Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

O Vestido Cor de Rosa

“JACKIE” Natalie Portman no papel de Jacqueline Kennedy

D.R.

Mais de 60 anos passados sobre a morte de John Fitzgerald Kennedy, o cinema direciona o foco sobre a figura de Jacqueline Kennedy. “Jackie” é um filme surpreendente por entre a quantidade de informação que, ano após ano, surge sobre os acontecimentos de 22 de novembro de 1963

Reinaldo Serrano

Pode parecer distante, mas tempos houve em que a América era quase sinónimo de um só país. O que dele hoje se diz e o que sobre a sua liderança se pensa podem até estreitar-lhe o futuro, mas são incapazes de lhe diminuir o passado.

E, no entanto, o passado dos Estados Unidos em matéria de presidentes está repleto de exemplos contraditórios, de escândalos, de controvérsia, de surpresa... e de violência. Neste último capítulo, o assassínio de Abraham Lincoln só é superado, em matéria mediática e por razões óbvias, pelo atentado que vitimou John Fitzgerald Kennedy. Os acontecimentos ocorridos em Dallas no dia 22 de novembro de 1963 são, com insólita frequência, objeto de novas conjeturas, reavaliações, análises, teses, antíteses e sínteses. Mas a longevidade de tal fenómeno comprova, sem margem para dúvidas, o fascínio que o acontecimento em si e a personalidade do jovem presidente ainda despertam na opinião pública – não apenas nos Estados Unidos, mas um pouco por todo o mundo.

A par da imensa literatura sobre o assunto, o cinema e a televisão chamaram a si, em diversos, oportunos e oportunistas momentos, a temática do atentado na Elm Street, em abordagens mais ou menos diretas aos eventos então ocorridos. A mais recente dessas abordagens surge no cinema e com assinatura chilena: “Jackie” é o primeiro filme em língua inglesa do produtor e realizador Pablo Larraín que, também em 2016, dirigiu o muito curioso “Neruda”.

Regressemos a “Jackie” – diminutivo de Jaqueline Kennedy – para sublinhar a justíssima nomeação de Natalie Portman ao Óscar de Melhor Atriz, neste filme que narra as horas e os dias subsequentes ao traumático acontecimento de Dallas. O trauma é, aliás, o foco assumido sem inquietação ou pudor nesta película que procura expor sem subterfúgios a dor e o luto da viúva do carismático presidente.

Sob a forma de uma entrevista, pontuada por diversos flashbacks alusivos ao seu conteúdo, o que nos é dado a ver é a luta interior e exterior de uma mulher em busca de uma força que lhe atenue a dura realidade de se ter tornado vítima... das circunstâncias. Estas ditaram irremediavelmente o recrudescimento de uma luta entre o público e o privado, entre o que o somos e o que devemos ser aos olhos dos outros, quando dos outros somos o objeto de desmesurada atenção.

A pose de Jackie ao longo do filme é reveladora das muitas matizes que constituem a condição humana: será forte ou será frágil, será frágil ou será estoica, deverá ser alguma delas ou todas elas? O notável desempenho da surpreendente Natalie Portman ajuda a responder a estas questões, ao mesmo tempo que coloca outras que caberá ao espetador validar. De todo o modo, o caráter da mulher de um presidente conhecido por não ter sido propriamente um paladino da fidelidade, surge em todo o seu esplendor, mesmo quando este parece não existir.

A este propósito, sublinhe-se a feliz ideia de Pablo Larraín ao recuperar e reconstituir um programa televisivo no qual Jacqueline Kennedy abriu as portas da Casa Branca aos telespectadores norte-americanos, que assim puderam “aproximar-se” tanto quanto possível da intimidade das mais famosos inquilinos do país. As cenas são fundamentais para se perceber sob que alicerces se edificava a personalidade da Primeira-Dama, e para percebermos quão equívoca pode ser uma imagem... pública.

Televisão. Cena da série “The Kennedys”

Televisão. Cena da série “The Kennedys”

d.r.

Mesmo que tenha aqui e ali com alguns desequilíbrios, “Jackie” é um filme curioso, bonificado pelas suas três nomeações à estatueta dourada, e um excelente complemento ao que muito que por aí se faz sobre a construção de um mito que foi JFK, assim como o clã Kennedy. Também por isso, aqui se recomenda o visionamento da série televisiva que fez algum furor em 2011 e que, sob o esclarecedor título “The Kennedys”, tentou recriar o universo da família política mais mediática e não menos trágica dos Estados Unidos.

Para os mais interessados nesta temática, para os curiosos e eventuais adeptos de teorias da conspiração ou, simplesmente, para os que gostam de um bom livro, permito-me sugerir a leitura de “JKF Has Been Shot”, um relato fascinante e detalhado sobre os momentos em que o corpo clínico do Parkland Hospital de Dallas acolheu no seu serviço de urgência a vítima de Elm Street. O relato é feito na primeira pessoa, sendo que essa pessoa é o Dr. Charles Crenshaw, um dos médicos residentes que assistiu o presidente Kennedy. Não será de grande literatura que falamos, mas de uma escrita pragmática, vívida e reveladora dos bastidores de um caso que ainda hoje agita a sociedade norte-americana e fomenta mitos urbanos e verdades absolutas em cada ano que passa.