontade silenciosa do público e os folhetins podem ter passado a “telenovelas” e depois a “novelas” mas nunca mais deixaram a nossa televisão. “O Astro”, “Casarão”, “Escrava Isaura”, “Pai Herói”, “Tieta”, “Roque Santeiro”, “A Próxima Vítima” ou mais recentemente “Avenida Brasil”, etc., são nomes de tramas brasileiras que muitos recordam e que abrasileiraram ainda mais a nossa língua. A essas somem-se as portuguesas que começaram cinco anos depois de “Gabriela”, com “Vila Faia”. Contagiada e motivada pela adesão quase unânime dos portugueses ao género “novela” e com o país a caminho de uma recessão profunda que culminaria com a chegada do FMI, a RTP decide investir em 1982 na sua própria novela, que, surpreendentemente, foi um enorme sucesso de público e de crítica. Estreada em maio, segundo uma reportagem nesta mesma revista do Expresso de 25 de setembro de 1982, seguida por “mais de noventa por cento da população”. Das coxas de Sónia Braga, do bigode de Nacibe e da sageza de Maria Machadão passáramos para o lúgubre “Casarão” e para o sofrimento da “Escrava Isaura” e agora, em “Vila Faia”, alguns viam pela primeira vez famílias portuguesas que se tratavam por “você” a comer o pequeno-almoço à mesa servidos por empregados de farda. Já agora, o célebre pequeno-almoço à mesa tão típico nas novelas não é apenas uma distinção de classe, é também um recurso técnico simples para fazer avançar a ação porque cria oportunidade aos argumentistas de colocarem os personagens a falar uns com os outros todos os dias. As casas dos ricos com escadaria a mesma coisa: serve para que outros personagens entrem em cena, sendo o tempo da descida dos degraus útil para o espectador se enquadrar. Desde “Vila Faia” até hoje, produziram-se cerca de 100 novelas portuguesas, o que dá uma apreciável média de três por ano. A TVI produziu metade e RTP e SIC as outras. Fora destas contas ficam as inúmeras temporadas de “Morangos Com Açúcar” e de “Bem-Vindos a Beirais” dado que em rigor não são telenovelas, mas sim séries de longa duração, “Beirais” com mais de 600 episódios e “Morangos” com mais de dois mil. Por inúmeras razões, e apesar de a RTP ter continuado a produzir novelas, não se criou então uma verdadeira indústria de novelas portuguesas, a ponto de a própria RTP ter enfrentando a chegada da SIC, dez anos depois, com as melhores e mais poderosas novelas da Globo e não com uma aposta de produção própria.

Quem trabalha em televisão sabe bem como as pessoas gostam de gostar de programas mas também de os detestar. Oferecer coisas novas ao espectador é estar sujeito a este julgamento, o que pode amassar egos mas sobretudo fazer perder público e, portanto, receita. Em todos os mercados onde está consolidada, a novela é por larga margem o mais eficaz e maleável produto ao dispor das televisões. Sem surpresa, também de é longe a melhor relação custo-benefício: o custo por episódio é inferior a praticamente todos os outros géneros de ambição análoga. Um episódio de uma série estrangeira é muito mais barato mas não teria nem metade da audiência, porque, acredite-se ou não, muitas pessoas nem sequer as legendas conseguem ver quanto mais lê-las ou compreendê-las. Acresce que Portugal não tem a menor tradição de dobragem. Um programa grandioso tipo “The Voice” é muito mais caro do que uma novela e impossível de replicar em centenas de episódios.

As novelas portuguesas obedecem a princípios de criação do género com as suas convenções a guiar a inspiração e intuição dos autores, tudo empacotado dentro de uma óbvia uniformidade que é esperada pelo espectador. Estando industrializadas e com máquinas oleadas na SIC e TVI e respetivos parceiros (SP e Plural), a verdade é que se tem feito um excelente trabalho que já valeu dois Emmys, um para a SIC, outro para a TVI. Para todos os efeitos, graças ao caudal contínuo de novelas, a produção de conteúdos para serem exibidos em televisão profissionalizou-se e é uma indústria dinâmica e eficiente como se percebe no livro do investigador e crítico Eduardo Cintra Torres, “Telenovela, Indústria e Cultura Lda”, um tremendo trabalho de equipa, com muita organização, sincronia, talento, empenho e esforço. Em nome do cliente que é o espectador e baseada na expectativa de que este se sentará em frente ao seu televisor a seguir ao jantar, esta indústria trabalha furiosamente, quase sempre em cima do prazo, para que as nossas principais novelas sejam o mais contemporâneas possível. Os nossos atores, que muitos criticam “por aparecerem nas revistas”, trabalham dias consecutivos de 10 ou 12 horas durante as gravações, tal como as equipas obviamente, até porque em Portugal o projeto de uma novela, ou qualquer outro programa, monta-se em prazos que seriam impossíveis em mercados mais maduros, o que atestando algum frenesim excessivo motivado pela concorrência, prova a capacidade de resposta dos profissionais e evidencia o nosso chamado desenrascanço. O espectador em modo de descompressão depois de um dia de trabalho, confortável no seu sofá, só precisa de ver as novelas. Se porventura quiser mesmo ajudar o seu canal de televisão favorito, deve não fazer zapping no intervalo porque a única audiência que interessa é a audiência dos anúncios.

