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João Braga: “Eu era mais anarquista do que outra coisa qualquer”

josé carlos carvalho

Tradicionalista, conservador ou mesmo reacionário, comemora por estes dias 50 anos de carreira. No seu habitual registo truculento e politicamente incorreto, passa em revista a política do Estado Novo, do 25 de Abril, do jazz, do espetáculo e, claro, do fado. Sem papas na língua

Quem é o maior fadista português vivo?
Eu nunca fujo às perguntas e não vou fugir, mas gosto sempre de assentar um ponto: defina fadista.

Está a pedir para definir fadista? 
Então peço-lhe a si para definir 
o que é ser fadista.
Uma coisa é a melhor voz, ou o melhor intérprete, ou o melhor cantor. O melhor fadista é uma coisa ou outra.

Não há ninguém que reúna isso tudo, só a Amália?
A Amália é o próprio fado e isto não tem qualquer ponta de exagero porque há um fado antes e depois da Amália. A Amália fazia tudo espontaneamente e com uma intuição absolutamente divina. Tinha um ouvido extraordinário e modificou completamente o fado. Estou a falar do fado tradicional, porque há muita coisa a que chamam fado que não tem nada que ver com o fado. O fado o que é? É uma coisa que tem que ver com a vida, com o destino, a fortuna, a sorte ou a má sorte de cada um de nós. E o fadista é aquele que consegue transmitir a emoção que sente quando canta fado a quem o escuta.

Deixe-me voltar à pergunta inicial. Os mais falados são um homem 
e uma mulher. Ele chama-se Carlos do Carmo e ela chama-se Mariza, 
isto diz-lhe alguma coisa?
Sim. Diz-me o seguinte: esses dois nomes são excelentes cantores que nós temos em Portugal. Quer o Carlos quer a Mariza cantam muitíssimo bem. Conheço tanto um como o outro, sou amigo dos dois. Convivo mais com o Carlos por razões geracionais, mas o Carlos é um excelente cantor. O que é que faz um fadista? Este mistério que há… não tem mistério nenhum. A nossa sensibilidade não é sempre igual e o fadista, eu já explico o que é que o Camões dizia o que era o fadista, porque foi ele que introduziu a palavra fado na língua portuguesa. O fadista é aquele que canta ao fado.

Já vinha prevenido…
Cantar ao fado é um desafio ao destino, é desafiar o destino, aquele hábito irritante de terminar sempre da mesma maneira. O fadista nunca canta sempre da mesma maneira. Quer dizer que o fadista quando canta, deu ali uma voltinha diferente. Se essa voltinha, quando ouvirem noutro dia qualquer, se repetir no mesmíssimo sítio vocês aí começam a desconfiar: espera aí, isto é premeditado, não é espontâneo. E quando é espontâneo, é uma espontaneidade na qual o fadista não tem qualquer responsabilidade, porque é uma espontaneidade espiritual.

Mas, hoje, o fado não é igual 
ao dos anos 50 ou do século XIX: 
os principais artistas não vivem 
nas casas de fado, têm um tipo de carreira que ambiciona os grandes palcos, porventura inspirados 
na cultura das estrelas de rock.
Ou inspirados pelos seus agentes.

Ou inspirados pelos seus agentes, que é outra coisa que mudou 
nestes últimos 20 ou 30 anos. O que 
é que isso lhe parece, o que é hoje um fadista?
Hoje em dia, eu até já disse isto num espetáculo na Aula Magna, a Diamantina é licenciada em Matemática, a Maria Ana Bobone é licenciada em Comunicação Social na Católica, a Mafalda Arnauth é licenciada em Veterinária, a Katia Guerreiro é licenciada em Medicina, a Cuca Roseta é licenciada em Psicologia… A grande diferença que há entre as fadistas de antigamente e as de hoje é que antigamente eram licenciosas e hoje são licenciadas. Porque o resto do fado, a grande qualidade do fado é ser sempre a mesma coisa. Sabe porquê? Porque o poente, que é uma coisa deslumbrante, é sempre a mesma coisa; o amor, que é outra coisa deslumbrante, é sempre a mesma coisa. Eu quando ouço falar em novidade dá-me vontade de rir porque já está tudo feito.

