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O sexo das palavras

LINGUAGEM. O que são palavras obscenas? Gil Vicente era obsceno? Valter Hugo Mãe é obsceno? As palavras são neutras? Na imagem, “Auto da Barca do Inferno”, encenação de Rui Madeira

FOTO PAULO SOMBRA

O uso dado às palavras sempre esteve assente numa dupla dimensão do domínio do cultural e do político-ideológico. O exemplo mais próximo e continuado no tempo desta realidade é a polémica à volta do Acordo Ortográfico. Resultado de uma construção política, como o são por norma as convenções, neste caso linguísticas, o acordo suscita divisões no que diferentes campos entendem ser, ou não, o respeito pela tradição cultural, plasmada no modo como nos expressamos, ou como passaram alguns a ser obrigados a expressar-se, seja nas comunidades escolares, seja nas estruturas oficiais. Será, até, pouco relevante argumentar que o novo Acordo (nem esta designação é pacífica) afeta, na verdade, uma escassa percentagem das palavras utilizadas num texto comum. É um dado irrelevante quando o argumentário de quantos se opõem a esta mudança radica no intangível, nas sensações, ou como sentem ser truncado o seu modo de experienciar a língua.

Livro de Valter Hugo Mãe perturba adolescentes de 14 anos?

Livro de Valter Hugo Mãe perturba adolescentes de 14 anos?

FOTO JOÃO LIMA

Há dias surgiu nova controvérsia, desta vez a pretexto do uso de uma linguagem (palavras) considerada, por alguns pais de uma turma de uma escola, imprópria para alunos do 8º ano de escolaridade. Em causa estão passagens retiradas de contexto do livro de Valter Hugo Mãe “O Nosso Reino”. Os abrangidos são rapazes e raparigas cujas idades andarão pelos 13 ou 14 anos, versados, por certo, nos segredos da Internet e nas múltiplas portas de acesso a mundos imagináveis e inimagináveis, mas em sério risco de serem pervertidos por uma curta passagem do romance de Valter. Para apaziguar consciências, o livro muda de escalão no Plano Nacional de Leitura e lá se vai a oportunidade de Valter transviar criancinhas (?). É de prever o pior quando tiverem de aterrar em Gil Vicente. Por vezes torna-se difícil perceber onde reside a obscenidade.

Diferente é o tema da apropriação pela narrativa jornalística de palavras portadoras, elas próprias, de um discurso marcado. Vasco Pulido Valente utilizou pela primeira vez o termo “geringonça”, depois popularizado por Paulo Portas, para qualificar o entendimento entre o PS, PCP e BE do qual resultou a viabilização do atual governo. Fizeram-no ambos no contexto do seu legítimo e natural direito de intervenção cívica e política para expressarem, porventura metaforicamente, o pouco apreço tido pela solução encontrada.

PSD e CDS fazem do termo “geringonça” arma de combate político

PSD e CDS fazem do termo “geringonça” arma de combate político

LUÍS BARRA

Desde então, nunca a palavra deixou de ser utilizada por deputados e dirigentes do CDS e do PSD num contexto que não seja o de apoucar, ridicularizar, denegrir o acordo entre aqueles partidos. Alguns dirigentes do PS também a utilizam por vezes, nunca se percebendo bem se o fazem apenas levados pela onda construída no discurso mediático, se numa tentativa tosca de, ao fazê-lo, contribuírem para banalizar o termo ao ponto de o tornarem inócuo. Nunca o conseguiram.

“Geringonça” passou a ser em Portugal uma palavra com uma conotação muito específica, e integrada no combate político-partidário. Quando um jornalista a utiliza no noticiário comum – excluo artigos de opinião – tem de assumir o ónus de estar a ser conivente com uma dada opção retórica e a tomar partido por um recurso discursivo inserido na luta partidária, que nada tem de anódino ou neutro.

A linguagem jornalística está cheia de situações marcadas por uma forte subversão do sentido das palavras. Nem vale a pena retomar os exemplos clássicos dos quais decorre a inexistência de trabalhadores ou de patrões, porque só há colaboradores e empresários. Ou a assética ideia de reestruturação para nomear os despedimentos.

Nos últimos dias surgiram novos casos a propósito das primárias do PS francês. De repente – e isso não aconteceu apenas em Portugal – Benoit Amon, o vencedor folgado, estava a ser apresentado como esquerdista. É um absurdo só entendível se o objetivo é fazer de Manuel Valls a esquerda do PS. Presume-se que responsável, por oposição à irresponsabilidade tida como inerente à condição de esquerdista.

A subversão da linguagem leva a apelidar Amon de “esquerdista”

A subversão da linguagem leva a apelidar Amon de “esquerdista”

fOTO REUTERS/PHILIPPE WOJAZER

Designações deste tipo levantam inúmeros problemas. O menor deles nem é perceber como é que, depois de catalogar Amon de “esquerdista”, se classificam Jean-Luc Mélenchon, apoiado pela Frente de Esquerda, onde se inclui o PCF, Nathalie Artaud, da Luta Operária, Sylvia Pinet, do Partido Radical de Esquerda, ou o trotskista Philippe Poutou, do Novo Partido Anticapilatista.

Não pretendo expressar certezas absolutas. Apenas manifesto dúvidas suscetíveis de debate. Desde logo porque nem sempre as palavras valem apenas pelo que significam. Como não são assexuadas, no sentido em que nunca são sem consequências, nem inocentes as opções tomadas, fácil é entender que discutir a importância da escolha das palavras não é o mesmo que discutir o sexo dos anjos.