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Voz de veludo

Depois de várias colaborações de luxo, remisturas para os xx e dois EP em nome próprio, Sampha estreia-se em grande com um álbum

Sampha tem concerto marcado para o dia 10 de junho no NOS Primavera Sound, no Porto

Sampha tem concerto marcado para o dia 10 de junho no NOS Primavera Sound, no Porto

Jamie-James Medina

O caminho percorrido por Sampha entre a primeira vez que escutámos a sua voz, em 2011, e a edição deste “Process” (a estreia nos álbuns), foi longo e, calculamos, atribulado. A cada colaboração, a cada canção sua que foi mostrando ao mundo, a expectativa ia aumentando. Como se sabe, elevar demasiado a fasquia pode levar a desilusões. Não é, de todo, o caso. Chegámos a temer o pior, pois nem ‘Blood on Me’ nem ‘Timmy’s Prayer’, os dois singles que, no ano passado, anteciparam este longa-duração, nos entusiasmaram particularmente. Agora, devidamente contextualizados, conseguimos ouvi-los de outra forma e entendemos que eram peças de um puzzle ainda em construção. O processo deste “Process”, passamos o pleonasmo, pode ter sido demorado, mas a obra final é, no mínimo, recompensadora.

Recuemos seis anos até ao momento em que o enigmático artista eletrónico SBTRKT divulgou o álbum homónimo de estreia: Little Dragon e Jessie Ware podem até ter roubado as atenções, mas era a voz de Sampha que mais alto se ouvia, com ‘Hold On’ e ‘Trials of the Past’ a revelarem-se as verdadeiras pedras de toque do disco. Contrariamente ao que aconteceu com Ware, que pouco depois, em 2012, seria aclamada com a estreia em nome próprio, “Devotion”, Sampha manteve-se relativamente discreto. No verão de 2013 o EP “Dual” seria recebido com relativo entusiasmo, mas foi uma série de colaborações com nomes de primeira linha que nos deixou com a certeza de que, eventualmente, o mundo ia abrir os olhos (e ouvidos) para a voz de veludo do cantor do sul de Londres. Primeiro foi Drake quem resgatou o seu single ‘Too Much’ para “Nothing Was the Same” (na edição especial do álbum, Sampha também canta em ‘The Motion’); depois, a compatriota Katy B convidou-o para o dueto ‘Play’, incluído em “Little Red” (2014); já no ano passado, emprestou a voz a ‘Saint Pablo’, canção que encerra “The Life of Pablo” de Kanye West, cantou ‘Alabama’ em dueto com Frank Ocean no vídeo-álbum “Endless” e destacou-se no dueto ‘Don’t Touch My Hair’ com Solange, um dos singles de apresentação do álbum desta, “A Seat at the Table”.

A história traz-nos, então, até ‘(No One Knows Me) Like the Piano’, a belíssima balada que serviu de cartão de visita a “Process”. Nenhuma outra canção conseguira, até ao momento, mostrar as reais potencialidades de Sampha. A sensibilidade do piano, o tom confessional, a emoção ao cantar sobre a mãe (falecida em 2015, vítima de cancro) e a simplicidade dos arranjos colocam a sua voz exatamente onde deve estar: no centro. É em redor das suas idiossincrasias, dos seus detalhes, que giram as canções do álbum. E não há forma mais prazerosa de conhecer aquilo que ela ainda tinha escondido do que ouvindo com atenção canções do calibre de ‘Plastic 100ºC’ (a sensualidade sufocante dos Massive Attack a servir de estrela do norte), ‘Reverse Faults’ e ‘Incomplete Kisses’ (o eterno namoro com as eletrónicas a marcar presença) ou, em especial, ‘Kora Sings’, homenagem de génio ao instrumento originário da África Ocidental — o cantor tem ascendência serra-leonesa.

Entre as dez canções de “Process” (não há espaço para ‘gorduras’ aqui), encontram-se ainda, além do já mencionado ‘(No One Knows Me) Like the Piano’, momentos arrepiantemente introspetivos: ‘Take Me Inside’, de novo guiado pelas teclas do piano, e o sublime ‘What Shouldn’t I Be?’, que encerra o disco com chave de ouro, ajudam a mostrar um puzzle de muitas cores que traz todas as peças no sítio certo.