Os grandes fadistas de hoje, 
Carlos do Carmo, Mariza, Ana 
Moura, Camané, Carminho têm um 
tipo de carreira muito diferente 
daquela que existia no século XX. Aquela coisa das casas de fado 
em que também esteve presente, 
nomeadamente em Cascais 
e no Estoril, nos anos 60 e 70.
Nos meus anos 60, eu era completamente amador, cantava no Estoril, no Galito.

Mas quem não era?
Já havia profissionais, a Amália desde logo. E a Maria Teresa de Noronha também era muito bem paga, com cachês muito elevados.

Mas, no seu caso, era completamente amador?
Eu era completamente amador. No Galito, eu não pagava nada, comia e bebia, cantava e não recebia nada. No Estribo era assim; na Taberna do Embuçado, a mesma coisa. O João Ferreira-Rosa não me pagava nada. Eu ia para lá com alguém jantar, cantava e ele não me pagava. Andámos neste amadorismo até sair o meu primeiro disco e é por causa disso que nós estamos aqui.

Porque vai fazer agora 50 anos 
de carreira.
Sim, faz 50 anos em janeiro e, de facto, a minha vida mudou porque decidi iniciar uma carreira dentro do fado a cantar fado e posso dizer que já que tive cachês muito apreciáveis. Mas deixei de cantar todos os dias. Não consigo cantar dias seguidos, pois isto puxa tanto por mim em termos emocionais que não me recomponho na sexta para poder cantar no sábado. Naquele tempo, eu ainda cantava todos os dias porque estava a aprender e porque era na paródia e copos e namoradas e isto e aquilo. Aliás, comecei a cantar fado por causa de uma miúda americana, filha de um engenheiro que estava cá a fazer a ponte Salazar. Cantava com o meu amigo, que morreu muito novo, o Chico Stoffel, que tocava viola e uma delas disse: “Quero ir ouvir fado.” E eu disse: “Isso é uma porcaria e uma chatice”, mas lá fomos ao Galito. Cheguei lá e vi uma data de malta a cantar com os pés e a sentir com o fígado e pensei “se me atrever a cantar não faço má figura”. Deram-me logo aí, nessa primeira noite, a letra do ‘Embuçado’ e a das ‘Tranças Pretas’, na altura ligeiramente aldrabadas.

Portanto, foi essa sua amiga americana que o levou a mudar de vida?
Exatamente.

Deixou-se das músicas brasileiras 
e do jazz?
O jazz nunca o perdi de vista e a bossa nova também não. Aliás, já gravei várias coisas do Vinicius e do Tom Jobim e de Baden Powell.

