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Paul Auster: “Com Trump, 
o silêncio 
já não é 
uma opção”

FOTO Steve Pyke/Contour by Getty Images

Sete anos após o último romance, chega agora ao livro que sempre quis escrever — 900 páginas sobre uma só vida e os seus possíveis caminhos. “4321” aí está e não se parece com nada. Quem o diz é o próprio escritor

Há três anos e seis meses que Paul Auster começou a escrever “4321” (ed. ASA). Um título que parece uma contagem regressiva mas é a mesma vida sujeita a quatro destinos diferentes. O mesmo rapaz, Ferguson, os mesmos pais, a mesma carga genética, o mesmo rosto, as mesmas mãos. O mesmo imprevisível país. Quatro anos depois de ter lançado duas obras autobiográficas e sete após o seu último romance, este é o livro que, sem o saber, há muito se preparava para escrever. E é monumental, excessivo nas suas quase 900 páginas em letra minimal e frases longas e trabalhadas. Quem nele procura a atmosfera noir de outros tempos ficará desiludido. Porque este é — e assim o próprio Auster o afirma — o chão de um realismo avassalador. Falámos com o escritor ao telefone no dia em que o livro foi lançado à escala mundial. E a conversa percorreu vários recantos, entre os quais a própria América, a da “mistura de horror e esperança” que ele retratou no livro e que hoje se debate com o início do mandato de Donald Trump.

Há cinco anos publicou o “Diário de Inverno” e um ano depois o “Relatório do Interior”, dois livros autobiográficos. E, ao ler este romance, percebe-se que existe uma continuidade. Como se tivessem sido feitos do mesmo material. É assim?
Sim, totalmente. Enquanto estava a escrever aqueles dois livros, não sabia que na verdade estava a preparar o terreno para este romance. Mas penso que toda aquela investigação sobre a infância abriu-me as portas de um território que nunca antes tinha explorado. E acabou por tornar-se tão interessante que me inspirou a escrever este livro.

É como se ainda estivesse a trabalhar sobre a memória? Em “Inventar a Solidão”, escreveu que a memória é o lugar onde tudo acontece pela segunda vez.
E é mesmo, mas este romance não é autobiográfico. E, embora partilhem comigo algumas coisas, os diversos Ferguson não são eu. Temos a mesma geografia e a mesma cronologia. Partilhamos também alguns interesses, como a literatura, o desporto e a música, mas eu não sou a única pessoa que gosta destas coisas.

De onde veio a ideia de escrever “4321”?
Não sei bem. Ao longo de toda a minha vida tenho especulado sobre as perguntas hipotéticas: “E se?” Mas nunca tinha escrito um livro que as abordasse diretamente. E, quando a ideia de escrever sobre os múltiplos caminhos de uma só vida me ocorreu, achei a ideia arrebatadora. Pensei: tenho de fazer isto. E comecei logo.

Quanto tempo levou a escrever as 900 páginas?
Escrevi o livro em três anos e depois demorei seis meses a afiná-lo e a limar pequenas coisas.

No “Caderno Vermelho”, de 1995, falava de alguém que planeia escrever um livro com duas versões da mesma personagem.
Refere-se ao meu amigo poeta. Sim, sim, há muito tempo que penso nestas coisas. Na América, o “Caderno Vermelho” faz parte de um outro “Caderno Vermelho”, que inclui quatro livros baseados em episódios reais. Na segunda, intitulada “Why Write?”, conto a história do que me aconteceu aos 14 anos. Tinha ido para uma colónia de férias, estava a fazer uma caminhada com outros 20 rapazes na floresta e fomos apanhados por uma tempestade enorme. Desatámos a correr à procura de clareiras para fugir dos relâmpagos e, para isso, tivemos de passar em fila por baixo de uma cerca de arame farpado. E o rapaz à minha frente, enquanto estava a atravessá-la, foi atingido por um raio. E morreu. Num segundo, estava morto, a centímetros de distância de mim. Penso que esta foi provavelmente a experiência mais fundamental da minha vida. Esta noção de que tudo pode suceder, em qualquer momento. E esta é a história que me motivou a escrever o livro. Mesmo que não a conte exatamente como aconteceu na vida real, há no livro duas mortes de pessoas jovens. Quem o ler até ao fim vai perceber que este foi o fator motivador na sua composição.

