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Gérard Depardieu: “Não sei sequer se sou um ator”

foto Serge Cohen/Cosmos/Contacto

A propósito da estreia do filme “O Divã de Estaline”, realizado por Fanny Ardant e protagonizado pelo ator francês, uma conversa sobre a vida, o cinema, a História e a religião. Retrato de um homem de génio forte

Alexandra Carita

Alexandra Carita

enviada a Paris

Jornalista

Gérard Xavier Marcel Depardieu nasceu em Châteauroux, em França, a 27 de dezembro de 1948, no seio de uma família de origens humildes. Rebelde, fugiu da escola, fez contrabando na rua, participou em rixas, foi mestre em pequenos delitos, o diabo a quatro. Quando chegou a Paris, “Châteauroux não era para mim”, deslumbrou-se com o teatro, mas teve de aprender a falar até para poder subir a um palco. Autodidata perseverante, fez de tudo. “Les Valseuses — As Bailarinas”, em 1974, elevou-o ao estatuto de estrela, mas nunca mais deixou de subir degraus, falhando apenas o Óscar de melhor ator por “Cyrano de Bergerac”, em 1990. Nessa altura, já era considerado o monstro sagrado do cinema francês. Intocável, apesar de todos os seus excessos e provocações (álcool, comida, motos, divórcios, exílios fiscais, nacionalidades), fez um percurso de luxo ao sabor do “acaso”. Truffaut, Pialat, Resnais, Rivette, foram alguns dos mestres que o dirigiram numa carreira com 200 filmes contabilizados. Em 2014, lançou a sua biografia a contar tudo para evitar que lhe colocassem mais perguntas sobre a vida que levou, mulheres e filhos incluídos. Hoje, recebe-nos em sua casa, no melhor e mais caro bairro de Paris, rodeado pelos seus livros de história, de religião e de teatro, aquilo que realmente lhe interessa e aquilo de que gosta de falar. Conversámos num ritmo ziguezagueante imposto pelo seu génio, pela sua memória e pelos seus cigarros Gitanes. Estaline e a Rússia no topo do diálogo quando estreia “O Divã de Estaline”, um filme de Fanny Ardant rodado em Portugal.

“Não aprendi, vivi.” A frase é sua, 
o que quer dizer com ela?
Que não fui à escola para aprender os textos clássicos. Marivaux, Molière, Corneille, todos os grandes autores foram vividos por mim porque os representei. Não procurei conhecê-los com a ajuda de livros e dicionários, onde as peças figuram, consideradas como as maiores dramaturgias e vistas através da génese da sua construção. Para aprender Shakespeare, por exemplo, há um livro escrito por um professor universitário francês que conta a sua verdadeira história, explica como as peças foram escritas, e terminadas três, quatro anos depois da sua morte, porque antes eram praticamente improvisações. Com Molière passou-se a mesma coisa, com Racine também, Racine que escrevia com 200 palavras da língua francesa. A grande “Bérénice” foi escrita assim. Claro que acabei por folhear estes livros, no entanto não foi assim que aprendi nada. Quando era jovem, tinha o dom de não querer ser encarcerado num liceu. Mas vivi as peças e assim, sim, aprendi não apenas a respirar, como também a história e a essência das personagens.

Também aprendeu a falar 
quando chegou a Paris e começou a representar. Aos doze anos tinha perdido a voz... Porquê?
Tinha uma hiperemotividade patológica, não sei precisamente o que era. Tudo se bloqueava, ou seja, ouvia imenso mas bloqueava a emissão de som, podia ouvir tudo mas não conseguia falar.

Chamam-lhe o ator insaciável, insaciável pela quantidade de filmes que já fez, pelas peças de teatro 
em que entrou...
Tudo isso é verdade, mas o problema é que não sei sequer se sou um ator.

