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Desenhos do livro "The Snowman" de Raymond Briggs

DAN KITWOOD/GETTY

Reinaldo Serrano

Já aqui o disse e aqui o reafirmo: a inusitada influência da Pixar no universo da Animação desvirtuou o que foi o projeto Disney, contagiou o mercado global do género, introduziu fórmulas a que os próprios estúdios recorrem sem qualquer tipo de pudor, moveu influências juntos dos agentes e órgãos decisórios, potenciou efeitos perversos dos que veem no gigante norte-americano a referência maior neste tipo particular de cinema.

Não pretendo com isto retirar ou sequer negligenciar méritos próprios vindos dos criadores da Pixar; quero tão somente sublinhar que existem alternativas de real valor um pouco por todo o mundo, que os mercados demasiado formatados tendem (injustamente) a secundarizar. Claro que o Japão é um caso muito próprio, cujas idiossincrasias o afastam destas considerações: os mestres nipónicos de Animação conquistaram o seu lugar específico no género e o mercado (interno) japonês é de tal forma amplo que segue o seu próprio rumo (sempre assim foi) sem procurar impor-se de forma ostensiva no domínio do cinema de animação.

Não sendo, além do mais, um género que me cative de sobremaneira reconheço, no entanto, que seria de todo injusto omitir as exceções que têm confirmado a regra. Um desses casos surge do Reino Unido; chama-se tão simplesmente Ethel & Ernest e teve estreia no final do ano que há pouco findou.

O filme é um retrato terno, sensível e surpreendente dos 41 anos de vida em comum dos pais de Raymond Briggs, o notável ilustrador britânico que, em 1998, contou através do traço o modo como o distribuidor de leite conheceu a empregada doméstica com quem viria a casar-se até a morte os separar, com poucos meses de distância, em 1971.

A novela gráfica viu agora a sua adaptação ao cinema de animação, sob a direção de Roger Mainwood e com o preciso contributo das vozes de Jim Broadbent e Brenda Blethyn, entre outros.

O resultado é absolutamente notável e o público britânico não perdeu tempo a reagir à estreia, inundando as redes sociais com mensagens de terno agradecimento à partilha desta história de amor, por vezes pungente, outras vezes agradavelmente humorada, mas sempre elegante e sábia. A recomendação primeira vai, naturalmente, para o público jovem, mas a idade de pouco vale neste visionamento que se aconselha sem reserva, filme de família por excelência que tem na excelência da família o seu principal desígnio.

Muito conhecido entre os súbditos de Sua Majestade, Raymond Briggs deu nas vistas do demais mundo quando, em 1982, deu a conhecer o excelente “When The Wind Blows”. A história de um casal de idosos que, por influência externa, decide construir um abrigo nuclear, enterneceu o mundo pelo anacronismo latente das duas vidas que encaravam a possibilidade de uma guerra nuclear com o mesmo olhar com que tinham experienciado a II Guerra Mundial.

Da edição impressa à adaptação cinematográfica (em Animação) decorreram apenas 4 anos, e o sucesso do livro potenciou ainda mais o sucesso nas salas e no mercado do vídeo doméstico. O filme contou, nada mais nada menos, do que com as vozes de dois dos maiores nomes dos palcos britânicos: Peggy Ashcroft e John Mills. Como se tal não bastasse, a banda sonora ficou a cargo de Roger Waters (sim: o dos Pink Floyd) com colaborações de... David Bowie.

Eis, pois, um excelente pretexto para (re)ver estas duas adaptações da obra de Raymond Briggs, o celebrado ilustrador que, aos 83 anos (completados no dia 18 de janeiro), pode olhar para trás e recordar a dúzia de prémios que o distinguiram e à sua obra, entre os quais o Hans Christian Andersen Award, o maior prémio mundial para autores de livros infantis. Mesmo se “Ethel & Ernest” seja uma obra particularmente adulta... com tudo o de juvenil tal possa implicar.