Durante a leitura pensei que estava a tentar dizer-nos o seguinte: que somos o resultado do que nos acontece e também do que não nos acontece. Que ao vivermos uma vida estamos a perder muitas outras.
Concordo plenamente, com um acrescento: somos também o resultado dos nossos genes. Quem somos é algo que não podemos controlar. Nascemos em corpos e em mentes que nos foram dadas. Por isso, penso que o livro explora uma questão, a da relação entre o inato e o adquirido. Neste caso, cada um dos rapazes tem um conjunto diferente de circunstâncias, embora com a mesma origem genética — porque têm os mesmos pais. Mas vivem em cidades distintas, os pais passam por diferentes obstáculos, e numa das versões o pai morre quando o rapaz tem apenas 7 anos. Como é que cada uma destas coisas afeta cada um deles e os transforma em pessoas diferentes?

Na primeira das histórias da “Trilogia de Nova Iorque”, a personagem de Peter Stillman diz que apenas podemos ter dentro de nós um número limitado de palavras. Sete anos depois do seu último romance, parece que afinal tinha muitas palavras para dizer. O que é que este livro representa para si?
Muito trabalho! E penso que, de alguma forma e sem o saber, andei toda a vida a preparar-me para escrever este livro. Sei que tem um sabor diferente dos anteriores, mas em geral o meu trabalho tem sofrido uma constante evolução. Escrevi todo o tipo de livros, aproximando-me do mundo sob diversas perspetivas, e este é um bocado diferente. Podemos dizer que é um ‘romance realista’, mas ao mesmo tempo não o é de todo. Não segue nenhuma das convenções do romance realista tradicional. Deve ter reparado que contém muito pouco diálogo, que é sobretudo narração. Contar e contar e contar. E está escrito de um ponto de vista interior, dentro do coração e da cabeça das personagens.

Há uma palavra que usa no livro e que pode defini-lo: propulsão.
Sim. Tem frases muito longas, algo que tenho explorado cada vez mais nos últimos 10, 12 anos. Uma forma de abertura, de deixar o pensamento mais livre e mais suscetível aos impulsos da improvisação. As frases longas contêm também um certo tipo de energia, uma propulsão que empurra a história para a frente. E isto é muito diferente do que fiz em livros como a “Trilogia de Nova Iorque”, que é tão velho hoje! Foi escrito há tanto tempo que mal me lembro dele. Acabei-o há 33 anos, e desde então passou-se metade da minha vida.

Permita-me perguntar-lhe uma coisa sobre o tamanho do livro. Uma das críticas que li diz que poderia ter evitado as listagens, as enumerações, numa palavra, a necessidade de abarcar tudo. Mas não era também este o objetivo?
Sim, é um livro muito inclusivo. Mas eu tento ignorar o que os críticos dizem. Muitas vezes, eles querem escrever sobre um livro que não existe, sobre o que pensam que deveria ser, em vez de olharem para o próprio livro e tentarem compreendê-lo pelo que é. Todos têm uma opinião e todos leem um livro diferente. Por isso, não me posso envolver ou preocupar demasiado. Ao longo dos anos tem havido pessoas que odeiam o que fiz, que me desprezam e que desprezam o que escrevo. Porque haveria de ouvi-las? Há também aquelas que gostam do que faço, e muitas vezes isso leva os meus detratores a odiarem-me ainda mais. No fim de contas, o que importa é que alguém pegue no livro e desfrute da leitura. Por outro lado, os críticos, em geral, trabalham sob pressão, são mal pagos e não têm tempo suficiente para se aproximarem do que leem. A primeira vaga de respostas a qualquer obra de arte é sempre a mais superficial.

