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A Hungria leva o Urso de Ouro da Berlinale

A Húngara Ildikó Enyedi com o Urso de Ouro

Nas curtas-metragens, nova vitória para Portugal com “Cidade Pequena”, de Diogo Costa Amarante

Berlim sorriu novamente ao cinema português esta noite, no termo da sua 67ª. edição, premiando com o Urso de Ouro da categoria, tal como já se anunciou, uma das quatro curtas portuguesas que se apresentavam a concurso: “Cidade Pequena”, de Diogo Costa Amarante. É um belo filme sensível ao sonho e aos segredos da infância, centrado em Frederico, um miúdo de seis anos que acompanha a mãe, não se sabe bem aonde nem porquê. Vemo-lo em grande plano e sentado a dormir no banco de trás de um carro, pelo espelho retrovisor.

Como todas as crianças de seis anos, é enorme o seu poder em reter da realidade aquilo que lhe importa e em eliminar o que não lhe interessa. E o que lhe importa e aquilo que não lhe interessa não passam pelas palavras, como às tantas sublinha um hit do anos 80.

Como reage Frederico ao mundo dos adultos numa fase da vida em que “começa a compreender a convivência humana e a moldar-se a si próprio para forjar o mundo que o rodeia”, tal como é dito no filme? A maior ambição de Costa Amarante é ousar transformar em ficção este universo insondável que agora traz para Portugal mais um prémio de alto nível.

O cineasta repete assim os êxitos de João Salaviza e de Leonor Teles: esta é a terceira vez que o cinema português traz de Berlim o ouro da categoria nos últimos seis anos. Outra curta portuguesa, “Os Humores Artificias”, de Gabriel Abrantes, vencera esta tarde a nomeação da Berlinale para a próxima edição dos Prémios do Cinema Europeu.

Sonhos telepáticos

“On Body And Soul”, uma das primeiras obras exibidas a concurso, da húngara Ildikó Enyedi, venceu o Urso de Ouro atribuído pelo júri a que Paul Verhoeven presidiu. É um filme delicado, a tender para a tragicomédia, sobre dois seres magoados que, depois de se se conhecerem num território hostil (ele é chefe de pessoal e ela diretora de qualidade de um matadouro de Budapeste), descobrem partilhar todas as noites os mesmos sonhos em que a humanidade é representada pela animalidade.

Os sonhos não deixam de ser estados de angústia que refletem o sofrimento das personagens e o investimento emocional que elas perderam. Uma distinção para o argumento teria sido mais adequada. Além do Urso de Ouro, “On Body and Soul” venceu ainda o Prémio FIPRESCI da crítica internacional e o do Júri Ecuménico. Já o Urso de Prata do Grande Prémio do Júri foi para “Félicité”, do franco-senegalês Alain Gomis, que segue a angústia da personagem do título, uma cantora de Kinshasa desesperada para arranjar dinheiro para salvar o filho.

Kaurismäki e Hong Sang Soo no palmarés

O júri não deixou de fora os dois melhores filmes a concurso: “The Other Side of Hope”, de Aki Kaurismäki (destacado nesta edição da Revista E) e “On The Beach at Night Alone”, de Hong Sang Soo. O primeiro valeu ao cineasta finlandês o Urso de Prata de Melhor Realizador e um momento muito cómico na cerimónia da Potsdamer Platz: perante a aparente falta de vontade de Aki em subir ao palco, foi o diretor do festival, Dieter Kosslick, quem lhe levou o prémio ao lugar em que o cineasta estava sentado. O finlandês correspondeu com a irreverência que lhe é conhecida e usou a estatueta como microfone.

“On The Beach At Night Alone” traz-nos as comoções de uma atriz que pondera o seu futuro depois de se envolver com um homem casado. Valeu a Kim Minhee o Urso de Prata para a melhor interpretação feminina.

O melhor ator foi o vienense Georg Friedrich, que em “Bright Nights”, do alemão Thomas Arslan, interpreta um engenheiro que vai à Noruega fazer o luto do pai que acabou de morrer. Na viagem, o protagonista leva com ele o filho adolescente, com quem tem um relacionamento distante. A história do filme foca-se então na tentativa de aproximação entre eles.

O Prémio Alfred Bauer, que valoriza uma obra que abre novas perspetivas, foi atribuído a “Spoor”, da polaca Agnieszka Holland. Um dos filmes mais discutidos desta Berlinale, o chileno “Una Mujer Fantastica”, de Sebastian Lelio, foi premiado pelo argumento (coassinado por Lelio e Gonzalo Massa). Já “Ana, Mon Amour”, do romeno Calin Peter Netzer, foi distinguido pelo prémio de Melhor Contribuição Artística para a montagem de Dana Bunescu.