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Barry Jenkins: “O primeiro amigo branco que tive foi aos 19 anos, 
na Universidade”

Quando encontrámos Barry Jenkins (nasceu em 1979), em setembro do ano passado, no Festival de Toronto, o autor de “Moonlight” era um nome praticamente desconhecido. O seu filme que agora está na corrida aos Óscares fora exibido em estreia mundial poucos dias antes, nos EUA (em Telluride), e encontrava no grande festival canadiano a sua primeira vitrina internacional

FOTO Vera Anderson/WireImage

Na altura ninguém se atreveu a pensar que esta obra, realizada e interpretada por negros, pudesse sequer ser nomeada para um Óscar, quanto mais para oito (!), mas a intensidade e o orgulho do olhar de Jenkins sobre as suas personagens cedo chamou a atenção, correndo pelos bastidores do festival. O que significa ser negro, pobre e gay na América atual? “Moonlight” segue a história de um rapaz dos arrabaldes de Miami interpretada por três atores noutras tantas fases da sua vida: infância, adolescência e maioridade. Pelo meio, há famílias desagregadas, combates de rua, a descoberta da homossexualidade e um reencontro romântico com o passado — tudo filmado à altura dos afetos.

O que é que o atraiu na peça de Tarell Alvin McCraney que “Moonlight” adapta?
Antes de tudo, foi a personagem da mãe do protagonista que Naomie Harris interpreta no filme. Foi uma revelação para mim e tocou-me fundo: eu cresci exatamente da mesma forma, filho de mãe solteira, viciada em cocaína e em crack. Nunca tinha ousado passar essa experiência para um guião. Quando vi a peça, há uns anos, espantei-me como ela falava tanto de mim. Aquela é também a minha história. Não sou gay, e essa é a única diferença para o texto de McCraney.

Cresceu no bairro de Miami que vemos no filme?
Sim, cresci a um quarteirão do apartamento em que começa o filme, num bairro de negros. Estudei numa escola de negros. O filme é muito descritivo da minha própria experiência. Nasci nos EUA e, durante a juventude, praticamente não tive contacto com pessoas brancas. O primeiro amigo branco que tive foi aos 19 anos, na universidade. Era o meu colega de quarto. Isto é um bocado assustador, não acha?

Foi uma decisão sua deixar os brancos de ‘fora’ do filme?
Foi uma escolha realista. Os brancos que estão mais próximos dali... Toda a gente sabe o que fazem: são polícias. Se falarmos de segregação racial, oficialmente, ela não existe na América. Hoje está tudo devidamente legislado sobre este aspeto. No entanto, naquele bairro de Miami só vivem negros. E a alguns quarteirões dali só vivem judeus. E mais à frente só cubanos. Ou seja, estou a falar antes de uma autossegregação que se gerou por fatores económicos e sociais e que mantém tacitamente o seu próprio equilíbrio e regras.

Chiron, o adolescente que está no segundo segmento do filme, está à procura de uma figura paterna?
Sim, torna-se óbvio que lhe falta um pai. A personagem de Juan [Mahershala Ali] pode não ser o exemplo do pai perfeito, mas serve-lhe de substituto. Quando eu tinha a idade de Chiron, o meu ídolo era Martin Luther King.

Não é a primeira vez que vemos no cinema um rapaz negro e gay nos ecrãs, mas essas personagens são muito raras. O que acha disso?
É verdade que certos cineastas independentes discutiram já a homossexualidade nas comunidades negras. Marlon Riggs [1957-1994] foi um deles. Só que esses filmes, infelizmente, não foram vistos. Na TV temos hoje o Omar da série da HBO “The Wire”. Mas é tudo. Se falarmos de cinema mainstream, essas personagens não existem. Um negro que, além disso, é gay não tem lugar.

Quando é que descobriu a sua vocação de cineasta?
Foi na universidade, em Miami. Não tem nenhuma tradição em cinema, mas era a única que eu podia pagar. Sempre fui muito pobre. Era mau aluno no início, tinha a sensação de que os outros sabiam muito bem o que queriam fazer. Na biblioteca da universidade, descobri os filmes de Godard, o “Chungking Express”, de Hong Kar-Wai, ou a obra de Claire Denis, que é a minha cineasta favorita. Descobri que os filmes deles não me excluíam. O Godard marcou-me bastante. Foi graças aos seus filmes que eu disse a mim mesmo que não ia precisar de imitar o Spielberg para ser alguém nesta profissão.

Qual é para si o legado de Obama? Acha que os seus mandatos contribuíram para transformar Hollywood?
Para mim, ele é sobretudo uma inspiração emocional. Quando chegou à Casa Branca, a imagem do país estava de rastos. Lembro-me bem da indescritível alegria e das festas noite fora em São Francisco, onde eu vivia na altura, quando ele foi eleito em 2008. Acho que não é por acaso que estamos agora a testemunhar uma nova geração de cinema feito por negros nos EUA.

Que pensa do debate em torno do “Oscars So White” do ano passado?
Trouxe frutos. Não houve negros nomeados, e isso foi chocante. A controvérsia é também prova de que algo está a mudar a nosso favor. Também eu me perguntava: “Porque é que não me revejo no ecrã? Porque é que a minha história nunca é contada?” Não sei se segue a NFL [Campeonato de Futebol Americano] e a sua história, mas durante muitos anos não havia treinadores negros. Jogadores sim, havia muitíssimos, mas nada de treinadores. Até que houve um momento em que as pessoas disseram a si próprias que as coisas tinham de mudar. E mudaram! Acho que os Óscares têm de seguir o mesmo caminho no futuro. Desde o ano passado, muitos mais negros foram convidados pela Academia para votar na próxima edição. Claro que nada disto pode existir num slogan como o da campanha de Donald Trump: “Let’s make America great again.” Porque essa é a América do passado. É uma América em que nem eu nem o protagonista do meu filme conseguíamos voltar a viver.