Não precisamos de ir todos os dias à praia para saber que o mar é salgado — para citar o nome de uma telenovela recente — e não é preciso estar sempre a ver capítulos de uma novela para sabermos o que sabemos, que há ricos e pobres, a ação é arrastada, dialoga-se muito, há poucas cenas de exterior, os enquadramentos são de meio corpo, os planos são muito parecidos e a iluminação é uniforme, que as mulheres são os personagens dominantes e mais frequentes, que há humor e comédia, há sempre um personagem espalhafatoso e que se percebe em pouco tempo quem são os antagonistas. Também há personagens que assim que chegam a casa se servem de uísque porque é que isso que as pessoas que vivem bem fazem. Tudo isto acontece assim porque a novela tem de se parecer com uma novela. Como escreve Cintra Torres (2015): “Raramente há uma novela revolucionária, no sentido de alterar profundamente o modelo genérico. (…) A indústria cultural não pode correr riscos: o terceiro elemento, o da audiência, é o supremo tribunal que decide se alterações profundas ao género televisivo se adequam aos seus gostos e interesses”.

Longividade. “Morangos com Açúcar” não é bem uma novela mas sim uma série de longa duração. Teve mais de dois mil episódios

Longividade. “Morangos com Açúcar” não é bem uma novela mas sim uma série de longa duração. Teve mais de dois mil episódios

d.r.

O que melhor define uma telenovela ainda é um aspeto formal: o facto de os episódios se seguirem sem interrupção e de haver um final definido à partida. Embora nada impeça que haja continuações anos depois, ou uma espécie de segundo volume (como sucedeu com a segunda “Floribella”, que se estreou apenas semanas depois de a primeira ter terminado), remakes (como se fez com “Gabriela”, “Vila Faia”, “Jardins Proibidos”, etc.), ou centenas de episódios como em “A Única Mulher”, a verdade é que tradicionalmente as novelas terminam com um “fim”. A essência e familiaridade das histórias está no trio “princípio, meio e fim”: o espectador mantém-se firme porque sabe que será recompensado com um final e que no dia seguinte começa uma nova, renovando-se o ciclo de compromisso e adesão. As televisões não se podem permitir correr demasiados riscos e não haja dúvidas de que a TVI correu um risco com tantos episódios de “A Única Mulher”, porque adiou esse fim que é a recompensa pelo compromisso.