Como foi essa sua ligação ao jazz? Conte lá aquela história de ter recebido cá o Miles Davis 
e as exigências que ele fez.
Comecei a gostar de jazz por causa do pai de um amigo meu. Depois, esteve cá em Lisboa o “Satchmo”, o Louis Armstrong, que fui ver com o João Paulo Guerra, que era fanático por jazz, mais o meu irmão Carlos. Foi assim uma coisa especial: o Monumental estava recheado de gente e foi lá que conheci o Luiz Villas-Boas que mais tarde, em 1968, passou a ser o produtor dos meus discos. Eu saí da editora Alvorada, que me espremeu como se espreme um bom limão, e fui para a Philips, que era dirigida por um tipo espetacular que se chamava António Coelho Ribeiro. Olhe, o Carlos do Carmo gravava para lá, nessa altura, tal como o Fernando Tordo, o Paulo de Carvalho, toda essa gente antes de ir para a Valentim. E ele obrigou-me, entre aspas, a ir defender uma canção da Rita Pinto Leite Olivais no Festival da Canção, ‘O Amor de Raiz’, por acaso uma coisa muito bonita. Sempre por causa de um poema. A música, enfim, depois deu uma volta porque eu fui a Madrid gravar o tema nos estúdios da Polygram e lá consegui ficar em quarto lugar. Conheci o Villas no show do Louis Armstrong e depois, a 11 de julho de 1971, pouco antes de se casar, ele ligou-me para me dar uma má notícia. “Morreu o Armstrong.” Eu gostava muito dele, por razões óbvias, e então isso foi um pretexto para irmos sair, jantar fora e apanhar um pifão à custa do Armstrong. Acabámos na Taberna do Embuçado, já de madrugada, com o Villas um bocadinho aviado, que me disse que nesta porcaria não se pode fazer nada. “Ando há vinte anos para fazer um festival de jazz, tu achas normal?” “Mas o que é que tu tentaste”, perguntei eu. E ainda: “Quando é que o Newport Festival regressa da América depois da tournée de verão?” Ele foi ao telefone do Embuçado e ligou para a Simone, que era a agente que ele conhecia muito bem do dito Newport Jazz Festival, e ela disse-lhe que era em novembro. “Eh, pá, isso é porreiro. Vamos fazer um festival em novembro.” “Tu és maluco, estamos em julho, tu não sabes do que é que estás a falar.” E eu: “Queres fazer o festival ou não queres? Então não te queixes da corja.” No dia a seguir ele telefonou-me mas só tinha escolhido gajos do free jazz para o cartaz. E eu disse-lhe que para mim isso não era jazz. Não era por ele ser do partido comunista, era porque esteticamente aquilo não me dizia nada.

E um dos que vinham era o Miles Davis.
Era logo um dos primeiros que eu escolhi e ainda por cima o septeto que vinha com o gajo era uma coisa inimaginável, juntava o Keith Jarrett [piano elétrico], Gary Bartz [saxofone], Michael Henderson [baixo elétrico], Don Alias e James Foreman [percussão] e Leon Chancler [bateria]. Tudo gajos fantásticos. Eu fiz uma coisa à minha maneira, arranjei um elenco sem falar com ninguém e fui falar ao Banco do Alentejo que era do grupo Quina. Fui propor aquilo e eles arranjaram-me uma reunião onde estava um tipo chamado Vicente França a quem expliquei o que é que ia ser o festival. E diz-me o tal Vicente França: “Senhor João Braga, e se organizasse o festival com a Simone de Oliveira e o António Calvário?” Eu, nessa altura, tinha 26 anos, e disse assim: “Ouça, sr. Vicente França, e se o senhor fosse…” A sério! E acabou a reunião. Quando fui falar com a administração do Banco do Alentejo, dizem-me: “Então você vai mandar o homem para a pata que o pôs e tal…” É claro que o parecer foi o mais negativo que se possa imaginar. Então, e agora não há festival? A sorte é que ele gostava de jazz e pôs o seu aval pessoal.

