Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Júlio Pomar recupera frescos do Cinema Batalha

Rui Moreira confirmou na noite desta segunda-feira informação avançada há duas semanas pelo Expresso sobre a disponibilidade do pintor para recuperar painéis mandados tapar pela censura salazarista em 1946

Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, revelou na noite desta segunda-feira, durante uma sessão da Assembleia Municipal, ter recebido uma carta do pintor Júlio Pomar a confirmar a disponibilidade para recuperar os murais mandados tapar pela censura salazarista. Pomar respondia assim a um convite feito pela autarquia, de modo a reparar uma injustiça histórica.

A possibilidade de ocorrer esta junção de vontades para fazer regressar à luz os dois frescos de Júlio Pomar censurados nos anos de 1940, fora levantada numa crónica publicada no Expresso Diário de 26 de janeiro, intitulada “Esta noite sonhei com Pomar”. Aí, e porque não havia ainda qualquer informação oficial, ou mesmo oficiosa, deixava-se já no ar a eventualidade de, face à proposta da Câmara do Porto de assumir a gestão do cinema, ser esta a oportunidade para convidar o pintor de 91 anos a recuperar aqueles trabalhos.

O cinema Batalha

O cinema Batalha

Rui Duarte Silva

A informação era introduzida a pretexto de um sonho imaginário que teria conduzido ao desenlace agora anunciado. Conforme então se escrevia, “dá-se o caso que, como foi já noticiado, a Câmara Municipal do Porto conseguiu por fim estabelecer um contrato de aluguer de até agora abandonado cinema Batalha, para o devolver à atividade, pelo menos nos próximos 25 anos, mediante o pagamento aos proprietários de uma renda de 10 mil euros mensais. Para isso, vai proceder a obras de requalificação do edifício, a cargo do arquiteto Alexandre Alves Costa. Ora, de regresso à tal suposição de sonho, imaginário ou não, parece ser esta uma oportunidade única para resgatar a memória perdida do cinema Batalha, devido a um brutal ataque da polícia política do salazarismo”.

Já na parte final da crónica acrescentava-se: “A censura salazarista mandou tapar os murais concebidos por Júlio Pomar para o cinema Batalha. Agora que a Câmara do Porto recupera o edifício, estão criadas todas as condições para que os frescos de Pomar fiquem de novo à vista de todos”

Rui Moreira comunicou o acordo durante a discussão da proposta que permitirá à autarquia alugar e dirigir o cinema situado na baixa da cidade durante 25 anos, mediante o pagamento aos proprietários de 10 mil euros mensais. Moreira referiu que o edifício manterá, após a reabilitação, a sala principal para exibição de filmes, embora sem o segundo balcão (hipótese em cima da mesa), um estúdio e dois espaços para exposições e atividades experimentais ou conferências. A proposta foi aprovada por unanimidade.

Saga iniciada em 1944

A saga dos murais começa em 1944. Quando o arquiteto Artur Andrade projeta um novo cinema para a Praça da Batalha, resolve convidar um jovem de apenas 20 anos para pintar dois frescos.

Trata-se de Júlio Pomar, então a frequentar a Escola de Belas Artes do Porto por ter perdido todas as esperanças de fazer bom trabalho na Escola de Belas Artes de Lisboa. Pinta um mural principal com mais de 100 metros quadrados. Concretiza-o com recurso a andaimes e novas técnicas de pintura.

Inicia os trabalhos dos murais em 1946. O maior, com perto de 100 metros quadrados, ocupava uma parte relevante do foyer principal do edifício e o mais pequeno fora pintado numa parede junto ao balcão do cinema. Na data escolhida para a inauguração do Batalha, 3 de junho de 1947, os murais não estavam concluídos. O pintor, com outros elementos do Movimento de Unidade Democrática, fora preso em abril por ordem da PIDE, a polícia política do regime de Oliveira Salazar. Apenas em outubro daquele ano, Pomar, de novo em liberdade, consegue rematar o trabalho.

A história não acaba aqui. Os zelosos polícias defensores da moral e dos bons costumes viram naquelas pinturas alusivas às festas do S. João um perigoso ato subversivo. Algumas figuras sugeriam e os murais foram afastados dos olhares dos portuenses.

Numa entrevista em tempos dada ao “Jornal de Notícias”, o arquiteto Artur Andrade recordava que até as letras dos puxadores das portas mereceram censura. O então presidente da Câmara entendia que as letras C e B “não pretendiam significar Cinema Batalha. Para ele, bem podiam ser abreviaturas de Comité Bolchevista. Estes pides da inte­ligência, homens que se consideravam intelectuais, que se diziam ao serviço da Arte e da Ciência, eram somente os servidores de uma política contra a liberdade criadora. O que se passou com o Cinema Batalha foi uma autêntica violência, típica do regime fascista”.

Júlio Pomar chegou a receber uma carta através da qual o informam que os conteúdos representados “tecem uma crítica social”. Em junho de 1948 eram mandados tapar pela censura salazarista e assim se perdia, pode dizer-se para sempre, o contacto direto com a criação singular de um artista em construção.