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Já foste ao Amadeo?

mário cruz/lusa

O número de visitantes das grandes exposições realizadas em Portugal, nomeadamente as dedicadas aos modernistas portugueses, cresceu significativamente. Já para não falar em Miró em Serralves, que já ultrapassou os 100 mil. Se ainda ninguém sabe como explicar todos os fatores que contribuem para este fenómeno, há quem não hesite em chamar-lhe exatamente “fenómeno”

Nos últimos fins de semana não tem faltado gente que aceita ficar na fila para entrar num museu. No domingo passado, à volta da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, era de cerca de uma hora a espera para entrar na exposição dedicada a Almada Negreiros.

No domingo anterior, com a borla concedida para entrar nos museus, a paciência e o tempo de espera exigidos a muitos visitantes de outras instituições era provavelmente maior. Foi aliás o que aconteceu, por exemplo, na exposição “Amadeo de Souza-Cardoso/Porto Lisboa/2016-1916”, que está no Museu Nacional de Arte Contemporânea, em Lisboa, e que já contara com uma afluência digna de nota quando esteve no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, entre novembro e dezembro de 2016.

Nessa altura, a mostra foi vista por 43 mil visitantes em apenas dois meses. Um número nunca alcançado anteriormente por aquele museu.“O máximo que tínhamos conseguido antes andava à volta dos 12 mil visitantes”, conta Maria João Vasconcelos, diretora da instituição. “Foi perfeitamente excecional no panorama do Museu Soares dos Reis. A exposição excedeu as expectativas. Ao início a ideia era alcançar o número de 30 mil visitantes que a exposição tinha tido em 1916, no Porto, mas a certa altura ultrapassámos esse número.”

MÁRIO CRUZ / LUSA

Maria João Vasconcelos não aponta um factor para o sucesso. Mas vários: “Ainda só podemos contar com o conhecimento empírico, mas poderá ter sido decisivo o facto de termos conseguido mais meios de divulgação, maior atenção mediática, de ser uma exposição histórica, de Amadeo ser um homem do norte e de as pessoas reagirem muito a esse tipo de proximidade, ou da exposição chamar a atenção para a própria cidade... A certa altura criou-se uma dinâmica. As pessoas perguntavam umas as outras ‘já foste ao Amadeo?’. Tivemos muitos novos visitantes, gente que veio de fora para ver a exposição”.

MÁRIO CRUZ / LUSA

Num domingo de entrada gratuita, o número no Museu Soares dos Reis chegou “excecionalmente” aos 2800 visitantes e o ambiente, conta a diretora foi de festa. Até 8 de fevereiro a mesma exposição, agora no Museu Nacional de Arte Contemporânea, em Lisboa, registava 15600 visitantes, sendo que no primeiro domingo do mês, de entrada livre, o número andou pelos 2000. A diretora, Ana Rechena, não consegue apontar uma causa para os números que vá além do interesse dos portugueses pelos modernistas. “Devíamos fazer inquéritos para perceber o que se está a passar.” Sabe, no entanto, que o público da exposição é sobretudo português e que os estrangeiros visitam mais o museu.

Para a Fundação Calouste Gulbenkian, os 7007 visitantes alcançados na primeira semana para a exposição dedicada a José Almada Negreiros só são uma novidade na medida em que essa afluência excecional acontece logo na primeira semana. Noutras exposições, as filas costumam acontecer nas últimas semanas, nos últimos fins de semanas, explica Elisabete Caramelo, responsável pela comunicação daquela instituição. “A Evolução de Darwin”, em 2009, obteve mais de 160 mil visitantes, “Diálogo de Vanguardas”, em 2006, na qual se incluíam obras de Amadeo de Souza-Cardoso, teve em três meses 112 mil visitantes. Para a responsável, os bons resultados da primeira semana podem estar relacionados com o facto de Almada ser um artista tão completo e multifacetado, e muito conhecido, mas também com a “ajuda da imprensa”.

TIAGO MIRANDA

O mediatismo das exposições não é aliás um factor a desconsiderar, assim com a influência das redes sociais, para as quais quase todas as instituições já têm pessoas designadas para as acompanhar e gerir. No caso de Serralves, por exemplo, a polémica que se gerou à volta dos “Mirós” quando as obras ainda não tinham destino poderá ter influenciado de alguma forma a visibilidade que a exposição veio a ter, na medida em que se foram criando expectativas. No entanto, e como lembra Miguel Rangel, responsável pela comunicação de Serralves, os números já eram favoráveis à instituição antes mesmo da exposição inaugurar, resultado de um esforço que tem sido feito no sentido de afirmar Serralves como instituição nacional e internacional, alargando a sua esfera influência e atraindo novos públicos, nomeadamente através da realização de exposições fora de portas.

Não desprezando os 100 mil visitantes obtidos até final de janeiro só com a exposição “Juan Miró: Materialidade e Metamorfose”, o responsável adianta que o ano de 2016 já apresentava bons resultados antes: “Foi um ano muito bom, tivemos 682 mil visitantes, o que corresponde a um crescimento de 30 por cento. A exposição dedicada a Miró é um marco muito importante na nossa programação e um motivo de atração de públicos, mas o crescimento já era de cerca de 30 por cento antes de esta inaugurar”.

RUI DUARTE SILVA

Dos 682 mil visitantes que Serralves teve em 2016, 160 mil foram estrangeiros, sendo que a nacionalidade que ficou à frente de todas foi a francesa, seguida da espanhola. 100 mil visitantes vieram de escolas. O primeiro número corresponde a um crescimento de 40 por cento em relação ao ano anterior e reflete o esforço feito pela instituição junto agentes turísticos. O segundo, um aumento na ordem dos seis por cento e a uma conquista dos serviços educativos.

Mas Serralves também teve uma presença de notar fora de portas. Realizou 14 exposições noutras cidades do país, de Ponta Delgada a Barcelos, e ainda no estrangeiro, como foi o caso de Helena Almeida em Paris e Bruxelas, e que resultaram em 296 mil visitantes a somar aos 682 mil obtidos pela instituição no Porto.

Para 2017 estão previstas 29 novas exposições fora de portas, e ainda há que contabilizar as visitas a Miró, que ficará programada até início de junho. Miguel Rangel diz que a exposição mediática da programação é um factor a levar em conta, mas também o esforço desenvolvido fora de portas. Esta semana, por exemplo, explica o responsável, vão inaugurar uma exposição em Valência e em Berna.

Se estes números podem ser desde já festejados como uma conquista das instituições, a diretora do Museu Soares dos Reis, Maria João Vasconcelos, diz que muito ainda há fazer, nomeadamente no que diz respeito à abordagem do público jovem e universitário: “Há uma tendência muito incipiente para atrair universitários, uma idade estratégica para contribuir para que seja natural ir a museus, até porque a gente mais nova tem muito onde gastar o pouco dinheiro que tem”.