Quem é que subscreveu?
O administrador do Banco do Alentejo. Está ali a mulher dele [e aponta para um quadro com um retrato pendurado na sala onde decorre a entrevista]. Era o meu futuro sogro, Filipe Nobre Guedes, que gostava de jazz. Tinha sido diretor da Pan America, passava a vida na América e adorava jazz. Ele pôs o aval pessoal e eu fiquei à rasca. Se isto corre mal… e fui dizer ao Villas: “Já tenho patrocinador.” “Mas, ó João, deixa entrar aí o Ornette Coleman.” “Luiz, tudo o que tu quiseres, mas não me peças o free jazz.” Então, fui a Paris, ao Blue Note, jantar com a agente e fizemos ali um contrato de promessa de compra e venda do festival. Aquilo custava uma pipa de massa. O Villas queria fazer ou no Coliseu ou no Campo Pequeno. Mas eu, como estava familiarizado com Cascais, queria ousar e fazer uma coisa maior. Onde? No Pavilhão de Cascais, que é uma coisa monumental onde cabe lá gente que nunca mais acaba. A coisa mais bonita do festival, para mim, porque para o Villas foi o sonho da vida dele, mas para mim a coisa mais bonita foi o Fernando Tordo com o Paulo de Carvalho e mais não sei quem enfiarem-se numa camioneta e irem buscar cadeiras a Lisboa. Não havia cadeiras para a plateia. A malta do Rádio Clube Português foi buscar não sei o quê para a instalação sonora, o J.J. Gonçalves que era representante das coisas da alta fidelidade foi lá, houve um conjunto de boas vontades… Foi a coisa mais bonita: a malta queria tanto que aquilo se fizesse que era tudo a contribuir generosamente. Ninguém veio para ganhar. Os únicos que ganharam fui eu e o Villas e não ganhámos pouco. Não digo quanto por causa dos mesmos. O Villas queria fazer um festival com duas mil a três mil pessoas, isto quando era ainda para ser no Campo Pequeno ou no Coliseu. Foi um êxito tremendo e tivemos 12 mil pessoas. Havia malta acampada, que viera do Porto, à volta do pavilhão.

E a história do Miles Davis, que foi buscar ao aeroporto?
O Miles queria que um dos organizadores o fosse buscar ao aeroporto. Isso é fácil, vou eu. Depois queria uma suite num hotel no Estoril. Também se arranja. Depois queria um motorista branco fardado, com boné e com dragonas. “Não pode ser azul?” “Não, tem de ser branco.” E quer isso tudo e mais alguma coisa. E pronto, tratei de tudo e lá fui buscá-lo. Ele apresentou-se com um cabeleireiro afro-americano e com uma miúda do mesmo género, muito gira por sinal, e eu peguei neles, fiz as formalidades todas do aeroporto e enfiámo-nos no carro. Fui à frente e eles atrás mais o tal motorista branco. Ele ainda queria outra coisa: quando acordasse, queria um pugilista para levar na tromba. Adorava boxe e então pediu um pugilista que fosse branco e que estivesse ali disposto a levar na tromba quando ele acordasse. Fui ali ao Rio de Janeiro, no Bairro Alto, e arranjei lá um mangas, um gabiru. Quando saímos do aeroporto e começámos a descer os acessos em direção à Marginal, ele sempre que via passar um preto entrava com piadas racistas. Às tantas, em Caxias, havia ali um prédio que já tinha sido uma boîte. Estava em obras, andavam lá uns tipos africanos nas obras e ele vira-se para mim — e eu já estava por aqui com as piadas racistas — “Olha, vocês cá em Portugal ainda importam escravos de Cabo Verde para as obras?” “Não fazemos outra coisa”, respondi-lhe. “Ai sim? E pagam-lhes?” “Pagamos, olhe pagamos tanto que os gajos às tantas piram-se daqui e vão para a América e tornam-se músicos de jazz!” E o gajo desatou a rir-se às gargalhadas e a partir daí acabou com as piadas racistas. Bom, instalei-os, e diz-me o Miles: “I need a doctor. It’s not for me, it’s for my hairdresser.” Parece que ele tinha uma coisa que se apanha quando são promíscuos. Então fui chamar um médico dermatologista, Augusto Navas da Fonseca, e fui dizer-lhe que o gajo tem aquilo num estado lastimoso. O Miles voltou-se e pediu drogas ao Navas. E ele disse-lhe: “Isso não, eu sou dermatologista não receito coisas dessas.” E eu: “Ó pá, o que é que tu queres?” Então o gajo queria uma coisa que em português tinha o nome de profamina, uma droga que geralmente os estudantes na véspera dos exames tomavam para estar com a memória muito ativa. Fui falar com os médicos todos que conhecia a pedir profamina e disseram-me: “Tem cuidado, não andes a tomar isso!” “Eh, pá, não é para mim, é para o Miles Davis”, e lá arranjei três copinhos de profamina e o gajo a tomar aquela porcaria uns atrás dos outros. Isto no dia do espetáculo. E depois, claro, no pavilhão, o tipo a tocar, eu estava atrás do palco e as costas do gajo pareciam uma cascata. Isto em novembro! Entretanto, tive um problema, o gajo do Rio de Janeiro do Bairro Alto levou tanta porrada que lá tive de o levar para a Mouraria. O Miles estava todo contente, este é que é bom!