O passado. Gérad Depardieu não lamenta nada na vida que levou, mesmo sabendo o que negligenciou. Como nada se pode emendar, restam-lhe os exames de consciência

O passado. Gérad Depardieu não lamenta nada na vida que levou, mesmo sabendo o que negligenciou. Como nada se pode emendar, restam-lhe os exames de consciência

foto Patrick Aventurier/Getty Images

É por isso que diz que é “ator 
por acaso”?
Sim, sim. Não me interessa a representação ou o problema do ator. Sempre trabalhei o ser e é disso que gosto. Gosto do ser que existe em cada personagem. Mas não ganho nada com isso, ganho a substância e a alegria com a qual trabalho.

E gosta pelo menos dos filmes 
que escolhe interpretar?
Não escolho os filmes. Há sempre alguém que me diz para ler este ou aquele guião, amigos que me indicam outros. Mas não escolho. Não sou a Isabelle Huppert. Fiz com ela “Les Valseuses” e correu tudo muito bem, no fim veio dizer-me obrigado por tudo, mas nunca refez esse obrigado por tudo. Nunca. É assim...

E que cinema prefere?
Não corro atrás das imagens. Hoje em dia temos tudo o que queremos numa série de televisão. Já não há aquela magia, enfim, há alguma, mas distanciei-me dela, o que não significa que seja mau. Gosto mais de livros do que de imagens. A imagem limita. Mas a magia do cinema está naquele momento em que, de repente, mesmo sem esperamos, nasce uma emoção. É um pouco como na música, quando ela para e depois recomeça. É esse tempo anterior ao som, seja ele qual for, que na música é emocionante e perturbador. No cinema é mais difícil que isso aconteça, mas pode transparecer. E então agora com os grandes planos, ainda pior. Nascemos numa época em que só se fazem selfies, procuramos a nossa própria imagem.

Mas não procurou a sua imagem para interpretar Estaline?
Já tinha lido quase tudo o que está escrito sobre Estaline. Mas não são livros muito interessantes, são livros de jornalistas e de historiadores. São livros que valem pelo que contam, a queda de Estaline, por exemplo, em 1953, ou a sua morte no mesmo ano. Estaline passou doze horas com uma hemorragia cerebral e podia ter sido salvo. Ninguém o ajudou. Lavrentiy Beria deixou-o morrer. Esse é o problema dos ditadores e dos autocratas. Faz-me rir quando a imprensa e as pessoas dizem que Putin é um autocrata. Não é nada disso, não tem nada que ver com isso. Ou que Donald Trump também é. Estaline salvou a Europa do nazismo, não foram os americanos, eles participaram, claro, mas foram Estaline e Churchill que o fizeram.

E hoje quem vai salvar a Europa?
A única ameaça que existe sobre este velho continente é o islamismo, mesmo que agora toda a gente tenha medo de Trump. O islamismo que nem sequer fala árabe e que nunca leu o Corão é a verdadeira ameaça. Quando o profeta Maomé nasceu, em 570 d.C., também havia querelas, mas quando escreveu o Corão, em 610 d.C., fez aparecer os islamitas, os xiitas, os sunitas e todos os “itas” que se lhe seguiram. De resto, exatamente o mesmo que aconteceu com o cristianismo. Além dos cristãos, surgiram os protestantes, os coptas, os ortodoxos... E digo mais, creio que os cristãos foram um pouco como os islamitas de hoje quando queimavam os infiéis, quando forçavam os judeus a converter-se.

São comportamentos semelhantes...
É a mesma coisa. Estes islamitas são jovens que se comprometem com uma missão violenta porque a sociedade já não os ouve e não têm como se ocupar nos subúrbios. Menos em Portugal do que aqui, claro, porque em Portugal há a noção de terra. No entanto, os portugueses foram grandes navegadores, como os espanhóis. A cartografia dessa época foi feita por eles. E foi muito importante, foram eles que decidiram quais seriam as futuras colónias, foram eles que se apropriaram dos países. E aí não deixou de ser a mesma coisa. Embora aquilo que os portugueses tenham feito de verdadeiramente terrível tenha sido o modo como os brancos trataram os negros e os levaram para a América. Cada época tem os seus defeitos, cada época tem os seus doidos.

Porque será?
Porque não se trata de um problema de religião mas sim de um problema de economia. Atualmente, as religiões tornaram-se políticas porque tudo não passa de uma questão de dinheiro. Tudo começou com os hebreus, os hebreus que estavam debaixo do domínio romano.