O desenho da linha de audiência de uma novela é tipicamente em planaltos, subindo (ou descendo) desde os primeiros episódios até estabilizarem num patamar duradouro, até que descem quando espectador se começa a aborrecer, para subirem nas últimas semanas graças à excitação provocada pelo final. As nossas novelas ocupam o chamado coração do prime-time (entre as 21h30 e quase a meia-noite), onde os anunciantes pagam mais caro, por isso o objetivo é que a fase planalto seja a mais alta e prologada possível, o que torna lógico que uma televisão se interrogue: se a novela presente corre bem, para quê terminá-la? Sendo acertado afirmar que as novelas podem ser prolongadas para adiar o mais possível a transição para seguinte, como a TVI arriscou fazer, porque as produções se mantêm em funcionamento e abertas a alterações durante bastante tempo, qual será esse limite? Ou caminharemos para ter novelas infinitas no nossos prime-times, como os cerca de 600 episódios de “Bem-Vindos a Beirais” emitidos na RTP entre 2013 e 2016 indiciavam? Mas nada acontece por acaso neste mercado. A decisão de encomendar mais episódios tem um racional de audiências mas também económico, porque o custo unitário por episódio desce. Historicamente, as telenovelas latino-americanas são descendentes mais ou menos diretas dos folhetins da rádio americana (as soap operas), criadas e executadas para servirem como veículo de publicidade a produtos de higiene e limpeza. Dali chegaram a Cuba, através de Miami e desceram até à América do Sul, em especial à Argentina e depois a outros territórios como o Brasil. A transposição para a televisão acaba por ser natural e acontece nos anos 50 ainda numa lógica teatral, evoluindo para a linguagem que temos hoje, de vários núcleos de personagens em décors diferentes por causa da tecnologia do videotape que permite gravar e editar cenas. As telenovelas tornaram-se tão populares que deram origem a uma indústria exportadora sendo um dos poucos géneros televisivos onde a ideia de vantagem comparativa persiste com os ares da América do Sul a parecerem mais propícios a este tipo de dramaturgia, sendo dobrada quando é exibida num país não falante de português. A versão original de “Escrava Isaura”, emitida pela RTP em 1978, que conta a história da liberdade de uma escrava branca, foi um êxito retumbante nos então países comunistas e em Cuba, como se lê no próprio site oficial da Rede Globo, e o racionamento de energia chegou a ser suspenso para que os espectadores não perdessem os capítulos, enquanto na Polónia milhares lotaram um estádio para assistir a uma competição de sósias dos personagens Isaura e Leôncio.

Atualmente há telenovelas — ou seja, séries dramáticas de relativo baixo orçamento com dezenas de capítulos emitidos contínua e diariamente, ligados sequencialmente com final garantido, quase sempre feliz ou pelo menos coincidente com a moral dominante — em países tão díspares como a Indonésia, a Turquia, toda a América do Sul, Europa de Leste, China, Coreia ou Portugal. Nos Estados Unidos e mercado europeu privilegiam-se as soap operas, séries infinitas, onde o elenco e as próprias histórias vão mudando ao sabor de correntes várias: dando dois exemplos, “General Hospital” começou em 1963 nos EUA e “Coronation Street” no Reino Unido há mais de 56 anos. Estas soap abundam nas televisões de todo o mundo em todos o tipo de horários e com várias periodicidades, sendo o termo “telenovela” usado sem que se traduza a palavra por causa do final definido mas igualmente por causa das matizes sul-americanas percetíveis na lógica folhetinesca de amores trágicos ou cheios de incidentes, famílias desavindas, desafios morais, vinganças e redenções.

O modo de ser da novela permite que estejamos distraídos ou que falemos com quem está ao nosso lado enquanto assistimos a um capítulo. Ao contrário de uma série-legenda que exige um tipo de atenção ativa, numa novela o espectador tira o retrato dos personagens e das cenas em pouco tempo, não só porque domina as convenções mas porque a redundância e a repetitividade são intrínsecas ao género, o que permite apanhar a história mesmo estando 15 dias sem ver. Só que em Portugal esse arrastar é levado a extremos. As nossas novelas, apesar de urbanas e parecidas com séries, são anormalmente longas se as compararmos com os parâmetros internacionais, afetam o desenrolar da história e prejudicam o trabalho de todos os implicados. Espreitando um capítulo de novela brasileira percebemos como acontecem “mais coisas” ou como os atores parecem mais despachados e por aí tem-se uma ideia de como os nossos criadores, escritores e atores são vítimas da falta de dinheiro, arrastando cenas ou criando diálogos inúteis e implausíveis não porque não tenham talento e engenho, mas porque é preciso produzir minutos. As difíceis condições de mercado obrigaram as televisões a ir esticando as suas produções e hoje é comum partir-se do princípio de que haverá no mínimo mais de 300 capítulos à partida, o dobro do que seria desejável. A questão é se o espectador se importa e a resposta é não, como aliás ilustram os mais de 550 episódios de “A Única Mulher”. Por experimentação justificada pela necessidade e pela concorrência, e apesar de as convenções serem a base da sua relação com o espectador, as televisões atropelam-nas com facilidade também porque percebem que um capítulo de novela com metade da duração habitual não implicou um boicote ao resto da emissão.

