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Memórias de uma lutadora

CAUSAS. Harman, ao centro, apoiou a Marcha das Mulheres contra o sexismo de Trump

d.r.

Harriet Harman, veterana do Partido Trabalhista, conta como se constrói um legado político de mais de 30 anos num clima a todos os títulos adverso

Neste início de ano em que a segunda mulher a liderar o Governo do Reino Unido anda pelo mundo a procurar o melhor “Brexit” possível, vale a pena desviar o olhar para a esquerda e conhecer outra política britânica. A deputada trabalhista Harriet Harman acaba de lançar um livro de memórias que é toda uma defesa da igualdade entre homens e mulheres, na política como na vida. Dada a gritante discriminação e o machismo entrincheirado, no nosso país como no dela, o assunto tem toda a pertinência.

Harman (cujas credenciais feministas são tão fortes que havia quem, com ironia, trocasse o seu apelido por Harperson, substituindo man por person) conheceu o sexismo desde tenra idade. Na faculdade, mandou às malvas um tutor que lhe ofereceu boas notas por sexo. No Parlamento, foi acusada de andar a esconder um bebé debaixo da camisa quando, na verdade, estava apenas mais gorda imediatamente após um parto. Não é por acaso que o conservador “The Daily Telegraph”, insuspeito de parcialidade, deu o seguinte título à sua recensão: “Como Harriet Harman enfrentou os cavernícolas de Westminster e venceu”.

O “Financial Times” conta que, embora a deputada nunca tivesse pensado em escrever memórias, a abundância de livros do género escritos por homens espicaçou-a. “Escreviam sobre si mesmos e sobre os outros, mas nunca sobre mulheres”, escreve na introdução uma política que nunca gozou de imprensa simpática.

UM LIVRO DE MEMÓRIAS DIFERENTE

O diário “The Guardian” elogia o tom “coloquial, acessível e capaz de nos abrir os olhos” de “A Woman’s Work”, a obra agora publicada. O jornal, politicamente próximo da autora, assegura que este inclui “muito do que as memórias políticas convencionais deixam de fora”, o que não admira, pois Harman “construiu uma carreira feita de coisas que os políticos convencionais deixam de fora”. Para o “Financial Times”, o oposto também é verdade: este livro não inclui a malícia e as bisbilhotices tão frequentes entre os seus pares.

Não se espere uma análise profunda dos governos de Tony Blair e Gordon Brown ou da ascensão de Jeremy Corbyn, apesar de Harman, que foi vice-líder dos trabalhistas, tenha tido de assumir a condução do partido, interinamente, após as demissões de Brown e de Ed Miliband, épocas em que uma mulher dada à luta teve de pugnar pela reconciliação. O livro contém, diz o jornal “momentos humanos que ficam na mente” e que nos contam “como é a sensação de ser mulher e trabalhar numa das carreiras menos clementes que há e que, quando [Harman] foi eleita, em 1982, era maioritariamente machista”. As mulheres eram, então, 17 em 650 assentos. Hoje são 195, ainda uma minoria.

FIRME. Serena, mas determinada, Harman ganhou o respeito dos seus pares

FIRME. Serena, mas determinada, Harman ganhou o respeito dos seus pares

FOTO UNIVERSIDADE DE SALFORD

Mulher e mãe antes de ser política (e durante, pois foi a primeira candidata grávida a vencer uma eleição), Harman abre o jogo no que toca à difícil conjugação de vida familiar e militância, dos remorsos próprios às cartas insultuosas que recebia. Disfarçava os sentimentos, pois “qualquer sinal de que não estivesse bem desencadearia uma torrente de acusações de que não estava a fazer bem o meu trabalho”. Chegou a deixar um superior no partido presumir que a sua ausência num plenário se devera a um caso extraconjugal, por tal merecer menos censura social do que o verdadeiro motivo: estar com os filhos nas férias escolares. Foram ao cinema, mas não se pense que passou um dia mais calmo do que em Westminster, já que os miúdos tiveram pavor de algumas das cenas do filme.

AGUENTAR O BARCO

Harman lutou por mais e melhores jardins-de-infância, direitos laborais e parentais e igualdade entre sexos, dando atenção ao flagelo da violência doméstica e aos desequilíbrios salariais. Baseou a sua ação política no contacto direto e conhecimento das condições de vida e trabalho das suas semelhantes, mormente se desfavorecidas. É, segundo “The Times”, “desses raros políticos que enfrentaram os poderes fácticos, consistentemente, no Partido Trabalhista e noutros”. Em 1990 exigiu que o Labour tivesse 40% de mulheres na direção. Na última eleição legislativa, em 2015, 43% dos deputados trabalhistas eleitos eram do sexo feminino.

Esteve na linha da frente do Partido Trabalhista durante as guerras entre Blair e Brown. Embora a força política de referência no progressismo britânico nunca tenha tido uma mulher a liderá-lo, foi ela quem aguentou o barco em períodos de “sede vacante”, sem nunca ter concorrido ao cargo máximo. Isso não a impede de ter uma visão crítica da atual condução do Labour por Corbyn, que lhe recorda os anos 80, quando o partido se tornou “uma minoria zangada”.

“A Woman’s Work”, Harriet Harman, Editora: Allen Lane, 416 páginas, £20 (€23)

“A Woman’s Work”, Harriet Harman, Editora: Allen Lane, 416 páginas, £20 (€23)

“The Guardian” chama a atenção para o “manifesto feminista” com que Harman encerra o livro, de tom atual após as Marchas das Mulheres contra o Presidente americano Donald Trump. A lição é: estejamos gratificados pelo progresso conquistado na igualdade entre mulheres e homens, mas nunca agradecidos (é apenas justiça) e exijamos mais. Afinal, “quem não gera discussões não faz diferença”. Por isso mesmo, a irreformável Harman já fez propostas de alteração aos planos da primeira-ministra Theresa May para o “Brexit”.