Um domínio que termina após 
300 anos de vigência.
A civilização romana termina com um movimento enorme, conduzido por muitos, que se opõe a um certo tipo de legislação. Antes tinham chegado os vândalos, depois vieram os bárbaros e invadiram o império.

Quer dizer que aí também há pontos comuns com o está a acontecer agora com uma Europa que acolhe migrantes e refugiados?
Sim, tudo é muito parecido. Como a Europa também fez antes de 1772 [data da fundação do primeiro governo anglo-americano]. Nessa altura, os novos americanos oriundos da Europa mataram os índios e nem sequer se deram ao trabalho de perguntar de onde vinham aqueles habitantes. Lá está, como os portugueses e os espanhóis fizeram ao descobrir outros povos, matar e pilhar... A única coisa que lhes interessava era o dinheiro, o ouro. Estavam-se nas tintas para as civilizações que destruíam.

É o poder económico que decide quem tem o poder político?
Sem dúvida. Foi e é por isso que se destruíram e destroem civilizações incríveis.

É um homem religioso? Crê em alguma coisa?
Não, de facto não sou religioso, mas acredito no xamã e no xamanismo. Quando conto a um muçulmano a história da génese da sua religião, depois pergunto-lhe: “Como podes acreditar que Abraão tenha ouvido Deus dizer-lhe que se contasse todas as estrelas celestes teria dois filhos, um com Sara, que era sua mulher, e que criaria o Estado Árabe” — e aqui não confundir com o Islão.

Estaline. O ator francês diz que não fez o papel do ditador, fez sim um script daquilo que lhe interessava

Estaline. O ator francês diz que não fez o papel do ditador, fez sim um script daquilo que lhe interessava

A História é fascinante para si?
Absolutamente.

Já interpretou também várias personagens históricas, Rasputin, Dumas, Colombo...
Representei-as todas. Todas as personagens da Revolução Francesa, Danton, por exemplo. Mas também o Colombo, como diz, e que me fez conhecer a história de Portugal. Interesso-me muito por tudo isso. A História repete-se mas é sempre encantadora.

Já conhecia bem a história da Rússia antes de aceitar fazer de Estaline?
Estaline pertence à história do mundo. Mas antes de Estaline existiram homens tão poderosos como Nicolau II, ou até Nicolau I ou Alexandre, ou Ivan, o Terrível, aquele que reuniu a Rússia. Todos estes homens foram enormes. Basta ler Alexandre Dumas.

De quem também vestiu a pele...
Exato. Se o lermos, percebemos que nada mudou. É aquilo a que se chama geopolítica e é aquilo que a geografia e o terreno imprimem nos genes dos homens.

Para o citar, como define o ser 
que há em Estaline?
Estaline esteve prisioneiro na Sibéria durante três anos, depois de ter saído de uma escola de jesuítas, na Geórgia, e onde aprendeu latim e grego. Tornou-se apoiante desta ideologia comunista, bolchevique, para ser mais preciso. Uma ideologia que faz lembrar os bárbaros, apesar de não ser a mesma época. E faz lembrar os bárbaros pela atenção que se tinha de ter à vida, à cabeça, à pele. Pois, a partir do momento que se tinha uma ideia e se tinha o poder, podia perder-se tudo de um momento para o outro. Veja-se o exemplo das pessoas que tentam destabilizar o poder de Putin. Ramzan Kadyrov [presidente da Tchetchénia], que viu o pai de cabeça cortada por outros tchetchenos, homens que têm o fogo no sangue.

Também tem o fogo no sangue?
Não, não sou um guerreiro. Sou um fã da vida. Adoro as pessoas e a vida, adoro sobretudo gente que me possa contar o que é que a História nos diz e nos pode ensinar. Quando vejo a forma como vivemos hoje, nada parece agradar-me. Lembro-me de Portugal, onde estive bastante tempo, tempo para ali fazer pelo menos 30 filmes.

Tem uma filmografia extensa. Participou em pelo menos 
200 filmes. Quais são os que contam verdadeiramente?
Os filmes não me interessam. Não sei responder-lhe. É verdade. Estou-me nas tintas.

