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Fanny Ardant: Uma resistente 
à procura de luta

“O Divã de Estaline” é o terceiro filme com assinatura de Fanny Ardant. De passagem por Lisboa, a atriz revelou-nos as suas motivações pessoais numa vida pautada pela leitura, pela paixão e pelo cinema

antónio pedro ferreira

Drama intimista, como o define, o terceiro filme de Fanny Ardant, uma das atrizes francesas mais emblemáticas e a eterna musa de François Truffaut, é um trabalho sobre o poder, que utiliza a figura de Estaline como metáfora dessa condição absoluta. “O Divã de Estaline”, diz-nos, na sua última passagem por Lisboa, “não é um filme sobre Estaline, é um filme com Estaline. Quis criar uma fábula, contar um conto. A realidade histórica não me interessa”. Fanny Ardant é clara na sua intenção de criar uma metáfora sobre o efeito que o poder exerce nas pessoas, sobre o medo que dele advém e sobre a transformação a que submete toda a gente. O mesmo medo, revela, que “hoje em dia toda a gente tem em relação a tudo. Medo de não agradar, de não ser ou estar como deve ser...”

Em honra do poeta russo Osip Mandelstam, que afrontou Estaline com um poema caricatural, e que por isso foi condenado ao exílio e não tendo obedecido acabou preso e obrigado a trabalhos forçados, o filme avança “como uma representação da resistência e da liberdade possível”, mas também numa demonstração de que “aquele poder absoluto só existe porque a sociedade, o povo lhe diz sim e o aceita”.

O resultado é a humanização de “um Estaline monstruosamente humano” e muito semelhante às personagens que Shakespeare constrói em “Ricardo III” ou “Macbeth”, acredita a realizadora. “Há qualquer coisa nelas que nos faz ter compaixão ou pena.” Gérard Depardieu, acrescenta, “mostra o homem, aquele que duvida, que é apanhado pelo passado, que se olha ao espelho e já não se vê, que tem medo da morte e do abandono, num jogo perverso à procura do significado dos seus sonhos”. Um homem que não gosta daquilo em que se tornou nem física nem moralmente... “Para um ditador que era charmoso, agradava às mulheres, inteligente, culto, é complicado envelhecer”, segue Ardant. “Torna-se ambíguo e os poderes ambíguos são os mais perigosos. Suscitam adoração. Foi por isso que quis filmar sempre o grupo de pessoas que o rodeiam mudo, como os coros antigos que olhavam sem nada dizer, que esperavam e que se submetiam.”

Mas submissão é algo que Fanny Ardant não conhece na vida real. Sempre com a liberdade como fio condutor, cresceu no Mónaco, onde nasceu, filha de um oficial do exército, frequentou um colégio de freiras que detestava, e passava as férias grandes em casa dos avós, no meio dos bosques a norte de Paris. “Um sítio fantástico onde ninguém nos via. Sempre me contaram que durante a guerra os alemães passaram por lá e foram-se embora por acharem que ali não vivia ninguém.”

Lá tudo era uma aventura. “A casa ainda não tinha eletricidade, havia aqueles candeeiros a petróleo, a água era tirada do poço à mão, lavávamo-nos naqueles lavatórios antigos que punham em cada quarto. O meu avô tinha uma biblioteca enorme. Foi lá que comecei a ler. Lia tudo, tudo, tudo”, lembra. “Só passei a conviver com rapazes na Universidade e as pessoas pensavam que eu não sabia nada, mas eu sabia as coisas da vida através dos livros. Quando li a ‘Madame Bovary’, de Gustav Flaubert, percebi, antes sequer de me ter apaixonado, que se podia trair um amor!”

Essa madame Bovary, ser livre que vive à margem das convenções, é parte daquilo que a realizadora defende: “O que me parece ser o mais importante neste mundo é a liberdade. Não é a segurança. A nossa época, a nossa democracia agita a bandeira negra do medo para poder dizer-nos que pode tomar conta de nós, mas isso roubar-nos-á a liberdade.”

Desde sempre que se lembra de querer ser atriz, mas a profissão “aleatória e hipotética”, como lhe chamaram os seus pais, levaram-na a optar por estudar Ciências Políticas em Aix-en-Provence, no Sul de França. Escolheu o curso por ser o que durava menos tempo. “Recordo esse tempo como um período em que se falava. Hoje em dia já ninguém fala com ninguém. Fala-se da meteorologia. Gosto imenso da dialética. E naquela altura falava muito sobre as ideias, mesmo que não estivesse de acordo com os meus interlocutores”, continua a realizadora.