josé carlos carvalho

Mas quem olha para o fado e para os fadistas da sua geração, a ideia que transmite é que era um meio muito conservador, muito machista. Como é que conviveu com essas especificidades todas?
Eu convivi bem, eles é que conviveram mal. No terceiro disco que gravei, saiu uma coisa chamada ‘Velhinho Fado Menor’, com uma letra de uma senhora da Chamusca chamada Maria Manuela Cid. Diziam esses tais que eu não era fadista, que não sabia cantar o fado. Mas os fadistas deviam cantar o fado menor e eu gravei o menor para lhes mostrar como é que se canta o menor. O Camané e o irmão Pedro Moutinho, aqui há uns anos, disseram-me: “Estávamos até às tantas da madrugada a ouvir os seus discos e aquele ‘Velhinho Fado Menor’, eh, pá, aquilo é que é o menor”. Com elas, por acaso, sempre lidei melhor, porque elas não eram machistas. Com os machistas é que eu me dava mal porque geralmente têm várias características que eu não perfilo e uma delas é a ciumeira, que é uma coisa completamente ridícula na minha perspetiva e na minha maneira de ser. O meio fadista não era um meio fácil, a Amália tinha invejas por tudo quanto era sítio. Era raríssimo o fadista ou a fadista que não tivesse inveja da Amália. Eu lembro o João Ferreira-Rosa e a Teresa Tarouca que, naquele tempo, fizeram com mais alguns fadistas o papel que estas agora estão a fazer nesta nova geração, a dar uma nova roupagem ao fado. A responsabilidade por essa ânsia não é delas mas dos agentes. Eu não tenho agente, as pessoas tratam diretamente comigo, mas hoje em dia é muito complicado fazer-se isso porque há uma espécie de irmandade e quem tentar fazer alguma coisa fora dessa irmandade torna tudo muito complicado. A Cuca Roseta veio aqui dizer-me: “É normal pedirem 6500 euros por um espetáculo meu e eu só vou ganhar 630 euros?” Respondi-lhe: “Não, não é normal.”

Porque é que o João esteve exilado em Espanha durante mais de um ano?
Estive de outubro de 1974 a fevereiro de 1976. Eu estava a passar o verão em Cascais, vivia na Rua D. João V, no 16, 3º Dtº, e falou-me uma vizinha a dizer: “Ó João, põe-te a pau que vieram cá tipos com braçadeiras vermelhas e fuzileiros navais à tua procura.” “À minha procura? Mas para quê?” “Não disseram para quê e vinham com ar ameaçador.” E eu, a partir daí, pus-me a pau. Até que houve uma coisa chamada manifestação da maioria silenciosa, a 28 de setembro, a que eu estava ligado porque foi-me pedido formalmente pelo general Spínola, que por acaso nessa altura era o chefe de Estado, tendo ao seu lado o coronel Fernando Cavaleiro e o major Sanches Osório, para organizar uma manifestação ao Presidente da República ali em Belém. Eu não achei mal nisso e pus-me em campo mais uns maduros a tratar do assunto. Ficou tudo muito nervoso. O Soares disse num comício em Setúbal: “A reação não passará”, imitando os republicanos espanhóis, enquanto o Cunhal, num tom menos cordato, dizia na Amadora, num comício: “A reação começa a meter os dentes de fora, vamos partir os dentes à reação.” Isto é uma coisa que toda a gente pode confirmar na imprensa da época. Nessa altura, estava à espera do meu filho Miguel, a minha mulher estava grávida de sete meses, e tínhamos um miúdo pequenino que tinha acabado de fazer dois anos, o Filipe. Eles foram para Espanha com os meus sogros, para Madrid, e eu peguei em mim e comecei a engendrar um esquema. Falei com uns amigos meus de Elvas e o problema era chegar a Elvas porque havia barricadas por todo o lado. Eu não era propriamente um anónimo, tinha a minha fotografia na estação de Cascais, no Edifício Castil… “Procura-se!” O Otelo Saraiva de Carvalho emitiu um mandado de captura em meu nome. Motivo: em branco. Porque não tinha motivo. Emitiu porque sim. E se algum anormal não gostasse de mim por uma razão qualquer, clubística, artística, fosse o que fosse… Consegui chegar a Elvas, porque o Spínola, no dia 30 de setembro, anunciou que ia fazer um discurso e deixou toda a gente suspensa. Ele tinha mobilizado uma data de gente para uma manifestação, a tal maioria silenciosa que ele começou em julho no Alfeite. Fez um discurso às tropas e disse: “Quando é que a maioria silenciosa se levanta e se manifesta, acorda e se manifesta?”, um apelo formal, pela televisão, à manifestação. A esquerda radical e a extrema-esquerda montaram barricadas por tudo quanto era sítio, à procura dos reacionários da manifestação.