“Les Valseuses”, de Bertrand Blier, em 1974, e que citou há pouco, 
por exemplo, catapultou-o para 
o estrelato, de tão chocante ao ponto de abanar a França e o mundo.
“Les Valseuses” foi um bom filme. Fazia e faz parte de uma época e de uma determinada juventude. Tornei-me um pouco insuportável depois de o fazer. Era jovem e pretensioso como todos os jovens que estão dentro deste meio cinematográfico.

E “Sob o Sol de Satã”, de Maurice Pialat?
Um filme belo, sem dúvida. Mas que representa a fé, é sobre a diferença que existe entre a santidade e a loucura. Faz-me lembrar personagens míticas, como a Madre Teresa de Calcutá com quem me encontrei um dia. Trata de vidas doadas aos outros. Mas o que é que podemos tirar de tudo isso, sobretudo quando não acreditamos na santidade e nem sequer sabemos onde é que ela começa? Os santos dão-se aos outros. Mas acha que toda esta gente é santa com estes emigrantes? Esta gente que parte e que é caçada por todos, tal como os judeus foram caçados por todos os outros?

Voltamos à religião?
Sim. É que a questão no que respeita à religião hebraica é interessantíssima. A Tora responde ao Talmude. O Talmude faz perguntas e responde com outras perguntas. É como uma filosofia. Todas estas religiões têm por base a ideologia filosófica dos grandes nomes gregos.

Mas não é a religião que atormenta Estaline, são os fantasmas 
do passado. Também lhe vêm 
à memória?
Não. A mim não. Mas Ivan, o Terrível, também vivia atormentado com os fantasmas do passado, como tantos outros homens de poder.

E todos eles têm medo...
Todos os tiranos têm medo.

Porquê?
Porque não sabem viver sem o poder. Quando Estaline manda matar quem vive na Ucrânia, que se tornou soviética em 1917, quando leva a Ucrânia à fome entre 1930 e 1933, há entre sete a dez milhões de pessoas que se comem umas às outras. E ele fá-lo porque tem medo de não ser apoiado.

Isso estimulou-o a fazer de Estaline?
Não fiz de Estaline. Fiz um script daquilo que me interessa. E não é mais do que saber que toda a gente, mas toda a gente que vive naquele palácio fabuloso no Buçaco — onde há aquele silêncio, que Fanny Ardant tornou magnífico — tem medo do ditador que chega. Mesmo o livro de Jean-Daniel Baltassat [de que o filme é uma adaptação] não é um texto histórico, ou seja, é um livro sobre o que Estaline levava consigo no fim da vida. A certeza do medo dos outros. Um medo inevitável. Todos sabiam que enquanto esteve no poder, quem se mostrasse contra as suas ideias era morto. É a isso que chamamos ditadura. Hoje em dia, o único ditador que resta é aquele bruto da Coreia do Norte [Kim Jong-un]. É verdade que queremos a paz há já muito tempo, mas não a queremos porque vemos em todos os filmes de Jason Bourne e do Tom Cruise, na série “Missão Impossível”, que podemos cortá-lo aos bocados e enviá-lo para os quatro cantos do mundo. O problema é que isso já não existe. Temos a noção do medo e temos mesmo necessidade de ter medo.

Mas o Gérard não tem medo, 
di-lo frequentemente...
Não, não tenho, porque é que havia de ter medo? Tenho medo dos estúpidos, isso sim, porque os estúpidos podem destabilizar.

Lamenta alguma coisa que tenha 
ou não tenha feito no passado?
Não, até ao momento não tenho tempo sequer de pensar nisso. De facto, e para falar a sério, não acho que se deva lamentar nada. Passamos sempre ao lado de certas coisas mas, a partir do momento em que fazem parte do passado, mesmo que saibamos o que fizemos de errado ou que negligenciámos, só temos a hipótese de fazer um exame de consciência.

Foi um exame de consciência que fez quando escreveu a sua biografia, “Ça S’Est Fait Comme Ça”, em 2014?
Não, isso não é nada. Escrevi o livro porque havia muita gente a pedir-me que o fizesse, tinha muitas solicitações de entrevistas para que falasse da minha vida. Estava farto disso e preferi escrever para que não me chateassem mais.