Uma das maiores injustiças para com a avaliação da qualidade da televisão portuguesa, se é que poderemos colocar as coisas nestes termos, é não se reconhecer que vivemos num país onde a economia (e, portanto, o consumo) estagnou na última década e meia, tendo o mercado publicitário encolhido: em 2007 valia 720 milhões de euros e em 2017 as projeções apontam para que atinja cerca de 480, depois de em 2013 ter batido no fundo nos 380, com a diferença de nestes dez anos terem surgido o chamado Digital com dois competidores fortíssimos, o Facebook e o Google. A televisão generalista em Portugal capta pouco mais de metade do total do investimento publicitário (uma percentagem alta), mas nos últimos anos perdeu para sempre anunciantes como TMN, PT, Optimus, Mundial Confiança, BES, Barclays ou o Banif, e novas marcas e negócios de que todos ouvimos falar — Apple, Google, Facebook, Uber, Twitter, AirBnb — não parecem ser anunciantes em televisão. Isto é, não bastavam as novas formas de concorrência do digital e dos canais de cabo, como a nova economia parece não estar a precisar da televisão generalista. Azar das televisões? Eventualmente, mas só se faz boa televisão com muito dinheiro. Os direitos dos jogos da Champions League ou dos Olímpicos que as pessoas adoram ver custam muito dinheiro, como custa fazer um programa como “The Voice” e “MasterChef”, ou novelas como “Amor Maior” e “Ouro Verde”, todos produtos de qualidade, onde o espectador dará o seu tempo por bem empregado. Estamos a falar de milhões de euros para cada um destes exemplos, não apenas de milhares. Para não falar do igualmente dispendioso jornalismo livre e isento. Não admira então que as televisões agradeçam esta fidelidade às novelas e a relativa indiferença do público por terem muitos episódios. Ainda por cima, estas novelas são exportáveis num negócio importante nas contas das televisões. Para se ter uma ideia, a produção da SIC “Laços de Sangue” foi vendida para mais de 20 países, da França à Moldávia, passando por Itália ou pela Bolívia. As novelas da TVI também têm vindo a ser cada vez mais exportadas, bem como séries da RTP. Desde há dois anos, os canais portugueses e a associação de produtoras independentes partilham um stand de vendas no mercado de televisão em Cannes. O Estado apoia esta embaixada, custeando parte do investimento através do ICA. Estamos longíssimo dos quase mil e quinhentos milhões de euros que o Reino Unido gerou em 2016 exportando conteúdos, formatos e direitos, mas a exportação de conteúdos, talento e ideias é uma realidade incontornável porque o nosso mercado é pequeno e pouco rico.

Em Portugal, nos últimos anos, a nossa oferta típica de prime-time está mais naturalista, urbana e sofisticada, sem as tais cores garridas e a carga de melodrama intenso e primário de outros tempos, como aliás estão as brasileiras da Globo por comparação com as mexicanas ou venezuelanas. Desde que há menos de dez anos a SIC apostou forte, obrigando a TVI a subir a qualidade das suas produções, mais do que folhetins maniqueístas e xaroposos as novelas locais passam por ter características de séries muito longas (em especial as da SIC que faz uso de um tipo de iluminação e de uma cor mais tipo série), onde a história principal impera mas coabita com vários argumentos secundários, tudo temperado com drama, romance, quotidiano e bastante comédia e humor. Não lhes falta sequer o thriller com a inerente investigação policial dos frequentes homicídios e crimes a ajudar a conduzir a trama e a serializar; sem esquecer os esperados e universais enredos e subenredos de romance, com amores e desamores em catadupa. Isto aconteceu por ambição criativa e artística e porque as novelas portuguesas se tornaram praticamente as únicas obras de ficção produzidas pelas nossas televisões, se descontarmos as recentes séries da RTP que, pelo menos por enquanto, têm registado resultados de audiência irrelevantes. Para o público — e até para o legislador — é evidente que não pode haver televisão generalista sem ficção, sem histórias que se liguem ao público e o façam emocionar-se, rir-se, divertir-se ou passar o tempo e que promovam em simultâneo uma indústria do audiovisual, mas nas atuais SIC e TVI quase só há ficção no formato novela que é tão absorvente dos outros géneros que as séries de longa duração infanto-juvenis do tipo “Morangos” já foram capturadas: duas tentativas nos últimos anos por parte da TVI para reabilitar este género com “Massa Fresca” e “I Love It” não conseguiram os resultados esperados e limitaram-se a ter uma temporada.

