Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Esta noite sonhei com Pomar

MURAIS Mandados tapar por ordem da polícia de Salazar, os murais de Júlio Pomar no cinema Batalha podem agora ser recuperados

d.r.

A censura salazarista mandou tapar os murais concebidos por Júlio Pomar para o cinema Batalha. Ao reactivar o edifício, a CM do Porto pode e e deve tentar chegar a acordo com o pintor para recuperar os frescos como forma de resgatar a memória de um passado mutilado

Na verdade já nem me lembro bem se sonhei mesmo com Júlio Pomar durante as escassas horas de sono que antecederam o muito madrugador despertar necessário à escrita do Expresso Curto de hoje. Pode até alguém ter-me sugerido uma qualquer ideia da qual terá resultado uma associação à imagem do pintor. Para o caso é pouco relevante. O importante é partilhar uma hipótese que, a concretizar-se, essa sim, seria de sonho.

Dá-se o caso que, como foi já noticiado, a Câmara Municipal do Porto conseguiu por fim estabelecer um contrato de aluguer do até agora abandonado cinema Batalha. Será devolvido à atividade, pelo menos nos próximos 25 anos, mediante o pagamento aos proprietários de uma renda de 10 mil euros mensais. Para isso, vão ocorrer obras de requalificação do edifício, a cargo do arquiteto Alexandre Alves Costa.

MURAIS Mandados tapar por ordem da polícia de Salazar, os murais de Júlio Pomar no cinema Batalha podem agora ser recuperados

MURAIS Mandados tapar por ordem da polícia de Salazar, os murais de Júlio Pomar no cinema Batalha podem agora ser recuperados

d.r.

Ora, de regresso à tal suposição de sonho, imaginário ou não, parece ser esta uma oportunidade única para resgatar a memória perdida do cinema Batalha, devido a um brutal ataque da polícia política do salazarismo.

A história já por aqui a contei noutra ocasião, mas vale a pena ser recordada. Em 1944, quando o arquiteto Artur Andrade projeta um novo cinema para aquela praça, além de incluir um baixo-relevo na fachada, de Américo Braga, resolve convidar um jovem de apenas 20 anos para pintar dois murais. Trata-se de Júlio Pomar, então a frequentar a Escola de Belas Artes do Porto por ter perdido todas as esperanças de fazer bom trabalho na Escola de Belas Artes de Lisboa. Pinta um mural principal com mais de 100 metros quadrados, muito inspirado nos festejos de S. João. Concretiza-o com recurso a andaimes e novas técnicas de pintura.

Inicia os trabalhos dos frescos em 1946. O maior ocupava uma parte relevante do 'foyer' principal do edifício e o mais pequeno fora pintado numa parede junto ao balcão do cinema. Na data escolhida para a inauguração do Batalha, 3 de junho de 1947, os murais não estavam concluídos. O pintor, com outros elementos do Movimento de Unidade Democrática, fora preso em abril por ordem da PIDE, a polícia política do regime de Oliveira Salazar. Apenas em outubro daquele ano, Pomar, de novo em liberdade, consegue rematar o trabalho.

rui duarte silva

A história não acaba aqui. Os zelosos polícias defensores da moral e dos bons costumes, e muito em particular o presidente da Câmara de então, Luís de Pina, viram naquelas pinturas um perigoso ato subversivo. Não há notícia de que tenham rasgados as roupas ou ficado com os cabelos em pé, devido ao choque provocado pelos murais em personalidades tão sensíveis, mas a verdade é que, por ordem governamental, os murais são cobertos para serem afastados dos olhares dos portuenses, não se desse o caso de desencadearem um qualquer movimento subversivo da ordem estabelecida. Um fanático radical de direita, Luís de Pina via subversão em todo o lado, ao ponto de, contou um dia Artur Andrade, ter mandado substituir as letras dos puxadores das portas do cinema. Segundo a sua leitura enviesada, as letras "C" e "B", longe de significarem Cinema Batalha o que pretendiam era, sub-repticiamente, invocar um mirabolante "Comité Bolchevista".

Júlio Pomar chegou a receber uma carta através da qual o informavam que os conteúdos representados “tecem uma crítica social”. Em junho de 1948 os frescos eram mandados tapar pela censura salazarista e assim se perdia, pode dizer-se para sempre, o contacto direto com a criação singular de um artista em construção.

Quando se diz “para sempre”, é bom ter a noção da transitoriedade das eternidades. Rui Moreira, presidente da CM do Porto, tem agora a possibilidade de fazer reverter aquele despudorado ato censório de modo a devolver os murais à cidade. Júlio Pomar ainda está vivo e existem imagens da obra criada em 1946.

d.r.


A conjugação de vontades pode fazer renascer o que, em boa verdade, quase nem viveu depois de ter sido dado à luz. Poderá estar nas mãos de Júlio Pomar fazer com que o sonho, afinal, se torne realidade.