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O novo herói americano

Corey Hawkins é o protagonista de “24: Legacy”. Na série, interpreta Eric Carter, líder do esquadrão de elite de Rangers americanos que matou o líder terrorista Ibrahim Bin-Khalid no Iémen

D.R.

Howard Gordon, produtor-executivo de “24: Legacy”, falou ao Expresso sobre a construção do spin-off de “24”, sem o mítico Jack Bauer e com estreia marcada para segunda-feira na FOX. É hora de Eric Carter correr contra o tempo e salvar os Estados Unidos de um ataque terrorista

João Miguel Salvador

João Miguel Salvador

em Madrid

Jornalista

Ibrahim Bin-Khalid deixou de ser um problema para a segurança dos Estados Unidos e do mundo. O líder terrorista foi abatido por um esquadrão de elite de Rangers americanos há seis meses, mas a tão esperada neutralização do radical islâmico no Iémen pode trazer novos perigos para solo norte-americano. A operação foi liderada pelo sargento Eric Carter (Corey Hawkins), fazendo dele um alvo dos terroristas. “A fatwah já foi anunciada e não será apenas uma questão de vingança; será uma nova ameaça constante.”

A garantia é dada por Howard Gordon, produtor-executivo de “24: Legacy”, que não esconde a inspiração dos criadores da série: o início do spin-off de “24” lembra a operação que levou à morte de Bin Laden, o histórico líder da Al-Qaeda. Manny Coto, responsável por um dos episódios da nova série, chegou mesmo a escrever “um artigo sobre os homens que levaram a cabo a operação” com vista a um thriller independente, mas a ideia acabou por ganhar uma dimensão ainda maior.

A equipa apercebeu-se de que esta seria uma boa forma de fazer renascer o franchise que popularizou Kiefer Sutherland no papel de Jack Bauer e era também uma oportunidade para dar a conhecer um novo protagonista. Desta vez, a aposta é feita num ator afro-americano, essencialmente por questões de ordem criativa (sem que se possam esquecer os esforços das produtoras para reforçar a diversidade). “De certa forma, Eric Carter é negro porque Jack Bauer era branco, tal como, de certa forma, a Carrie Mathison de “Segurança Nacional” é mulher por Bauer ser homem.”

Os responsáveis pela nova vida da série consideraram necessário criar um agente que fosse o oposto do agente da série original e o esforço é notório. “Eu não resumiria a questão ao facto de Carter ser afro-americano”, defende Howard Gordon, que considera interessante dar a conhecer um agente numa faixa etária completamente diferente. Mais do que preencher uma série de tabelas com características a atribuir ao protagonista, Gordon assegura que criar personalidades ficcionais se trata de uma “construção”.

As personagens fazem-se de várias camadas e Eric Carter não é exceção. À primeira vista, até podemos olhar para ele como uma nova versão de Bauer, mas este novo herói americano é muito mais do que isso. O seu passado é bem diferente e a sua experiência em nada se assemelha à do agente mais maduro. “Ele [o Eric] é um rapaz de um contexto muito especial, que veio de um bairro complicado e que se envolveu em problemas antes de se tornar militar”, conta Gordon, adiantando que a sua ligação ao irmão será um ponto importante da série. “Ele afastou-se dessa realidade, mas o irmão não saiu de lá”, conta, pelo que “há uma raiva e um lado negro com o qual Eric terá de lidar”. Ser militar até pode ter sido o seu escape — algo que o ajudou a libertar-se do passado e de quem é durante algum tempo — mas agora, em casa, tudo muda. Embora ainda esteja na casa dos 20 anos, Carter já passou por muitas privações e terá de enfrentar os demónios. Pode ser que a mulher, Nicole (Anna Diop), o ajude.

Não é apenas no campo pessoal que a mudança acontecerá. “Estamos a assistir ao nascimento de um espião”, assegura o produtor-executivo, que nos transporta para o rescaldo da operação que levou à morte de Bin-Khalid. Os seguidores do líder terrorista não declararam guerra apenas contra Carter, e a ameaça estende-se aos membros do seu esquadrão e às famílias de cada um. É necessário proteger os Rangers, colocando-os sob proteção do Estado, mas isso não impede que haja uma tentativa de assassínio contra o militar. É preciso agir e não há tempo a perder. Tal como na série original, em “24:Legacy” tudo acontecerá num período de 24 horas.

É aqui que Rebecca Ingram (Miranda Otto) entra em ação. A antiga Diretora Nacional da CTU [Counter Terrorist Unit], que ajudou na caça ao homem no Iémen, deixou o cargo para apoiar o marido (interpretado por Jimmy Smits) na corrida presidencial, mas terá de voltar ao ativo para ajudar Eric Carter. Pelo meio, e enquanto tentam evitar um devastador ataque terrorista, ambos terão de lidar com várias questões, encontrando as respostas possíveis num curto espaço de tempo. Em quem poderão confiar? Quem é, afinal, o verdadeiro inimigo? Poderão aqueles em quem mais confiam estar envolvidos? Entre elas, há uma pergunta que se sobrepõe: “O que significa ser americano?”.

Para Howard Gordon, esta é a questão central da série e “ganha ainda mais sentido para um afro-americano, numa altura em que são frequentes as notícias de brutalidade policial contra negros em determinadas zonas do país”. Eric Carter já defendeu os Estados Unidos em várias missões — primeiro na Guerra do Afeganistão e depois no Iémen — e começa a pensar se o seu esforço valeu a pena.

O legado de “24”

“Não queremos ser um meio de propaganda para o bem ou para o mal”, assegura Gordon, que prefere olhar para o papel das séries televisivas de outra forma. “O que queremos é levar as pessoas a questionar-se perante a realidade”, construindo depois o seu próprio pensamento e retirando as suas conclusões. Neste enredo, não existe uma fórmula a seguir, mas há regras das quais o canal não prescinde.

A diversidade não se cinge ao lado visível da série e o produtor-executivo garante nunca ter visto “uma seriedade institucional tão forte relativamente a este tópico como agora”, tanto da parte da FOX como dos principais sindicatos. O vencedor de três Emmys (dois por “Segurança Nacional” e um por “24”) assegura que a diferença é grande e que as melhorias dos últimos tempos são muitas. Há mais mulheres, mas a preocupação é também na “escolha de pessoas com diferentes backgrounds”. “Claro que não podes enlouquecer com isso”, explica-nos. O segredo estará mesmo no equilíbrio.

A criação de Robert Cochran e Joel Surnow, com estreia marcada para a próxima segunda-feira na FOX, mantém a receita do formato original. Cada minuto ficcional corresponde a um minuto na vida real — algo único no panorama televisivo que se tornou imagem de marca da produção — e o desafio para os argumentistas torna-se ainda maior. Numa série tão aguardada, é fulcral acertar no tom à primeira. Quanto à possibilidade de uma segunda temporada, Gordon assegura que está nas mãos dos telespectadores. “Se as audiências forem boas, haverá mais episódios.” b

O Expresso viajou a convite da FOX