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“Um reencontro incrível” com Almada

HERANÇA. Catarina e Rita, arquitetas, netas de José de Almada Negreiros

nuno botelho

Depois de mais de duas décadas longe do público, a obra visual de José de Almada Negreiros é exposta na Fundação Gulbenkian. São mais de 400 peças, que percorrem os 50 anos de trabalho da figura de proa do modernismo português. Pelo olhar das netas, Rita e Catarina de Almada Negreiros, visitámos “José de Almada Negreiros: Uma maneira de ser moderno”, e propomos uma viagem pela Lisboa do artista. O(s) mundo(s) de Almada são o tema de capa da revista E deste sábado

Ana Soromenho

Ana Soromenho

Texto

Jornalista

Carlos Esteves

Carlos Esteves

Infografia

Infografico

“Viajámos na obra do nosso avô, e descobrimos um olhar novo”

“Conhecemos a obra do nosso avô desde que nos conhecemos. Não houve um momento de descoberta, o Almada sempre nos rodeou. A obra escrita veio mais tarde, quando aprendemos a ler e a entender o que escreveu e que não é possível ser compreendido por uma criança. Mas a parte plástica, que entra pelos olhos dentro, esteve lá sempre. Quando éramos crianças fazíamos cópias dos desenhos, que se gravaram no nosso inconsciente.

Ontem, antes da inauguração, visitámos a exposição. Sabíamos que algumas peças inéditas iriam ser apresentadas, que haveria outras que ainda não conhecíamos, mas não tínhamos ideia de como seriam expostas. Basta mudar o lugar de uma pintura ou de um desenho e enquadrá-lo de outro modo para que a obra apareça reescrita de outra forma. Foi o que aconteceu. A organização que a Mariana Pinto dos Santos - historiadora de arte e curadora da exposição - sugere reformula toda a leitura da sua obra pictórica.

A curadora fez uma redistribuição das obras sem seguir um guião cronológico, agrupou-as por temas divididos em oito núcleos, onde todas as diferentes linguagens visuais que Almada foi experimentando se misturam, dando um novo sentido à sua enorme produção.

d.r.

Guiadas pelos olhos dela, viajámos na obra do nosso avô, e descobrimos um olhar novo. Foi um momento incrível.

É muito interessante esta exposição realizar-se no próprio edifício que o contém. Podemos entrar ou acabar a visita pelo painel “Começar”, que foi a última peça que realizou, uma encomenda da própria Fundação Gulbenkian, que ficou pronta em 1969, um ano antes de morrer. A antologia percorre os dois níveis do edifício da Fundação. No “foyer” da sede foram espalhadas duas tapeçarias, trabalhadas a partir dos motivos dos painéis da Rocha do Conde de Óbidos, e de repente é como se o Almada estivesse omnipresente em todo o lado.

Entre as 400 peças aqui expostas há muito coisa que a curadora descobriu e não conhecíamos - e outras que não sabíamos onde estavam. Foi um belo reencontro. Por exemplo, nunca tínhamos visto o desenho “Auto-reminiscência” (1949), um autorretrato geometrizado, que pertence à coleção Jorge de Brito, sobre o qual nos tínhamos baseado para fazer monumento da Ribeira das Naus - inaugurado por ocasião dos 120 anos do nascimento de Almada.

Para realizarmos essa escultura tínhamos trabalhado com base em reproduções e não sabíamos que era tão pequenino. Descobrimos agora que é um A6, é uma coisa de enorme delicadeza. O mais engraçado é que nós transformámos aquele desenho de dez centímetros numa escultura metálica com nove metros de altura.

Também ao fim de quase oitenta anos, apareceu uma lanterna mágica, que está integralmente exposta, a partir dos desenhos dos vegetais que o Almada utilizou para uma série, de 1934, “O Naufrágio da Ínsua”, que concebeu para animar aqueles clubes de verão quando estava a passar férias com a minha avó em Moledo do Minho, em 1934. Fez uns desenhos a tinta da china que apresentou em diapositivos, como se fosse um cinema mudo, que ele próprio apresentava um a um, presos a dois paus e com uma lanterna a iluminá-los por trás. São 40 frames, uma coisa gigantesca que ocupa uma parede inteira. Só conhecíamos esse trabalho de o ver em fotocópias, sempre imaginara uma obra mais pequena. Não estava à espera daquela dimensão.

Também apareceu uma obra hilariante, da qual já tínhamos ouvido falar e que não conhecíamos, com um casal sentado à mesa a ler a revista “Orpheu”.

Ao longo da sua obra, o Almada retratou-se sempre, muitas vezes com outras personagens - como o quadro feito para o café A Brasileira de 1925. Impressionou-me muito um autorretrato que veio do Brasil e pertence a uma coleção particular, onde o Almada, nos anos em que esteve em Madrid, se desenhou com uma namorada da altura. Estão os dois de perfil, o que não é nada habitual nele, e com uma força e unidade espantosas.

