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Sentir a arte com a alma num “Abraço Jovem” ao mestre José Rodrigues

Exposição coletiva em homenagem ao escultor José Rodrigues une 500 jovens num abraço simbólico ao artista.

A criação artística é composta por diálogos e abraços multidisciplinares, e, não raras vezes, torna-se capaz de atravessar e unir gerações. O escultor José Rodrigues, falecido a 10 de setembro de 2016, aos 79 anos, simbolizava isso mesmo. Um homem de afetos. Capaz de ensinar, mesmo sem precisar de dizer nada, e sempre pronto para incentivar os mais novos a esculpirem os sonhos. É aí, precisamente, que a essência da exposição coletiva “Abraço Jovem – Homenagem ao Mestre”, com entrada gratuita e patente até 18 de fevereiro, na Fundação José Rodrigues, no Porto.

A mostra, inaugurada este sábado, apresenta uma seleção de trabalhos que uniu sensivelmente 500 alunos de diferentes idades e alguns deles com necessidades especiais. Ninguém fica de fora nesta homenagem a um artista inclusivo e sociável, que recusava fechar-se numa torre de marfim. Um homem sempre acessível. De portas abertas para mundo e para os outros. Para o mundo dos outros.

O desafio lançado em novembro a sete escolas do Porto, Vila Nova de Gaia e Carregal do Sal materializa-se neste “abraço” simbólico a um dos artistas que integrou o famoso grupo “Os Quatro Vintes”, formado no Porto, em 1968, por José Rodrigues, Armando Alves, Ângelo de Sousa e Jorge Pinheiro.

Os estabelecimentos de ensino que aceitaram o desafio para se juntarem ao “Abraço Jovem” foram a Escola Secundária Soares dos Reis, a Escola Secundária António Sérgio, a Escola Secundária Inês de Castro, a Escola Básica de D. Pedro I, a Escola Básica da Granja, o Instituto das Artes e da Imagem e ainda a Escola Secundária de Carregal do Sal.

O Expresso esteve à conversa com Ágata Rodrigues, presidente da fundação e filha do artista, acompanhada pela pintora Luísa Prior, mentora da iniciativa e que acompanhou “in loco” o processo criativo dos alunos em sala de aula.

“Os alunos eram livres de escolher os materiais com que queriam trabalhar. Porque José Rodrigues era um homem que aproveitava as coisas mais simples, como pregos, pedaços de madeira, fio ou papel de prata. Ele achava que tudo era possível de converter e foi essa ideia que se tentou transportar para esta exposição”, explica a filha do mestre.

Uma identidade artística perfeitamente espelhada neste “Abraço Jovem – Homenagem ao Mestre”, em que os alunos apresentam criações muito diversificadas e desafiantes. Desde o retrato até trabalhos mais abstratos e expressionistas, e recorrendo aos materiais e suportes mais inesperados – como alfinetes, por exemplo – muito há para ver na exposição coletiva.

“O meu pai, se estivesse aqui, ia certamente tirar bastantes ideias”

A fonte de inspiração foi sempre a vida e obra de José Rodrigues, com um vasto e rico legado de arte pública, com a qual muitos destes jovens já se terão cruzado, mas sobre a

qual pouco conheceriam. Os alunos recorreram a fotografias e trabalho de pesquisa, efetuaram visitas a algumas das grandes obras de arte do artista – espalhadas por várias cidades do país – e contactaram diretamente com algumas das criações em barro, gesso e bronze de José Rodrigues em visitas às galerias da fundação.

“O interessante deste projeto é, precisamente, a forma como os jovens abraçaram a ideia com talento, com muito trabalho, força e iniciativa”, acrescenta Luísa Prior, que se tornou amiga do mestre em 1989. “Conseguia distribuir afetos por todos aqueles que o rodeavam. Todas as pessoas que se aproximassem do mestre, levavam sempre algo de positivo com elas”, conta a artista plástica, enquanto recorda as tertúlias que se delongavam na cafetaria da fundação.

“Era uma pessoa apaixonante e sempre muito motivadora. Queria que as pessoas sentissem a arte com a alma”, corrobora Ágata Rodrigues, para quem esta iniciativa excedeu todas as expectativas. “O meu pai, se estivesse aqui e visse estes trabalhos, ia certamente tirar bastantes ideias”, assegura, entre risos, a filha do artista.

Na opinião de Luísa Prior, este “é um abraço que será eterno”, mas com tanto talento emergente já se pensa em futuras edições. A qualidade dos trabalhos expostos é indubitável e no ar fica somente uma incerteza. “Quem sabe se não teremos aqui os futuros ‘quatro vintes’?... Oxalá!”, diz-nos, radiante, a presidente de Fundação José Rodrigues.