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Spielberg, faz a América grande. Outra vez

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Uma nova biografia de Steven Spielberg, escrita pela feminista Molly Haskell, é uma das mais recentes novidades editoriais. E faz-nos sonhar com uma certa ideia de América

O fim de semana que acabou de passar foi pródigo em mais tweets irascíveis, conferências de imprensa inflamadas e pouco factuais, discursos vazios e fáceis (ainda a ressoar: “Estou com vocês a 1000%”, citando Donald Trump, no seu discurso pela sede da CIA, a agência de serviços secretos norte-americana). Por isso, no início desta semana, a sugestão de leitura até pode parecer inusitada, mas trata-se de uma tentativa de fazer novamente grande a América.

Não a de Trump (e do seu slogan de campanha vencedor: “Make America Great Again”), mas a América do sonho americano, a América dos anos 80, dos seus jeans e bonés, das bicicletas e dos miúdos a pedalarem livres pelas estradas dos subúrbios norte-americanos. A América que alimentou a infância e os sonhos do mundo ocidental. A América da geração que cresceu com Steven Spielberg; que se fez companheira do pequeno Elliott e torceu para que ele conseguisse ajudar um extraterrestre a voltar para casa; que escondeu a cara na almofada quando o pai revia a VHS com aquele filme do tubarão mais maléfico do mundo; que chorou (e se apaixonou, no caso das meninas) pelo miúdo do Império do Sol; que reviu 1000 vezes o Templo Perdido de Indiana Jones (e que espera ansiosamente pelo número 5 desta coleção, que se estreará em 2019); que sucumbiu emocionalmente (e entendeu, pela primeira vez) ao peso do Holocausto com a humanidade de Oskar Schindler; and so on.

RELIGIÃO. Com “A Lista de Schindler”, Spielberg exprimiu, pela primeira vez, de forma livre e aberta, a sua herança judaica ortodoxa

RELIGIÃO. Com “A Lista de Schindler”, Spielberg exprimiu, pela primeira vez, de forma livre e aberta, a sua herança judaica ortodoxa

A América é a América porque é também o berço de Spielberg. E essa América continuará a ser grande. Agarremo-nos a isso. O lançamento de “Steven Spielberg: A Life in Films”, da autoria da crítica e feminista Molly Haskell, não podia ter chegado em melhor altura — pelo menos para os fãs (e já saudosistas) de uma determinada América (e que, já agora, para mostrar que não há aqui preferências e desdéns políticos, cresceram a adorar a ideia do sonho americano, que era também o sonho americano de Ronald Reagan). O livro faz parte da coleção que Yale dedica às “Vidas Judias”. O objetivo é dar a conhecer a vida de um homem, judeu, através da sua obra e que, sobre isso, disse um dia: “Everything about me is in my films”. E consegue: “A investigação aqui é vívida, a crítica profundamente informada, e a autora aborda a sua missão com uma calma interrogação que é um dom muitas vezes apenas concedido ao antropólogo que, de uma posição exterior, mantém-se impermeável às influências da tribo”, escreve o The New York Times.

Molly Haskell (nascida em 1939) é uma antiga crítica do The Village Voice e da Vogue e autora da tese (de 1974) “From Reverence to Rape: The Treatment of Women in the Movies”. E não é propriamente uma grande fã de Spielberg — que não concede grande atenção aos críticos de cinema nem tão pouco aos jornalistas, recusando-se a grandes entrevistas. Também não quis falar com Haskell para a elaboração deste livro e, talvez por isso, a autora tenha ido tão fundo na investigação e se tenha sentido tão livre na sua escrita.

Um homem com os seus medos

Como conseguiu Spielberg retratar tão bem a vulnerabilidade da infância nos ecrãs? Haskell acredita que isso tem que ver com um sentimento de temor que foi sempre tão presente no realizador, também ele um miúdo extremamente inseguro e que roía as unhas e cuja obsessão pelo tema da família está relacionado com o desagregar da sua própria, pelo divórcio dos pais. Um homem que, com algumas exceções (por exemplo, “A Cor Púrpura”, de 1986), teve sempre, segundo a autora, uma enorme dificuldade em fazer filmes sobre mulheres. Mesmo as suas heroínas — a começar por Willie Scott, a companheira de “Indiana Jones e o Templo Perdido”, de 1984, interpretada por aquela que se tornaria mulher de Spielberg, Kate Capshaw — sempre foram muito “maria-rapazes”, nota Haskell. O brilhantismo de Spielberg, acredita a autora, reside na forma como brinca com “os medos dos homens: das mulheres, da maturidade, do sexo”.

Spielberg, que cresceu entre New Jersey e o Arizona, chegou a admitir que, durante a sua infância e juventude, teve vergonha do judaísmo ortodoxo professado pela sua família e chegou a receber tareias de miúdos com convicções antissemitas. Só admitiu verdadeiramente a sua religião com o lançamento de “A Lista de Schindler”, tendo feito, depois desse trabalho, uma pausa de três anos nas lides cinematográficas para trabalhar para a Fundação Shoah, na recolha de histórias e memórias de sobreviventes do Holocausto.

As suas convicções políticas também são analisadas por Molly Haskell, se bem que o realizador norte-americano não faça grande alarde das mesmas. As suas convicções democratas são conhecidas, mas vividas apenas na sua intimidade. Spielberg, explica Haskell, tem na verdade aversão a qualquer identificação pública e, em 2012, chegou a atrasar a estreia de “Lincoln” para que esta não coincidisse com a reeleição de Barack Obama.

Steven Spielberg: A Life In Films, de Molly Haskell, ed. Yale University Press, 224 páginas, €18 (preço na Amazon)

Steven Spielberg: A Life In Films, de Molly Haskell, ed. Yale University Press, 224 páginas, €18 (preço na Amazon)

Spielberg nunca teve vergonha de ser o realizador que deambula entre o puro entretenimento com pipocas e o drama de prestígio (ou não tivesse, por exemplo, “A Lista de Schindler” estreado em 1993, no mesmo ano em que saiu o primeiro “Jurassic Park”). Aos 70 anos, continua a dar mostras de não se querer reformar. Cá aguardaremos pelas novas aventuras do septuagenário Indiano Jones. Fazendo figas para que resgate uma certa ideia de América, aquela que amamos. Outra vez.