A última grande retrospetiva que lhe tinha sido dedicada foi em 1993, no Centro Cultural de Belém, por ocasião do centenário. A própria Fundação Gulbenkian, que tem cerca de 150 obras de Almada Negreiros na sua coleção, fez a sua última exposição sobre o artista em 1984.

Depois, durante mais de duas décadas, nunca mais foi exposta na sua totalidade. Esta é a primeira apresentação do Almada a uma geração que nunca viu a sua obra pictórica em todas a sua extensão.

É aqui que está a ponta do icebergue. Depois existe toda a parte literária, a poesia, o teatro, as conferências, os manifestos, a ficção. Ele teve uma produção alucinante, e a obra é de uma extensão, de uma complexidade e de uma coerência enormes. Nele tudo se liga.”

Roteiro Com Almada por Lisboa

Ao longo dos mais de 50 anos da sua vastíssima produção artística, José de Almada Negreiros concebeu inúmeras obras para edifícios do Estado Novo, em colaboração com o arquiteto Porfírio Pardal Monteiro, grande amigo, com quem trabalhou intensamente. Neste roteiro, propomos um passeio guiado pela obra do artista que ficou impressa na cidade

Painel “Começar” (1969), na Fundação Calouste Gulbenkian

No átrio da sede, somos recebidos por “Começar”. O magnífico painel, onde em desenhos e composições geométricas, experimentadas ao longo de todo o seu percurso artístico, traçam, segundo Almada, um tratado de harmonia e o seu testamento conceptual. Foi a sua última obra, inaugurada um antes de morrer, em 1970.

Vitral (1938) na Igreja Nossa Senhora de Fátima

Foi a primeira igreja a inscrever-se no movimento modernista que chocou os lisboetas mais católicos. Só se calaram quando o Cardeal Cerejeira, patriarca da cidade, a veio defender, dizendo que todas as obras do passado tinham sido modernas em relação ao seu tempo. Quando Pardal Monteiro recebeu a encomenda de a projetar para as Avenidas Novas, convidou vários artistas para colaborar. Para esta obra, que marca a relação entre o arquiteto e o artista que durará durante as décadas seguintes, Almada fez os vitrais da entrada, das frestas laterais e do altar-mor.

Painel (1940) na antiga sede do Diário de Notícias, no Marquês de Pombal

A assinatura do artista está impressa no impressionante mapa-mundi de 54 metros quadrados gravado na pedra, onde representa os quatro elementos da terra (água, fogo, terra e ar) e os doze signos do zodíaco. Tornou-se o ex-líbris do edifício, para o qual também fez um mapa de Portugal e o fresco “Alegoria à Imprensa”.

Painéis (1945-1948) nas Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos

As enormes pinturas murais dos salões nobres das gares, assim como os gigantescos painéis para ambas, onde Almada se inspirou numa estética mais cubista para conceber as suas narrativas dedicadas à “Nau Catrineta” e a motivos marítimos, constituem um dos momentos de referência no seu percurso. Só podem ser visitadas por marcação.

Mosaico (1956) no Bloco das Águas Livres

CML | DMC | DPC | José Vicente 2013

É um dos edifícios mais marcantes do movimento moderno na arquitetura nacional, com inspiração de Le Corbusier, concebido e assinado por Bartolomeu Costa Cabral e Nuno Teotónio Pereira. O programa misturou várias gerações de artistas. Almada inscreveu-se nas entradas principal e lateral, com dois murais em mosaico, inspirados em jogos juvenis.

Obras (1957-1961) na Cidade Universitária

Nos pórticos e nas fachadas das faculdades de Direito e de Letras, assim como para o edifício da reitoria, nesta encomenda enorme, mais uma vez entregue a Pardal Monteiro, o artista usou a técnica do desenho inciso, para desenhar e gravar na pedra, uma homenagem aos mestres do conhecimento, como Platão, Santo Agostinho, Camões, D. Dinis e Eça de Queirós. Entre as figuras tutelares do conhecimento, inscreveu Fernando Pessoa, companheiro da fulgurante entrada no movimento da vanguarda e do modernismo nacional.

Tapeçaria e parede (1959) no hotel Ritz

Salazar queria um hotel moderno, passaporte da nova Lisboa acabada de construir, e chamou vários empresários de peso para levar a cabo a tarefa. Entre eles Ricardo Espírito Santo e Manuel Queiroz Pereira. O luxuoso empreendimento foi inaugurado com grande aparato e a presença de inúmeros ilustres, que puderam apreciar, entre as muitas obras de artistas que participaram no projeto, a espantosa tapeçaria de Porto Alegre com desenho de Almada Negreiros, assim com a impressionante parede em mármore negro, com desenho inciso em folha de ouro, inspirado na mitologia grega