O curso correu-lhe bem, “é perigoso quando os estudos nos correm bem”, e candidatou-se a um lugar no Ministério dos Negócios Estrangeiros. “Fui parar à embaixada de França em Londres. Mas, graças a deus, fui recambiada para França. Chegava todos os dias atrasada ao emprego, de tal maneira que os outros funcionários se perguntavam, mas quem é esta?” Já em França, frequentou um curso de teatro e começou a dar os primeiros passos como atriz. Aos 31 anos, François Truffaut, por quem se apaixonou e com quem teve uma filha, escreveu-lhe uma carta, depois de a ter visto num filme que passou na televisão, e que foi um enorme sucesso em França, “Les Dames de la Côte” (1979).

“Fiquei extremamente surpreendida. Sou tímida, por natureza. Ele perguntava-me se estaria disponível para conversarmos. Fui ao encontro mas sempre a questionar-me sobre o que havia de dizer e sem ter resposta.” Truffaut estava a preparar o filme “O Último Metro” (1980), com Catherine Deneuve e Gérard Depardieu, mas já tinha em mente fazer “La Femme d’à Coté”, que Fanny Ardant haveria de protagonizar também ao lado de Depardieu.

“Truffaut era alguém cujo comportamento eu admirava, o comportamento na vida e no cinema. Ele vivia o cinema e a literatura. Admirava-lhe também a inteligência, a liberdade de espírito, a sua grande liberdade de espírito. Tinha um enorme respeito pelo outro, fosse alguém todo-poderoso ou um zé-ninguém.”

Acabou por saber da sua morte, em outubro de 1984, já devastada. “Mesmo antes de viver as mortes que me transtornaram [o pai morre quando ela tem apenas 17 anos], muito nova, descobri o lado efémero da vida. Aos 13 ou 14 anos era essa angústia que tomava conta de mim. Sabia que um momento igual ao que estava a viver nunca mais se repetiria e que não poderia agarrá-lo. Fui desde muito jovem tomada por aquela sensação de não poder agarrar os momentos. A morte era a grande ilustração desse sentimento do efémero. Durante toda a minha vida tive sempre este fleurt com a morte, nunca a perdi de vista. Mas não a sentia forçosamente como uma inimiga. Sempre a olhei como um desgosto, uma coisa que não correu bem mas que não vai durar para sempre. É uma inimiga e uma amiga ao mesmo tempo. É preciso relativizá-la, porque, lá está, só há uma vida, temos que a viver.”

Zeffirelli, Antonioni, Resnais, Polanski, Wenders, foram alguns dos realizadores com quem trabalhou. “Não sou uma teórica do cinema, mas o que vi foram grandes diretores cheios de paixão e de entusiasmo, gente que em cima do plateau fazia como que uma pequena criação do mundo e só isso contava. Tinham a paixão de um artesão.”

A mesma que tem ao falar connosco e que impõe em tudo e a todos com quem trabalha de um lado ou do outro da câmara. “Enquanto atriz fui sempre escrevendo histórias, argumentos. Escrevia depois de almoço, à tarde. As histórias estavam mais ou menos bem acabadas. Um dia escrevi uma que tinha um melhor final e foi quando encontrei Paulo Branco. Chamava-se ‘Sangue e Cinzas’ (2009) e foi o meu primeiro filme”, lembra com vivacidade.

Hoje, diz, “continuo a ser uma atriz e gosto muito de o ser, por isso é complicado dirigir os outros atores. Cada um de nós funciona de uma forma muito particular. Eu, por exemplo, não preciso que me falem e expliquem o papel durante horas. Sou como um cão, cheiro os papéis. Mas há atores que precisam de muito tempo. Aprendi que é assim. Gérard Depardieu é como eu. Uma frase e já está. Está pronto”.

Ao escrever os diálogos deste filme, “O Divã de Estaline”, tudo lhe parecia claro, tão claro que levou tempo a falar com os seus atores. “Gostava que todos percebessem que na nossa sociedade o poder do dinheiro é enorme, é, de facto, o verdadeiro poder. E é capaz de transformar as pessoas que se submetem a ele. Há sempre os que dizem que se vão desenrascar, que vão sair dessa, que não se submeterão a tudo, que vão conseguir ganhar ao poder, mas a tentação está sempre lá como esteve ao lado de Eva no paraíso.”

E gostava, diz-nos com humildade, que os espectadores fixassem uma pequena cena, “aquela em que Lídia entra e abraça Estaline voluptuosamente e veste uma camisa de noite. É preciso que todos percebam que já são outros os ventos que sopram. Ela já está salva do jugo do poder. Ele já não pode prender-lhe a alma, tal como acontece em ‘Almas Mortas’, de Nikolai Gogol.”

A literatura e os livros sempre a abrirem caminho para uma realidade vasta. “Os grandes autores fazem-nos ganhar tempo, vêm e contam-nos coisas que nós levaríamos uma vida inteira para nos apercebermos delas.” Neles e em Fanny Ardant há uma só mensagem: “Não se resignem, sejam livres venha o que vier...”

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 28 de janeiro de 2017