Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Livro com retrato de uma Síria que já não existe é apresentado em Lisboa

Palmira antes da guerra na Síria ter destruído grande parte das ruínas reconhecidas pela UNESCO como Património da Humanidade

AFP / Getty Images

“Síria – do Mediterrâneo ao Eufrates” vai ser apresentado esta quarta-feira, no Museu Nacional de Arqueologia, numa cerimónia com a presença confirmada do antigo Presidente Jorge Sampaio. Os autores da obra prescindiram dos direitos de autor, doando-os à Plataforma Global de Apoio a Estudantes Sírios

O livro “Síria - do Mediterrâneo ao Eufrates” mostra uma Síria rica em arquitetura e arqueologia captada por portugueses em 2004, sete anos antes de uma guerra que acabaria por destruir muito desse património histórico.

“Espero que este livro seja um testemunho para o futuro e até para alguma reconstrução que haja”, diz à agência Lusa Helena Delgado, a coordenadora do livro sobre uma viagem “irrepetível” a uma Síria que não existe mais.

“Síria – do Mediterrâneo ao Eufrates” é uma compilação de histórias, fotografias e desenhos em que cada um dos autores – Helena Delgado, Luís Manuel de Araújo, Nair Alexandra, Joaquina Carita e Natércia Magalhães – “escolheu uma localidade ou um sítio”.

“O professor Luís Manuel de Araújo, egiptólogo, escreveu um texto sobre Ugarit – onde nasceu a escrita – e eu fiz um texto sobre o sítio arqueológico de Mari [atual Tell Hariri, a cerca de 10 quilómetros de Abu Kamal, nas margens do Eufrates]”, diz Helena Delgado.

“[Mari] hoje está transformada num queijo suíço [devido aos impactos de bala]”, lamenta a autora. “Não entendo como foi possível o que se tem passado” na Síria, onde desde 2011 o regime do Presidente Bashar al Assad (apoiado pela Rússia) trava uma guerra contra vários grupos rebeldes e terroristas do grupo jihadista Estado Islâmico.

A viagem foi organizada pelo Grupo dos Amigos do Museu Nacional de Arqueologia, em 2004, e levou até à Síria cerca de 50 portugueses. “Era uma altura em que a Síria estava em paz: os sinos das igrejas tocavam, os 'muezzin' (almuadem) chamavam para a oração. Ou seja todas as religiões eram aceites em Damasco e na Síria. Lidamos com gentes muito amigáveis, numa terra fantástica”, recordou Helena Delgado.

Ao longo de cerca de duas semanas, o grupo visitou Damasco, Alepo, Palmira, Amrit e Ugarit, entre outros locais, recolhendo “milhares de fotografias”. “Fizemos milhares de fotografias, que depois foram compiladas pela Mestre Joaquina Carita. Só para o minarete de Alepo existiam várias fotografias e eu escolhi uma delas para inserir no texto. Como sabe, esse minarete hoje já não existe. (...) Também em Palmira também já não existe muita coisa”, realçou Helena Delgado.

Os autores do livro prescindiram dos direitos de autor, doando-os à Plataforma Global de Apoio a Estudantes Sírios. “As verbas que conseguirmos serão para estudantes sírios em Portugal da Universidade Nova”, especificou a coordenadora do livro.