Prefere falar de outros temas?
Claro que sim. Se me perguntar por um filme como este que acabo de fazer, posso dizer-lhe que é sobre dez dias de repouso que Estaline vive fora do seu escritório, dez dias em que se dá conta de que toda a gente tem medo dele. Tudo isso se torna aflitivo, sobretudo saber que as pessoas que amamos só estão connosco porque têm medo. E esta é a grande questão. É preciso viver com isso. Acho que Estaline naquele momento que o filme retrata se dá conta de que está só. É com isso que tem de lidar. Com isso e com o charlatão que se chama Sigmund Freud, é através dos seus métodos que analisa os seus sonhos.

Acredita na metodologia de Freud, aquela que ele descreve em “A Interpretação dos Sonhos”, o livro de que se serve Estaline para viajar ao passado?
Claro que sim. Ele reequilibrou as pessoas. Acredito em tudo o que possa fazer bem às pessoas. Se rezar lhes faz bem, que rezem. Vão às igrejas, às mesquitas. Há pouco tempo estive no Dubai, que é uma cidade rica, mas que tem pequenas mesquitas por todo o lado. Vi as pessoas entrarem e saírem de lá melhores, exatamente como uma velhota que entra numa igreja. Mas não acredito que assim encontremos a paz. Não, o que encontramos é outra coisa. Eu, por exemplo, encontro a paz no meio de uma paisagem gigantesca, nas planícies do Cazaquistão. Lá onde não há ninguém e estamos em frente do horizonte no meio do deserto, lá onde há aquele silêncio e a noite mostra todas as estrelas. Adormecemos à luz dessas estrelas. Lá não precisamos de igrejas nem de sinagogas, nem de mesquitas. Temos em nós uma ideia que nos reconforta porque Deus está em nós. Acredito no xamanismo e é isso que ele nos ensina.

Isso não é uma espécie de paraíso?
Não. Não acredito no paraíso. A definição de paraíso na religião muçulmana fala de grandes jardins e rios, onde há mulheres que reconstroem a sua virgindade, não são virgens. E estes bombistas suicidas de hoje, vestem sete pares de cuecas, fazem-se explodir e pensam que vão encontrar 70 virgens. Que chatice ter de estar com 70 virgens, com uma já é um aborrecimento! Mas será que o paraíso é só isso, beijar 70 virgens? Não. É o quê então? E é isto que é belo nesta definição, é o reencontrar do desejo mesmo sem ter necessidade dele. É simplesmente estar num estado de amor, de desejo, mas onde o sexo já não existe, não é mais nada, só o espírito conta. É a paz. E para si o que é o paraíso?

É o silêncio, estar em silêncio. Feliz.
Mas nós não temos sequer a noção de bem-estar e da felicidade. O silêncio só é preenchível com o espírito. O espírito supera tudo.

É um homem livre?
Tento ser.

E a solidão não acompanha 
a liberdade?
A solidão é uma chatice mas existe a meditação. De resto, a solidão só existe nas cidades. Existe quando há todo aquele movimento à nossa volta e nos sentimos perdidos. Quando há demasiado barulho e nós nos tornamos surdos, aí podemos experimentar a solidão. Mas no espaço, quando atravessamos o deserto, quando vamos à Mongólia, mesmo no Alentejo ou em Faro, não a sentimos. Quando olhamos para o mar de Portugal e vemos aquela espécie de horizonte que nos agarra, não conseguimos desligar-nos da história, da história de todos aqueles que partiram. É como ir à Lua, viajar no espaço, ir a Marte, não sei. São coisas que foram abstratas num determinado momento, quando a Igreja dizia que não se podia ir para ocidente porque se cairia nos abismos, quando as pessoas que sabiam que a Terra era redonda e girava à volta do Sol, como Galileu, eram queimadas vivas. É que o desconhecido mete medo. Por trás do desconhecido se calhar há outros fascínios. Não podemos ouvir o que o nosso pai ou a nossa mãe nos dizem, só se for para não os magoarmos. O que é preciso é termos a nossa própria ideia sobre as coisas. É por isso, também, que não precisamos de frequentar um curso de teatro para fazer teatro.

