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Filme sobre a geração portuguesa que não soube reagir à crise apresentado em Berlim

Mário Cruz/Lusa

“É a geração em Portugal que era criança no 25 de abri” e que “sentia que o seu futuro estava garantido”, afirma Teresa Villaverde sobre as personagens centrais de “Colo”, o seu novo filme que será apresentado no Festival de Cinema de Berlim

Mais de duas décadas depois, a realizadora Teresa Villaverde volta ao Festival de Cinema de Berlim, desta vez com “Colo”, filme sobre uma geração que não soube reagir à crise, como contou à agência Lusa.

O festival começa na quinta-feira, mas “Colo” fará a estreia mundial no dia 15, integrado na competição oficial. É um regresso de Teresa Villaverde a um festival onde, em 1991, apresentou a longa-metragem de estreia, "A Idade Maior".

Hoje com 50 anos e mais de 10 filmes, Teresa Villaverde mostra uma ficção que se centra numa família de classe média a desmoronar-se: Uma filha adolescente, um pai desempregado e uma mãe que se divide por vários empregos.

“Apesar de este filme não ser sobre a situação portuguesa, inclui também isso e tudo o que eu senti que se passou nestes últimos anos”, contou a realizadora.
No filme está representada uma geração - a da própria realizadora - “que não estava preparada para que lhe acontecesse uma coisa deste tamanho; é a geração em Portugal que era criança no 25 de abril, foi sempre tudo melhorando e sentia que o seu futuro estava garantido”.

Protagonizado por Beatriz Batarda e João Pedro Vaz, “Colo” é um filme com pouca esperança, sobre “sociedades exaustas” e sobre “a ideia do direito à felicidade, uma coisa de que praticamente já nem se fala”, disse.

São personagens desamparadas, vítimas de um problema de comunicação: “Estão nitidamente perdidos, sem colo e sem saber sequer onde é que hão de procurar esse colo e resolver as coisas. E eu, que estou a olhar para eles, também não sei o que lhes hei de dizer. O filme é muito isso”, descreveu a realizadora.

Teresa Villaverde volta ainda a mergulhar na adolescência, numa linha narrativa paralela, a partir da relação da filha adolescente com os amigos.

“Interessa-me saber o que acontece à relação entre os pais e os filhos quando de repente os filhos adolescentes olham para os pais... uns passaram a ver os pais como falhados, que não cumprem a sua função, outros começaram a ver os pais deprimidos e começaram a ser pais dos seus pais”, sublinhou.

O filme apresenta os jovens atores não profissionais Alice Albergaria Borges, Tomás Gomes e Clara Jost: “Fiz um casting aberto, mas aquele grupo daqueles três adolescentes são amigos na realidade e isso facilitou-me muitíssimo o trabalho. Fui buscar muitas coisas a eles”.

Clara Jost, filha de Teresa Villaverde, estuda realização, mas tem presença em Berlim como atriz em dois filmes, ambos em competição, em “Colo” e em “Coup de Grâce”, de Salomé Lamas.

“Colo”, ainda sem estreia comercial prevista para Portugal, é o segundo filme em que Teresa Villaverde assume o papel de produtora de si mesma. Enquanto estreia este em Berlim está já a trabalhar na investigação e escrita do próximo, também de ficção.

Nascida em Lisboa em 1966, trabalhou com João César Monteiro, José Álvaro Morais e João Canijo antes de se estrear como realizadora nos anos 1990.

É da mesma geração de realizadores como Pedro Costa e João Pedro Rodrigues, que também tem feito um percurso premiado e reconhecido por festivais internacionais.

“Três irmãos” (1994) teve estreia mundial em Veneza, “Os Mutantes” (1998) e “Transe” (2006) estrearam-se em Cannes, por exemplo.

Sobre “Colo”, Teresa Villaverde não quer pensar se há ou não hipótese de ser premiado. Só o facto de “estar em competição em Berlim é mesmo extraordinário”.