Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

“Se lesse aquilo aos 13, a minha filha também ficaria chocada”

Tiago Miranda

Fernando Pinto do Amaral, comissário do Plano Nacional de Leitura, falou ao Expresso sobre a polémica em torno da inclusão do livro de Valter Hugo Mãe nas recomendações para o 3º ciclo

A polémica com o livro “O Nosso Reino”, de Valter Hugo Mãe, recomendado para o 3º ciclo do ensino básico nas listas para leitura autónoma do Plano Nacional de Leitura (PNL), levou a que a comissão de especialistas decidisse empurrá-lo para o ensino secundário. Apesar da qualidade literária da obra, o PNL admitiu o erro. “A linguagem [sexual] choca, sobretudo tendo em conta a idade”, reconhece Fernando Pinto do Amaral.

Tinha consciência de que o livro estava nas listas do 3º ciclo?
Não. Se tivéssemos noção da linguagem que existe naquelas páginas teríamos dado pelo erro mais cedo. Mas o livro estava na lista errada, por lapso. Não interessa de quem, não interessa apontar culpas, somos humanos. O que importa é que não estava na lista certa.

Leu o livro?
Sim, há muito tempo. Mas já nem me lembrava de que tinha essa linguagem. Não fui eu que o selecionei, é preciso que fique claro. O comissário não intervém nas escolhas.

Mas não dá aval final?
Quem, eu? Uma pessoa só? Eu não consigo ler as centenas de livros selecionados. A comissão de especialistas é um júri soberano. Por princípio, confio nas suas escolhas.

Geralmente, cada obra é lida e proposta por um só especialista. Não seria menos subjetivo ter pelo menos dois?
Com as dezenas e dezenas de livros que nos chegam tínhamos de ser o dobro das pessoas. Não bastavam 11 peritos. E não há orçamento para isso. Nós temos muito poucos meios.

Assim sobra mais espaço para a subjetividade. O PNL justificou-se com um lapso informático, mas pode ter sido uma escolha consciente, fruto da sensibilidade de quem o escolheu?
Não vou falar sobre isso, são questões internas nossas. Já assumimos o erro. O livro estava na lista errada, houve um lapso da equipa do PNL no conjunto, que engloba especialistas e funcionários. Dentro de todas essas pessoas, sim, houve ali um erro. No meio de centenas e centenas de livros, com dezenas e dezenas de listas, estas situações acontecem.

A reação das famílias foi excessiva?
Quando se fala em tabus, e em sexo em particular, as reações são muito contraditórias. A atitude dos pais é compreensível. Se a minha filha tivesse 13 ou 14 anos e lesse aquilo provavelmente também ficaria chocada. A linguagem choca, sobretudo tendo em conta a idade. A maturidade no 3º ciclo é muito variável: há miúdos já amadurecidos e outros muito infantis. Foi por isso que marcámos uma reunião e concluímos que o livro seria para o ensino secundário.

Por causa de duas páginas?
Sim. Bastava cortar uma ou duas páginas e o livro já seria adequado para o 3º ciclo. Foi por isso — porque sentimos que a linguagem ia chocar muitos pais e os próprios jovens — que decidimos alterar as listas. Mas, tendo em conta o valor literário do autor e da história, que é muito bonita, era para nós claro que o livro tinha que continuar no PNL.

Além da qualidade literária, existem critérios específicos para cada ano de escolaridade?
Específicos para cada ano não, exceto para livros infantis. À medida que a idade aumenta pesamos a qualidade literária e da tradução (caso exista), bem como a mensagem. Não há livros pornográficos no PNL, nem racistas, xenófobos ou que incitem ao ódio e à violência. Isso não aceitamos.

O facto de serem as editoras a enviar as obras (e não os especialistas a pedir) não lhes dá um peso excessivo na seleção?
As editoras têm de concorrer, porque nós não sabemos automaticamente tudo o que sai. Senão ficaríamos dependentes dos acasos da vida e do facto de um membro da comissão ter encontrado determinado livro numa livraria. Certamente existiriam muitas obras que nos escapariam.

O PNL vai ser reestruturado. Situações como esta e a do livro de Alice Vieira, indicado para o 2º ano, podem ter influência?
Foram dois erros nossos, que reconhecemos. Dois casos em dez anos, centenas de livros e dezenas de listas. Sobre medidas de futuro não posso falar.