Em Madrid chegou a atuar como cantor?
Tive lá umas coisas poucas, os espanhóis não são muito de fados.

Mas continuava a dar-se com a esquerda, com o Villas-Boas, o Manuel Alegre a escrever-lhe poemas…
Ainda agora me mandou um giríssimo! Vamos lá a ver uma coisa falando do poder democrático: não há poder democrático, há poder. O problema é que nas ditaduras os tipos que são convidados para o poder e aceitam sabem que estão a fazer uma coisa que lhes vai proporcionar mandar nos outros. Nas democracias, no meu entendimento, o poder serve para uma coisa: quem chega ao poder tem de servir quem lho deu, tem de servir quem o elegeu e tem de aceitar as críticas que lhe fazem. Não é à menor crítica que se rotula um tipo de reacionário, de fascista, de inimigo do povo, nazi, como me rotularam em 75, em 76 e 77.

Mas sabe que tem essa imagem?
Tenho, mas não contribuo em nada para ela, foi-me criada. A alguém convinha que dissessem: “Eh, pá, esse gajo é um desbocado, agora com a idade que tem diz coisas.” Durante o Estado Novo havia uma revista chamada “Flama”…

De católicos progressistas 
de esquerda...
Completamente, e fizeram-me uma entrevista grande não de fim de carreira mas de princípio de carreira, e terminavam a entrevista assim — isto para mostrar um bocado a candura dos coronéis — “fora do fado quem é que o João gosta de ouvir cantar em Portugal?” E eu respondi: “José Afonso.” Fim da entrevista. Acabava assim. Quando fui ler a entrevista, o que lá estava era “o autor dos ‘Cantares do Andarilho’”. Isto é de um ridículo… Toda a gente sabia que era o Zeca Afonso, os gajos não queriam era pôr José Afonso. Isto é infantil. Quer dizer, antes do 25 de Abril, em Cascais, com 18 anos, quando comecei a cantar fado, íamos para o Cartola e fundei lá a Rádio Cartola Livre onde estava a Maria Helena, mulher do Varela Santos, o Rogério Paulo, o João Paulo Guerra, o Viriato Freitas que era anarquista e eu que também era mais anarquista do que outra coisa qualquer porque nunca alinhei com coisa nenhuma a não ser com a minha cartilha. Passei por isso tudo e pela fase do LSD também. Deram-me uns smarties, foi sempre sem querer, palavra de honra, só me lembro de mim a olhar para mim.

