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“Os heterónimos são o cabelo à Beatles de Fernando Pessoa”

Na primeira manhã do congresso internacional dedicado ao autor de “Mensagem”, a decorrer na Fundação Gulbenkian, discutiu-se o processo da heteronímia e algumas das facetas políticas do poeta

DR

“Os heterónimos de Pessoa surgem sempre com um nome que é grato ao ouvido, nenhum deles se chama Armindo Rodrigues”, disse esta manhã o professor António Feijó, na primeira sessão do congresso internacional dedicado ao mais importante escritor português do século XX, organizado pela Casa Fernando Pessoa. Na Fundação Gulbenkian, até sábado, mais de 42 conferencistas passarão pelo palco do auditório 2 para apresentar, e discutir, comunicações inéditas sobre as mais diversas facetas do autor.

Se a frase de António Feijó provocou alguns sorrisos na sala, completamente cheia desde o início dos trabalhos, as gargalhadas surgiriam uns minutos mais tarde, quando o vice-reitor da Universidade de Lisboa, autor de um ensaio recente sobre a relação de Pessoa com Teixeira de Pascoaes (“Uma Admiração Pastoril pelo Diabo”), se referiu desta forma ao processo, tão estudado, da heteronímia: “Sendo importantíssima, essa questão acaba por centrar demasiado as atenções. Torna-se um embaraço. É como o cabelo dos Beatles. Eles eram criadores excepcionais, a fazer uma música nova, mas nos anos 60 só se falava dos seus cabelos compridos. De certa maneira, os heterónimos são o cabelo à Beatles do Pessoa.”

A seu lado, Richard Zenith, investigador pessoano de créditos firmados, abanava a cabeça, em desacordo. Para ele, a heteronímia é mesmo a questão central de Pessoa, remontando aos primeiros actos de escrita do poeta. “Na infância, ele já escrevia cartas imaginárias entre seres que inventava. Essas figuras faziam parte da sua experiência do mundo, criavam uma espécie de sociabilidade interna.” E quando Feijó reafirma que em sua opinião só existem três heterónimos, “os fortes” (Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis), sendo que os outros heterónimos e semi-heterónimos nascem, retroactivamente, da “força gravítica exercida por estes”, volta a discordar: “Sem o Chevalier de Pas (uma figura imaginária que Pessoa criou com seis anos), não teriam existido os outros heterónimos todos.”

Após uma breve intervenção de 12 minutos para cada um, os dois académicos discutiram o tópico do “eu” em Pessoa, numa conversa estimulante que, sem abdicar do rigor científico, foi sempre muito dinâmica e bem moderada por Pedro Sepúlveda. António Feijó sublinhou a necessidade da heteronímia pessoana enquanto forma de compensar uma “escassez circundante” de pessoas com quem interagir, bem como o “intuito polémico” que fez dos heterónimos agentes de um antagonismo para com outros autores (Pascoaes, no caso de Alberto Caeiro) e por vezes até contra si mesmo.

Richard Zenith lembrou as diferenças na recepção crítica inicial da obra de Pessoa, de um João Gaspar Simões que via os heterónimos como “dispersão consciente”, e a marca de uma “incapacidade” ou limitação criativa, a Rebelo de Bettencourt que, pelo contrário, viu neles uma “sobrecapacidade”. A preparar uma biografia de Pessoa há dez anos, Zenith admite que continua a “tentar compreendê-lo”, apesar de saber que “os génios não se explicam”.

A segunda mesa, moderada por Abel Barros Baptista, abordou o “Pessoa político”. Manuela Parreira da Silva explorou a relação do poeta com a I Guerra Mundial, nomeadamente através dos textos que atribuiu ao semi-heterónimo António Mora. Enquanto este assumia uma posição assumidamente germanófila (iniciou uma “Dissertação a favor da Alemanha”, que não viria a concluir), o ortónimo assumiu uma posição diferente, nomeadamente em “O Templo de Jano”, vendo a guerra como conflito de culturas. Tal como noutras instâncias, também aqui Pessoa entra em polémica consigo mesmo, através de Mora.

Numa abordagem com certo grau de ousadia teórica, Madalena Lobo Antunes, que está a terminar o doutoramento na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, procurou fazer uma leitura de “O Livro do Desassossego”, de Bernardo Soares, à luz de Karl Marx, partindo do facto de o ajudante de guarda-livros da Rua dos Douradores ter consciência da centralidade do trabalho na sua vida (e no livro que a reflecte) e da sua “condição de alienado”.

Por fim, Anna Klobucka, professora na Universidade de Massachusetts Dartmouth, revisitou uma das mais importantes polémicas do Modernismo português, a da chamada “Literatura de Sodoma”, no seguimento da publicação de dois livros, em 1922 e 1923: as “Canções”, de António Botto, e “Sodoma Divinizada”, de Raul Leal. Depois de abordar as reacções e provocações de Pessoa no âmbito da controvérsia, a académica polaca terminou com uma pergunta: “Poderemos ver hoje os sobressaltos em torno da ‘Literatura de Sodoma’ como uma espécie de Stonewall português?” (a rebelião de Stonewall, em 1969, no seguimento de uma invasão policial a um bar de Greenwich Village, em Nova Iorque, foi um episódio central na luta pelos direitos da comunidade LGBT nos EUA).

O congresso prossegue na sexta-feira, com mais cinco sessões: “Contemporâneos de Pessoa”, às 10h00, um diálogo entre Gustavo Rubim e Helder Macedo; “Pessoa nos Outros”, às 11h30, com Paulo Borges, Dalila Milheiro e Sérgio Lima; “Pessoa e Arquivo”, às 14h15, juntando Manuel Portela, Rita Catania Marrone e Pedro Sepúlveda; “Pessoa Classicista”, com Antonio Cardiello, Jorge Uribe e Nuno Amado; concluindo-se o dia com uma entrevista ao filósofo José Gil, conduzida por Antonio Cardiello, sobre “Os Espaços Interiores de Fernando Pessoa”, às 17h15.