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As rosas de Adriana

RECITAL. Adriana Calcanhoto construiu, a partir da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra uma viagem única pela poesia escrita em português F

FOTOS CATARINA HENRIQUES

Adriana Calcanhoto faz do silêncio todo um discurso construído de emoções e sensações raras. As palavras surgem-lhe como se fora uma romagem iniciática. Aí se convocam as raízes maiores de uma língua em construção. A nossa.

O fascínio de começar de novo não está tanto na eterna sensação de em cada instante voltar a amanhecer nas veredas imaginárias de um tempo dominado pelo destino. Ou pela saudade. Ou pelo desejo infinito de navegar sem rumo. Ou pela ânsia de sobreviver ao furacão contido em cada coração desalmado. Começar de novo será desnudar a verdade imensa contida nas palavras nunca ditas. Apenas sussurradas. Apenas imaginadas. Apenas sorvidas com a ânsia dos amantes em desespero. Começar de novo será o mistério nunca resolvido da luz liberta do sufoco contido na negritude de dias vividos.

A palavra liberta. A palavra anula o indizível. Uma só palavra pode rasgar caminhos novos na procura de felicidades nunca imaginadas. Se há muitas palavras, emergem como o caleidoscópio de sentimentos onde se abrigam celerados ditos, apaixonados gritos, abraços interditos. Com a palavra renasce o sentido de estar. O desejo de ser. A vontade de pertencer. A ânsia de enunciar o resto do mundo. Ou o que do mundo resta quando só a palavra nos conforta.

O espetáculo foi apresentado em Lisboa, Coimbra e Porto

O espetáculo foi apresentado em Lisboa, Coimbra e Porto

foto catarina henriques

Adriana Calcanhoto faz do silêncio todo um discurso construído de emoções e sensações raras. As palavras surgem-lhe como se fora uma romagem iniciática. Aí se convocam as raízes maiores de uma língua em construção. A nossa.

Domingo passado, ao entrar no palco da sala principal da Casa da Música, Adriana já lá tinha rosas à sua espera. Era o único sinal de cor num espaço quase despido. Um longo e simples vestido negro cobria-lhe o corpo todo, num luto agarrado desde o primeiro instante. Ia da alma às primeiras palavras ditas. Escritas por Amália Rodrigues, falam de exaspero. (“Tive um coração perdi-o/Ai quem mo dera encontrar”). A voz, às vezes trémula, às vezes intimidada com o pranto contido naquela litania de perda, construía atmosferas ancoradas em trovas antigas.

Concerto final de uma série de três do espetáculo intitulado “Das Rosas”, aquele foi o tempo do reencontro com a canção concebida a partir de textos poéticos autónomos. Pensados tão só como poesia, e não tanto como fragmentos de um todo chamado canção.

Trata-se de um espetáculo único, porventura irrepetível. Pela celebração poética nele contida. Pela magistral viagem através dos séculos, à procura de grandes poemas de grandes poetas da língua portuguesa. De Dom Dinis, a Camões. De Gregório de Matos a Fernando Pessoa. De Fiama Hasse Pais Brandão a Vinicius de Morais. De Chico Buarque a Mário de Sá-Carneiro. De Caetano Veloso a Sueli Costa. De Alberto Caeiro ou Ricardo Reis a Adília Lopes.

Um recital torna-se tanto mais memorável, quanto mais se afasta do expectável, do convencionalismo mecânico e repetitivo. Conquista esse estatuto ao ousar arriscar a diferença. Não a diferença pelo diletante gosto da diferença. Mas a diferença resultante de uma opção ética e estética em nada devedora do acaso.

Arthur Nestrovski (violão) é o insubstituível cúmplice desta aventura

Arthur Nestrovski (violão) é o insubstituível cúmplice desta aventura

foto catarina henriques

Tudo ali está pensado ao detalhe, mesmo os inesperados cruzamentos de canções como “Coimbra” com “Chega de Saudade”, uma forma de colocar no mesmo plano Raul Ferrão e José Galhardo com Tom Jobim e Vinícius de Morais. Ou a apropriação para a língua portuguesa de “It’s all over now baby blue”, de Bob Dylan, transformada em “Negro Amor”, por Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti.

Comove a generosidade nascida do trabalho cúmplice com Arthur Nestrovski (violão), diretor artístico da Orquestra Sinfónica do Estado de S. Paulo. É impossível entender aquele sedutor vaguear pelos símbolos maiores do cancioneiro popular brasileiro sem ter presente o contributo de Nestrovski para contar as histórias escondidas na sombra de cada canção. Histórias de encantar. Histórias fascinantes, narradas por quem as parece ter vivido desde a sua gestação.

O pretexto inicial para este concerto foi o desejo de Adriana de participar nos festejos dos 725 anos da Universidade de Coimbra, cidade onde tem estado a viver nos últimos tempos. A convite da Faculdade de Letras dará ali cinco “master classes” até junho. A primeira começa a 22 deste mês e intitula-se “Eu ando pelo mundo”. No dia 4 de dezembro de 2015 aconteceu o recital na Biblioteca Joanina da Universidade, uma relíquia onde, graças ao precioso contributo de uma colónia de morcegos, se conservam mais de 60 mil livros.

Foram poucas, então, os que puderam assistir àquela celebração oficiada por Calcanhoto e Netrovski. O que poderia ter ficado como um concerto de apresentação única, cresceu, desenvolveu-se, recebeu novas canções, novos poemas e, mais de um ano depois, desaguou em três salas de Lisboa, Coimbra e Porto.

foto catarina henriques

É impossível saber o que vai na alma de Adriana. Nem isso importa. Porém, é tão luminoso aquele rosto enquanto faz amanhecer no palco a imensidão daquele oceano poético, que todas as palavras, todos os gestos, todos os olhares crescem como o tudo e o nada contido na solidão das rosas. Vermelhas. Como as rosas de Adriana.