Certo é que as novelas portuguesas são bastante bem feitas, são exportáveis e têm melhorado imenso ao nível técnico (luz, som, figurinos, montagem), de argumento e escrita e até na direção de atores. Se na América Latina há tipos de oferta consoante o horário, umas mais ligeiras, outras mais pesadas e outras mais orientadas para costumes, por cá a novela principal é abrangente e normalmente a grande máquina tradutora e descodificadora dos temas sociais em voga mais ou menos complexos ou (supostamente) fraturantes como a eutanásia, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, etc., e onde são regurgitadas sucessivamente as várias declinações dos temas clássicos, a austeridade versus a opulência, a sobriedade da pobreza versus a extravagância da riqueza, o romeu-julietismo e a luta de classes ou as novas vias de ascensão social através do trabalho árduo e honesto. Por exemplo, na atual novela da TVI, “Ouro Verde”, um personagem irá apaixonar-se por um transexual e terá uma reação inicial preconceituosa sendo provável (é uma aposta fácil) que ao fim de algum tempo (e sofrimento) o amor vença. Além daquilo que mostram e revelam ao público, as novelas portuguesas cumprem papéis fundamentais na televisão portuguesa, que vão da revelação, formação e treino dos novos atores; composição e manutenção de um star system de atores e respetivos satélites (agentes, publicistas, revistas, sites, etc.); motor de uma indústria que integra guionistas, produtores, técnicos e outros profissionais; ou como grande e talvez única montra da música portuguesa, de tal modo que as bandas e cantores veem a sua popularidade e remuneração em geral depender bastante do facto de terem os seus temas na banda sonora de novelas de sucesso.

Pioneira. “Vila Faia”, a primeira novela portuguesa, estreou-se em maio de 1982 na RTP e foi um enorme sucesso de público e de crítica

Pioneira. “Vila Faia”, a primeira novela portuguesa, estreou-se em maio de 1982 na RTP e foi um enorme sucesso de público e de crítica

d.r.

No ano 2000, a insistência de José Eduardo Moniz para que a TVI adquirisse os direitos de “Big Brother” não tinha como objetivo apenas ganhar audiência como também atrair o público da SIC (o então canal líder) e da RTP, mostrando-lhes a oferta de novelas portuguesas (como “Todo o Tempo do Mundo” ou “Jardins Proibidos”) que havia na sua antena. O primeiro “Big Bother” foi o melhor engodo para que muitos viessem experimentar a TVI. Anos antes, em 1993, sucedera a um movimento idêntico, quando a SIC conseguiu o exclusivo das novelas da Globo, retirando-as da RTP. Um canal de televisão pretende ganhar audiência mas também retê-la, o que acontece atraindo o público e criando condições para que o hábito de visionamento se instale e perpetue. A história da televisão é a história dos programas que fidelizaram e cativaram o público. Ou seja, que o prendem. Em televisão não basta ter bons programas: é indispensável que as pessoas deixem de ver o outro canal numa transferência que pode ser longa e precisar de iscos como “Big Brother”. No primeiro dia de emissões, a 6 de outubro de 1992, a tão aguardada SIC consegue apenas 11 pontos de share, contra uns esmagadores 76 do canal 1 da RTP. O motivo? A novela brasileira “Meu Bem, Meu Mal”, que com o seu perfil multiusos como qualquer novela, agarrou os espectadores à RTP. Até hoje na televisão portuguesa houve três líderes, RTP 1 (até 1994), SIC (1995-2004) e TVI (2005 até hoje) e das duas vezes que a liderança foi perdida, deveu-se à circunstância de no canal vencedor estarem as novelas que as pessoas preferiam, as da Globo no início dos anos 90 e as portuguesas de Portugal, com cenários e atores portugueses, a partir do início deste século na TVI.

Em 2016, os quatro canais (RTP1 e 2, SIC e TVI) somaram 55,80% da audiência, sendo o resto dividido entre os canais de subscrição, sobretudo infantis, notícias e ficção legendada. No horário mais importante, o prime-time, conseguiram 64,1, graças a telejornais e novelas. O problema é que há dez anos atingiam 90% nesse horário. Ainda assim, todas as noites uns quatro a cinco milhões de portugueses continuam a escolher e, em média, quase três milhões veem um capítulo inteiro, na TVI ou SIC. É um público muito transversal e heterogéneo, uma espécie de viveiro de alvos para anunciantes, o que torna o ‘produto’ novela praticamente imbatível para a publicidade. Em Portugal, todos vemos novelas, novos, velhos, homens, mulheres, ricos, pobres, instruídos e menos instruídos. Num estudo quantitativo sobre televisão generalista em Portugal feito no ano passado pela GFK para a SIC, 62% dos inquiridos afirmam “costumar” ver novelas. Destes, mais de dois terços afirmam não estar a pensar trocar estes conteúdos por outros. Ou seja, não só muitos portugueses têm o hábito de ver novelas como pretendem continuar a fazê-lo. Os canais, que o sabem, tentam que o público escolha e se habitue às suas — ou não se desabitue — com campanhas de promoção e publicidade, atores célebres, localizações exóticas, histórias fortes, ganchos narrativos no final dos episódios, menções no ecrã que dizem “estreia” ou “episódio especial”. Gostemos ou não da ideia, a telenovela é um passatempo nacional e no que depender das televisões assim continuará, porque parece ser essa a versão da realidade que as pessoas querem ver e até se habituaram a esperar que as suas novelas reflitam os ventos da contemporaneidade: na novela atual da SIC, o Crossfit está presente como integrante da caracterização de uma personagem e na da TVI a protagonista é vegana.