A estrutura do livro lembra aquilo que Umberto Eco me disse numa entrevista: ele queria que os seus livros — em especial “O Nome da Rosa” — criassem um certo tipo de leitor, o leitor que persiste, que é capaz de ler o livro até ao fim. Concorda?
É interessante, mas não sei se concordo. Não quero criar nada. Porque cada leitor está a ler um livro diferente, cada um tem o seu próprio caminho, as suas próprias memórias e uma relação pessoal com a literatura. Algumas pessoas irão estar interessadas e quererão continuar, outras dirão que não têm tempo, energia ou vontade de ler uma história tão longa. Está fora do controlo do escritor. Porque, uma vez que acabamos o livro, ele deixa de nos pertencer. Entra no mundo. Haverá quem o aceite e quem o ignore. E quem o odeie. E não podemos fazer nada acerca disso.

“4321” abarca o período entre 1947 — o ano em que nasceu — e 1971. Acredita que o que somos define-se nos primeiros 20 anos?
São os anos mais importantes das nossas vidas, sim. Se tivesse de resumir o livro numa frase, diria que é sobre o desenvolvimento humano. Sobre o que se passa com as pessoas enquanto estão a crescer, as mudanças imensas que sofrem naqueles anos incrivelmente importantes da infância, da adolescência e da juventude. Originalmente, eu queria levar o livro cronologicamente mais longe. Mas, enquanto escrevia, percebi que devia limitá-lo. Porque senão não teria sido tanto sobre o desenvolvimento ou o crescimento, mas sobre experiências em geral. Teria tido uma outra intenção, um outro tom.

Ia dizer que esta obra escava nos sentimentos fundamentais da adolescência, como ver e sentir algo pela primeira vez.
Exatamente. À medida que crescemos, deixamos de nos lembrar como isso é. Como é experimentar uma comida pela primeira vez, ouvir a primeira peça de música, ler um livro ou ver uma peça de teatro. Nós absorvemos essas coisas muito depressa, todos esses choques que vivemos quando somos muito jovens. Tentei capturar alguns deles no livro.

FOTO Steve Pyke/Contour by Getty Images

Crescer é um processo irreversível. E só temos consciência disso quando já passou.
Um dos rapazes, penso que é o Ferguson 2, descreve longamente as mudanças que o seu corpo está a atravessar. E como isso é misterioso e assustador e estimulante ao mesmo tempo. Ele fala do facto estranho e incontrolável que é um rapaz tornar-se um homem, de não sabermos como vamos ser quando acordarmos de manhã. Todos passamos por isso.

Outro aspeto omnipresente é a possibilidade da morte. A noção de que a vida pode acabar mesmo antes de termos começado a viver. Porque decidiu ‘matar’ dois dos quatro rapazes?
No fim, percebemos que o Ferguson 4 é aquele que está a escrever o livro. E ele quer expressar o horror que sentiu quando viu um amigo morrer à sua frente. Quer reviver isso, para não esquecer. E inventa os outros três Ferguson, que são diferentes versões de si mesmo, e quer amá-los tal como se ama a si próprio. Quando, como escritor, os elimina da história, experimenta uma angústia tremenda — mantendo vivo o que sentiu aos 14 anos.

De algum modo, nas quatro versões da vida de Ferguson, fala-se do que é tornar-se um escritor. Há cinco anos, disse-me que ser escritor é algo “estranho”. Que as pessoas normais não precisam disto, pois a vida e o mundo são suficientes. Ainda pensa assim?
Sim, é totalmente verdade. Ainda sinto isso. É uma vida inusual, adequada a muito poucas pessoas. São poucos os que dizem: “Quero passar os dias sozinho, fechado num quarto.” Por um lado, é um desejo humanamente fundamental, por outro, é uma forma estranha de passar a vida adulta. É quase como ser um atleta profissional. Todos praticamos jogos quando somos crianças e todos gostamos de o fazer. E, em geral, ao crescermos, deixamos de jogar. Nunca mais levamos isso a sério. Mas alguns de nós continuam e até ganham dinheiro com isso. Suponho que o mesmo acontece com a arte. Em crianças, todos gostamos de fotografar e de escrever redações. E, enquanto a maioria desiste, alguns prosseguem pelo resto da vida.