Foi com essa liberdade que saiu 
de Châteauroux [a sua cidade natal] 
e foi para Paris?
Não sei, saí porque saí. Châteauroux não era para mim.

Não fazia parte do seu destino.
Não, o destino não existe. Faço o que devo fazer. Faço o que tenho vontade de fazer. Faço o que me dá na cabeça. Será que o Paulo Branco se sente mais excitado a fazer filmes difíceis ou a estar constantemente na corda bamba sem saber se o filme vai correr bem? Cada um vive como pode. Eu não faço filmes para ser ator. Os atores não me interessam para nada, chateiam-me. Gosto é da aventura.

E quais são os seus pequenos prazeres?
Observar os outros. Por exemplo, os portugueses. Sempre me disseram que vocês só comiam bacalhau e que o bacalhau cheirava mal. Mas não é verdade. A cozinha portuguesa é muito, muito boa. A arte da mesa em Portugal é muito boa. As mulheres que estavam de pé em frente à mesa da III República, em França, são iguais às portuguesas. As mulheres mudaram muito. Mas nota-se que ainda não há muito tempo sofreram os males de um regime ditatorial, assim como no país vizinho. As pessoas viram os outros morrer e aceitaram-no. Excetuando uma só, o senhor Bernard-Henri Lévy, que vai até às ruínas e junto dos cadáveres, com os seus sapatos e a sua camisa branca a dizer: Vejam, eu faço o trabalho que os políticos não fazem!

Mas haverá mais coisas que o fazem sentir-se bem?
Atravessar os países que não conheço. Mas agora todos os sítios são parecidos. Chegou a mundialização. Toda a gente copia toda a gente. Portugal incluído, há obras para arranjar tudo direitinho, os portos, os cais, para tirar a calçada... Mas para quê? Isso vê-se em todo o lado, em Buenos Aires... Tanto faz. E depois vem a máfia que constrói os novos prédios. Tudo igual. Tal como aconteceu em Nova Iorque, quando começaram a construir prédios no Down West Side. São máfias que vieram para matar tudo. Como sempre, e falo das tribos que existiram e que não conhecemos. Tudo acabou. Hoje, até aqueles que nunca viram outra cor de pele que não a sua, veem os aviões que cruzam os céus e a determinada altura apercebem-se de que há viajantes.

Gostaria de ter vivido noutra época?
Não, esta serve-me, porque vivo noutra época mesmo nesta época.

O que quer dizer com isso?
O que já disse. Que não preciso de livros para aprender a História. A História chega-me pelos outros. Não preciso da nossa sociedade. Portanto, tento imaginar-me, e já o fiz num filme chamado “Le Retour de Martin Guerre”, como um estrangeiro, como aqueles que iam para a guerra e atravessavam as aldeias quando ainda havia camponeses à volta de sete ou oito casas e se casavam entre eles para manter as terras. Como acontecia em Portugal, como acontece em Itália, que sobrevive à custa das famílias que trocavam terras entre elas. Quantos terrenos vitivinícolas há no Douro? Imensos, mas foram os ingleses que os compraram todos.

Como os franceses estão agora 
a comprar quarteirões inteiros 
de Lisboa...
Fazem-no porque durante dez anos não pagamos impostos. Mas isto mexe por todo o lado. É a tal globalização. É uma pena. Eu adoro Portugal. Conheço o país há mais de trinta anos. Sempre fiquei extasiado com os mosteiros que lá vou descobrindo e que datam dos séculos XV e XVI. Porém, detesto os velhos prédios que foram reconstruídos para se transformarem em Airbnb. Uma pena!

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 28 de janeiro de 2017

  • A ditadura do medo

    Com a imagem do poder absoluto como metáfora, “O Divã de Estaline”, com estreia marcada para esta quinta-feira, põe em evidência o medo de uma sociedade como a nossa. Quem o diz é Fanny Ardant, a realizadora, em conversa com o Expresso