O Rudolf Nureyev quando esteve cá ia sempre à Taberna do Embuçado. Tenho as fotografias do gajo não sei onde, lá no baú, eu a dançar com o gajo e com a Amália. E em Londres fui assistir, na segunda fila, com esse grupo todo e com o Nureyev, ao “Hair”. A música era fabulosa e então estávamos ali, um grupo enorme, e aquilo a abarrotar de gente. No grande final, com uma cadência porreira, de repente eles vêm à boca de cena, e eu não sabia que aquilo ia ter um significado na vida portuguesa muito grande porque eles distribuíram cravos! De repente, as luzes focam o Nureyev, que era uma vedeta mundial, e eles dão-me uma passa que eu tive de fumar. O Nureyev começa a dançar sozinho em palco. Foi um final fabuloso.

Também se meteu na fundação 
daquele jornal de música, 
o “Musicalíssimo”?
A ideia foi minha. Havia um gajo em Portugal com um talento extraordinário que se tivesse nascido na América tinha sido mais rico do que o Trump. Era o João Martins, que tinha programas na Rádio Renascença, o “Vigésima Terceira Hora”, e era meu produtor na Alvorada. Na altura, o que me lançou efetivamente foi o “Zip Zip”, porque aquilo tinha uma audiência na televisão absolutamente impensável. A mim e a uma data de gente como o Manuel Freire, o José Barata Moura, o Pedro Barroso… toda essa malta foi lá. Fadistas foram poucos, aí uns dois ou três, e eu fui lá três vezes. Fui o único fadista que foi lá três vezes e eu sei que aquilo tinha uma audiência brutal, de tal maneira que a Companhia das Águas lhes disse que sabia quando é que era o intervalo do programa. E o programa, para a época, era muito para a frente, muito avançado. Aquelas coisas com o Almada Negreiros… Eram entrevistas atrevidas para o regime em que se vivia, mas o chefe da banda já estava encostado às boxes e o Marcello estava a querer liberalizar aquilo. Falava muito em democracia mas não tomava a iniciativa e depois deu no que deu. A minha relação com os poderes nunca foi boa.

O “Musicalíssimo” nasce com o João Martins, que era de facto um tipo genial, tinha a Impacto na publicidade e mais mil e uma coisas e uma vez disse-me: “Tu não queres trabalhar na Impacto?” Achei piada à minha passagem pela publicidade mas achei ainda mais piada quando ele, juntamente com o Conceição e Silva, arquiteto, fizeram uma coisa chamada publicações Nova Idade. Ele queria ter uma editora e convidou para diretor o Vítor Direito. Aquilo era para lançar um jornal de automóveis chamado “O Volante”, que já tinha existido. E eu uma vez disse ao Vítor Direito: “Olha lá, ó Vítor, e se a gente fizesse um jornal de espetáculos, só há o ‘MC Mundo da Canção’”? E ele disse: “Tens nome?” “Tenho”. Fomos ali ao lado do Campo das Cebolas registar o nome “Musicalíssimo” em nome dos dois. A primeira entrevista foi feita por mim ao Zeca Afonso, nas páginas centrais.

Continuou a colaborar na imprensa, foi sempre mantendo umas colaborações aqui e ali. Em “O Independente” e também em revistas.
Sim, uma coisa que era do Armando Jorge Carvalho, o “Notícias” e em “A Capital”, durante largo tempo, uma crónica na última página. Era uma crónica que me deu um gozo fazer mas que me deu muito trabalho. Ocupava-me tanto tempo que eu nunca mais quis repetir aquela experiência. Uma coisa diária para o “Diário de Notícias”, do Mário Resendes. Ele convidou-me e eles fizeram o título e eu não gostei nada pois era ligeiramente inestético mas tinha piada: “Do Ancão aos Tomates”!

Como é que vai comemorar estes 
50 anos de carreira?
A principal celebração é a cantar. Continuo a cantar regularmente, continuo com uma voz estranhamente jovem, digamos assim se me é permitido, mas é o que me dizem. O timbre mantém-se e o Mário Andrea diz-me que tenho as cordas vocais mais deslumbrantes que ouviu. Está agendado um espetáculo em Lisboa, no Tivoli, e outro na Casa da Música, no Porto. Eu tenho um disco gravado em 1980, em que houve um quid pro quo, porque nessa altura eu ainda estava muito próximo da minha escapadela para Madrid, da estada lá e do exílio. E gravei umas coisas assim um bocadinho, digamos, fortes. Para vocês terem uma ideia, uma das quadras era “Outubro, Maio e Abril/ Cinco, dois oito, dois cinco/ Reina a canalha mais vil/ Neste verde, branco e tinto”. E depois ia por aí fora, eram coisas que não cantaria hoje.