O livro diz que nós mudamos muito, forçando-nos a um constante ato de reconhecimento. Quem é Paul Auster hoje, no que chamou o “inverno” da sua vida?
Gostava de poder dar uma boa resposta. Não sei! Sou um homem que está prestes a fazer 70 anos, o que é desconcertante, estranho e inesperado. Porém, aqui estou eu, ainda a respirar. Nunca imaginei viver até tão tarde, por isso sinto-me feliz por aqui estar. Estou a desfrutar de estar vivo mais do que nunca, porque à medida que o tempo começa a escassear cada dia torna-se mais intenso.

Há cinco anos, disse-me: “O grande drama de todos nós é a família onde nascemos.” Este é também um dos temas do livro — o que somos antes de sermos?
Sim, é certamente sobre a noção de família e sobre como a família em que nascemos molda a nossa vida. Numa das versões, um dos tios de Ferguson faz uma aposta e ganha imenso dinheiro. Noutra, perde tanto dinheiro que se mete em todo o tipo de problemas, que conduzem à morte do pai do rapaz. Eu penso muito nestas coisas, o que teria acontecido se tivesse feito isto em vez daquilo, se tivesse estado naquele lugar em vez de estar neste. Como seria ter nascido num país ocupado por um exército estrangeiro e como isso teria afetado a minha vida. E se eu tivesse nascido em Portugal, em plena ditadura? Tive a sorte de ser poupado a muitos dos horrores que a maioria da Humanidade teve de suportar.

O judaísmo — o ser judeu — percorre o livro do princípio ao fim. A condição de ser um judeu americano de terceira geração. Porquê?
O que está presente — e isto percebe-se logo no início — é um judaísmo não religioso. Os pais de Ferguson não o são, não praticam a religião. São “membros da tribo”, mas não rezam, nem vão à sinagoga, nem seguem os rituais e as tradições. Portanto, são judeus seculares, como tantos outros judeus americanos.

Mas até que ponto o ser judeu faz parte da sua vida?
Eu pertenço a um grupo de pessoas que teve uma história tumultuosa de perseguições nos últimos 200 anos. E somos muito, muito poucos. Nos Estados Unidos há 12 milhões de judeus, numa população de 326 milhões — e este é o país com a maior população judia em todo o mundo. Portanto, somos uma pequena gota no oceano. Para mim, ser judeu significa ter sempre a sensação de ser um outsider.

A certa altura diz mesmo que ser judeu é como ser um estrangeiro — como no episódio em que um amigo de Ferguson lhe pergunta se ele celebra o Dia de Ação de Graças.
Tenho de dizer que um dia me fizeram essa pergunta. Eu era novo e fiquei muito chocado. Não acreditava que pudesse haver pessoas tão ignorantes daquilo que a América realmente é — supostamente, um lugar onde todos podem sentir-se em casa. Claro que celebramos o Dia de Ação de Graças! Mas o importante disto tudo é que, ao mesmo tempo que há muitas figuras proeminentes da sociedade americana que são judias, o antissemitismo continua, é algo que nunca nos deixou. E parece que estamos a entrar numa nova fase. No outro dia ouvi uma história na TV sobre um partido de extrema-direita, ultrafascista, no Midwest, cujo plano era distribuir todos os negros dos Estados Unidos por dois ou três estados e dar-lhes a independência. E depois expulsar todos os judeus. Portanto, há gente a ter ideias destas, hoje, em pleno século XXI.