No interessantíssimo “O Poder do Hábito”, o jornalista do “New York Times” Charles Duhigg, diz que o nosso cérebro não distingue um bom de um mau hábito — um hábito é um hábito. Como sabemos, a nossa vida baseia-se em milhares de decisões automáticas e talvez ver novelas seja uma dessas, um hábito passado por pais ou avós, tão invisível como outros. Educamos os nossos filhos com os bons hábitos, como comer saladas ou arrumar o quarto, mas há outros que se adquirem observando e imitando, como provavelmente assistir a novelas. E será esse um bom ou um mau hábito? O que procuramos nas novelas? Distração, desligamento, descompressão? Ou escapismo? Será que procuramos ao mesmo tempo o “estar” em família? Ou estamos a espreitar outros como nós e diferentes de nós? O escritor americano David Foster Wallace escreveu que a única vez que viu uma típica família americana foi na televisão, o que recorda a pergunta evidente: será que os portugueses nas novelas são parecidos com os portugueses que veem novelas? A propósito, que retrato fazem as televisões do seu público e como é que os autores e guionistas chegam a essas pessoas? Que grau de complexidade pode ter a fábula numa novela, já que o público é tão transversal? Que tipo de moral perpetuam as nossas novelas e em que medida, por exemplo, a ambição continua a ser um absoluto pecado a ser punido no fim? E os principais vilões são quase exclusivamente os ricos ou é possível haver pessoas ricas inteligentes e interessantes que não sejam nem velhacos nem corroídos pela culpa da sua boa fortuna? E religião? Nas novelas também se dizem católicos não praticantes como milhões de portugueses? O que sabemos em Portugal acerca do que motiva tantos de nós a verem e certamente a reverem-se em novela atrás de novela? Fica-se com a ideia de que tudo isto é pouco escrutinado, estudado ou até debatido. Que influência teve a novela em nós e naquilo que somos nos últimos 40 anos? Haverá uma ideologia da novela e tem mudado? Se tudo é político, a novela também é? Para ilustrar este anonimato da novela, o site Pordata.pt, uma excelente e utilíssima base de dados recheada de informação quantitativa acerca do nosso país e da nossa população, chega a incluir o número de visitantes a aquários ou jardins botânicos, mas sobre telenovelas nada, nem uma palavra quanto mais um indicador.

A tecnologia parece estar a mudar tudo, mas a televisão generalista continua a ter um efeito muito forte no público, aquele que referia há quase 30 anos Dominique Wolton no clássico pró-televisão “O Elogio do Grande Público”, quando defendia que a televisão unia as pessoas em torno de uma mesma coisa, criando um laço na comunidade que tem a particularidade de ser livre. Pressionadas por resultados de audiências e de receita e apertadas pela competição, as televisões não se preocupam ou sequer têm estados de alma. As pessoas gostam de novelas, estarão habituadas, escolhem-nas porque todos gostamos de histórias e esse gosto está ser bem saciado há 40 anos. Talvez possamos dizer que através das novelas os adultos vivem outras vidas ou que os mais novos espreitam as que ainda não conhecem. Talvez não passe de mera distração ou de tema de partilha com a vizinha no dia seguinte. Talvez devamos lembrar que a novela dá-se a ver porque pode ser consumida distraidamente. Talvez o televisor ligado com a novela a passar seja um parapeito da janela mais confortável para espreitar uma rua do tamanho do mundo inteiro. Talvez possamos dizer tudo e o seu contrário acerca das novelas e da relação que temos com elas, porque é mesmo assim quando os laços são de sangue.