Esse disco ficou gravado mas não foi publicado?
Pois, chegámos a um acordo, eu e a casa Valentim de Carvalho, e o disco não saiu. Em 1990, dez anos depois, saiu uma das coisas que eu cantava lá e que foi gravada por outra personagem da Valentim de Carvalho na altura, que depois foi para deputado, Nuno da Câmara Pereira, que é o ‘Arraial’. Mas eu estive outro dia a ouvir esse disco e há coisas que eu já não me lembrava de ter gravado e que têm muita piada e são bonitas. De maneira que, tenho aí uns poemas novos do Alegre, tenho um do Torga, tenho um meu. Tenho a certeza de que as pessoas vão gostar; é um bocadinho brejeiro mas tem alguma piada. É atrevidote e nada político. E o Alegre também fez mais dois poemas nessa onda, de maneira que estou a pensar gravá-los agora e juntá-los aos outros, mas não a todas as gravações. Vou aproveitar duas ou três. Alguns não vêm a propósito, mas os outros são intemporais. Foi, aliás, em 1980, que aprendi que só se devem gravar coisas intemporais. As coisas temporais morrem. E para uma coisa mais intimista tenho um livro praticamente pronto que é uma autobiografia.

Já tinha publicado outro.
Sim, esse livro é um livro para os amigos. É uma coisa simpática. Este é sobre os negócios à parte e pode ter algumas coisas assim um bocadinho mais, não se pode agradar a toda a gente. Mas estabeleci um princípio, uma regra, a mim mesmo na feitura desse livro: todos os relatos que lá faço, tirando episódios pitorescos que não chateiam ninguém, estão gravados em entrevistas aos jornais, às televisões ou às rádios. Ou há testemunhas daquilo que eu afirmo. Não cito ninguém que tenha morrido. Há quem faça isso mas eu recuso-me a fazer e acho feio.

Tudo em 2017: o concerto, o disco 
e o livro?
Comecei a cantar em 1963, mas era amador e só contabilizo a partir da saída do primeiro disco, que foi em janeiro de 67. E, portanto, são 50 anos certos.

50 anos depois, sente o mesmo 
entusiasmo quando canta, a mesma alegria. O que mudou ao longo destes 50 anos para si como intérprete, 
fadista e cantor?
Nos primeiros anos, 1967, 68 e 69, eu cantava para mostrar que bem que eu canto. Olhem bem como se canta o fado. E depois perdi essa bazófia e passei a cantar mais para mim, passei a cantar mais comigo. E, sobretudo, passei a cantar e a integrar um espírito como se fosse uma banda, eu e os guitarristas. Porquê? Porque à medida que fui avançando no tempo, os guitarristas iam-se mantendo os mesmos e estabeleceu-se uma grande cumplicidade entre nós. Isto é muito difícil de explicar, é uma sensação de alegria espiritual que uma pessoa sente quando está a cantar, quando faz uma coisa diferente, como disse no princípio da nossa conversa.

Pode deduzir-se que se sente hoje um fadista mais humilde?
Humilde é bom.

E mais de equipa. Não é o fadista que brilha mas que é de equipa.
Ninguém é especial por causa daquilo que faz, por causa do dom com que nasceu. Pode é ser altamente criticado se não utilizar esse dom, por desperdiçar esse dom. As pessoas são especiais quando fazem coisas que as tornam especiais, quando fazem coisas além da sua própria pessoa. Quando fazem coisas a beneficiar os outros. Quando prestam um serviço.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 21 de janeiro de 2017