Teve a intenção de fazer um retrato do seu país num certo período? Em “4321” encontramos a guerra do Vietname, o conflito racial, Columbia, os subúrbios de Nova Iorque e pequenas coisas como o que se comia na altura, a música que se ouvia, os temas que se discutiam...
Sempre me interessou valorizar o contexto, pois é aquilo com que vivemos. Podemos dizer que o livro trata da vida de Ferguson, mas também da vida nos tempos dos diferentes Ferguson. Em especial do primeiro, que é jornalista e é o mais comprometido com a política do seu tempo. É nele que está concentrado o conteúdo político do romance. O segundo não perdura, pois morre muito novo — ainda que em vida seja alguém que presta atenção, como quando, aos 6 anos, ouve falar da execução dos Rosenberg [casal acusado de espionagem a favor da União Soviética]. É um momento enorme na sua vida, em que percebe que existe um mundo lá fora. O terceiro Ferguson não está interessado em política de todo e é o mais atormentado e instável dos quatro. E o quarto, o mais zangado de todos e o que quer tornar-se romancista. Tem um espírito hipercrítico, mas sabe que não se deve envolver e que tem de continuar a fazer o que está a fazer.

No país que descreve, vemos que há problemas que persistem. E que, hoje, esse “misto de horror e esperança” que é a América está a pender para o horror. O que aconteceu para se chegar a este ponto?
Estamos num momento de horror, sem dúvida. E a forma como se chegou até aqui é complexa e remonta justamente ao tempo do meu livro, quando a sociedade começou a fraturar-se. Nos anos 60, a esquerda estava a ficar forte, mas também a direita — e isso é algo que nós na esquerda não tivemos capacidade de ver. A direita foi acumulando poder, muito mais do que a esquerda. Em 64, Goldwater foi nomeado pelos republicanos para concorrer à Presidência, em 68 Nixon foi eleito, e depois tivemos Ronald Reagan — o que foi uma revolução na história dos Estados Unidos. E a esquerda foi ficando cada vez mais fraca. Até que chega George W. Bush, um Presidente horrível que foi um verdadeiro desastre e que fez um dano tremendo ao país. Então, em 2008, nós enquanto sociedade fizemos uma coisa extraordinária, elegendo Barack Obama. Nesse momento senti-me feliz e esperançoso por finalmente termos conseguido passar para a fase seguinte na concretização do que queríamos ser enquanto país. Bom, afinal, estava enganado. Estávamos todos errados. Porque o que a eleição de Obama fez foi enfurecer as pessoas da direita, ao ponto de o bloquearem durante oito anos. Renegaram-no, não lhe ofereceram o respeito dado aos outros presidentes no passado e criaram uma reação tremenda. Essa reação chama-se Donald Trump. Claro que estou a simplificar a história, mas no essencial foi isto: a reação dos brancos a um homem negro na Casa Branca.

Há um par de semanas, deu uma entrevista ao “Guardian” que foi publicada a 20 de janeiro, no dia da tomada de posse de Trump. Disse que esta eleição foi o episódio político mais aterrador a que alguma vez assistiu na sua vida. Passaram-se dez dias, o que tem a dizer agora?
Estamos a viver num país que é um puro caos. São incompetentes e não sabem o que estão a fazer. Andam a criar problemas que não estão preparados para enfrentar. E, para dizer a verdade, não sei onde isto irá parar. A única coisa inspiradora é a enorme oposição que está a movimentar-se. A marcha no dia 21 de janeiro, em Washington, a que a minha mulher Siri e a minha filha se juntaram — e que se viu por toda a parte nos Estados Unidos e até na Europa —, foi algo incrível de observar. Nem nos velhos tempos das marchas contra a guerra do Vietname houve um único dia neste país em que tanta gente saísse para a rua. E agora, com esta ordem presidencial que impede a entrada de pessoas de certos países, houve outra manifestação espontânea. A minha esperança é que esteja a ser criada uma nova geração de ativistas que passem para um outro patamar, além das ações de rua — que concorram para cargos a nível local e se envolvam nas tomadas de decisão. Se isso não acontecer, o país vai ser tomado por maníacos que agora, com o poder que têm, podem fazer mais ou menos o que querem. Não nos enganemos: ainda há um grande número de pessoas que gostam de Trump.

FOTO Rossano B. Maniscalchi/Alinari via Getty Images

Está zangado?
Sim, estou muito zangado. Zangado connosco por termos eleito esta pessoa. Temos regras muito estranhas, em que alguém que ganha pelos votos pode perder as eleições. Trump é um Presidente legítimo segundo as regras deste país, não há qualquer dúvida sobre isto. Com ele, o silêncio já não é uma opção, temos todos de falar.

O que espera da América?
Não sei o que vai acontecer. Ando a seguir as notícias da mesma forma que toda a gente: estupefacto. Olho para Trump e vejo uma grande máquina que produz nevoeiro, e há tanto nevoeiro a sair dali que estamos todos distraídos e é difícil concentrarmo-nos no assunto principal: desmantelar a sociedade americana tal como a conhecemos. Estou num estado de horror, confusão e raiva.

Como é que, na sua opinião, a situação nos Estados Unidos irá afetar o resto do mundo? Na Europa, temos a extrema-direita a ganhar poder, o drama dos refugiados por resolver, só para nomear duas frentes.
Sabe, somos muitos neste planeta e temos de conseguir viver uns com os outros. E não é construindo muros ou expulsando pessoas que o vamos conseguir.

Mas não há um sentimento de dèjá-vu em tudo isto? Estou a pensar na Europa dos anos 30 e 40.
Há, sim. E por isso sempre fui um grande apoiante da União Europeia, mesmo com as suas falhas. Quando se pensa na história da Europa, o que é que ela produziu além de Dante e Shakespeare e Cervantes? Mil anos de guerra, um banho de sangue. Depois da II Guerra Mundial, finalmente compreendeu-se que a Europa já tinha sofrido o suficiente. E por isso tentou repensar-se a sua situação para construir um continente mais pacífico. E funcionou — com a vergonhosa exceção da Jugoslávia. Agora, parece que os europeus estão a voltar para trás.

No seu livro diz: “O que fazer quando o mundo está a arder e nós não temos equipamento para apagar o fogo e as nossas ações não podem mudar nada? Cumprir o plano e escrever o livro.” Qual é o papel da literatura no mundo de hoje?
É interessante olhar para a pergunta do ponto de vista oposto: imagine um mundo onde não há literatura. Em que não há poemas, nem romances, nem histórias. Imagine como seria difícil para nós sequer pensar a realidade. Creio que a literatura é fundamentalmente uma necessidade humana, tal como a comida e a água. Sem ela, não seríamos capazes de pensar quem somos. Claro que não tem um sentido prático — não alimenta ninguém, não salva ninguém de ser atingido por uma bala.

Como na citação que faz de Kenneth Rexroth no seu livro: “Contra a ruína do mundo, só há uma defesa: o ato criativo.”
É verdade. Ontem à noite, aqui em Nova Iorque, depois da sessão de leitura, houve perguntas da assistência. E uma mulher iraniana colocou a mesma questão: “Quando as pessoas estão em total sofrimento, para que serve a literatura?”

E o que é que respondeu?
Que é uma excelente pergunta. De facto, em tempos de guerra e de destruição, não há tempo para a literatura. A pressão por manter-se vivo é demasiado grande. Mas, ao mesmo tempo, parece-me que nesses momentos a poesia é algo que pode ajudar, que as pessoas podem levar para todo o lado. Nos campos de concentração, muitos prisioneiros mantiveram-se vivos recitando poesia uns aos outros. Porque é capaz de dar-nos alguma esperança de que o espírito humano vai sobreviver. E é isso o que a literatura também faz.

Falámos já da morte como uma possibilidade sempre em aberto. Mas, do outro lado, temos a continuidade através dos livros. Aos 70 anos, pensa nisso?
Não sei, veremos. Quem sabe se alguém me irá ler. Mas há uma coisa que lhe garanto: as pessoas estarão a ler. Disso não tenho qualquer dúvida.