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Sem Sombra e Sem Silêncio

Reinaldo Serrano

Estrela. Gregory Peck foi uma das maiores estrelas de Hollywood. Ganhou o Oscar em 1968

Estrela. Gregory Peck foi uma das maiores estrelas de Hollywood. Ganhou o Oscar em 1968

O pai de Hugh Grant entra num restaurante londrino. Acompanhado pela mulher, senta-se na mesa que lhe é indicada. O empregado, diligente e observador, sente que a cara masculina que se prepara para servir lhe é familiar, só não sabe de onde. Iniciado o serviço, o funcionário do restaurante não resiste e, volvidos alguns minutos, sente-se na obrigação de abordar o cliente: “O senhor vai-me desculpar mas conheço a sua cara de algum lado...”. O pai de Hugh Grant, cuja semelhança física com o ator britânico é por demais evidente, não abre o jogo e diz que não sabe de onde pode o empregado reconhecê-lo. Este não desiste: “Perdoe a insistência, mas não terá algum familiar conhecido... Tem filhos?”. O homem responde que sim, tem dois. “Ah!”, exclama o empregado; “E o que fazem eles?”. “Bem... um é ator e o outro é empregado bancário.” O empregado assenta, aliviado: “Empregado bancário, deve ser daí...”.

António Victorino d´Almeida está num bom hotel do Porto. Impecavelmente vestido, com o rigor que a profissão exige, o funcionário dirige-se ao maestro, com ar de reconhecimento cúmplice: “O Dr.. desculpe incomodá-lo, mas tenho de lhe dizer que há duas pessoas que particularmente admiro em Portugal: uma é o senhor doutor, e a outra é o maestro Vitorino d´Almeida.”

Com 77 anos de idade, o pai de Gregory Peck para numa estação de serviço algures nos Estados Unidos. Abastece o veículo com a imprescindível colaboração do funcionário da gasolineira. Cumprida a função, estende o cartão de crédito para proceder ao pagamento. Homónimo do filho, o nome destaca-se no pequeno retângulo. Primeiro surpreso, depois espantado, depois ainda desconfiado, o empregado não evita a pergunta: “O senhor é o Gregory Peck?”. Sem sobressalto, o pai do lendário ator responde: “Sim, mas ultimamente não tenho passado muito bem...”.

Das três históricas, verídicas, podia ter ficado pela terceira, mas não resisti a contar as outras duas, quanto mais não seja porque refletem de modo claro quão relativo é o conceito de fama, seja do ponto de vista do observador, seja do ponto de vista do objeto da mesma. Mas, na realidade, o que aqui se escreverá diz respeito à nobreza da arte da representação, da qual Gregory Peck (o ator, pois então) foi exemplo superlativo.

Nascido Eldred enquanto nome primeiro antes dos outros pelo quais ficou conhecido, Gregory Peck foi protagonista de um documentário datado de 1999, produzido e realizado pela norte-americana Barbara Kopple. “A Conversation With Gregory Peck” reflete o quotidiano inconformado de um homem tranquilo e resoluto que, ao longo de uma carreira de quase meio século, participou em mais de 50 filmes, muitos deles justamente considerados clássicos da história do cinema. De entre eles, a grande tela recordará para sempre a força da figura de Atticus Finch, o personagem saído do romance maior de Harper Lee, “To Kill A Mockingbird” (“Mataram a Cotovia”), que no cinema seria batizado entre nós com o título “Na Sombra e no Silêncio”. A coragem do determinado advogado sulista que chama a si a defesa de um negro acusado de violação constituiu um marco na história do cinema enquanto observador dos direitos humanos. O filme valeria a Gregory Peck o Óscar de Melhor Ator em 1962.

Além deste filme, Peck foi igualmente protagonista do soberbo (e menos conhecido) “A Gentleman´s Agreement” (“A Luz é Para Todos”), em que interpreta um jornalista que, na preparação de uma reportagem sobre antissemitismo se faz passar por judeu, como forma de vivenciar de modo próprio os preconceitos associados à sua “origem”. O filme de 1947 deu, entre outros, o Óscar de Melhor Realizador a Elia Kazan e a nomeação de Peck para Melhor Ator. A película foi pioneira em Hollywood na abordagem ao preconceito racial na sociedade norte-americana.

Só com estes dois títulos já Gregory Peck merecia ter conquistado um lugar de relevo na cinematografia dos Estados Unidos, mas os seus desempenhos em filmes como “As Chaves do Reino” (1942), “Duelo Ao Sol” (1946), “As Neves do Kilimanjaro” (1952), “Férias em Roma” (1953) ou “Moby Dick” (1956), entre muitos outros, granjearam-lhe fama, apreço e aplauso de público e crítica.

O ator morreu em 2003, com 87 anos. Quatro anos antes ainda percorria diversos palcos pelo vasto território norte-americano, em sessões públicas com plateias repletas que queriam ver de perto o homem e o ator que admiravam e que, em muitos casos, foi fonte de inspiração para inúmeras vidas que nunca saíram do anonimato. Ele próprio se sentiu de tal forma inspirado por Harper Lee, que um dos seus netos recebeu o nome da lendária escritora. A gravidez da filha de Peck é, aliás, um dos detalhes intimistas que acompanhamos nesta biografia viva e ao vivo do ator que nunca parou e que detestava a palavra reformado. O mesmo ator que, na vida real (expressão que tem tanto de popular quanto de irritante) viu um filho combater na Guerra do Vietname enquanto Gregory Peck contra ela se insurgia sem apelo nem agravo, mas sempre dentro de uma elegância que o acompanhou ao longo da vida.

O documentário está repleto de histórias e historietas que o próprio Gregory Peck se encarrega de contar — ele que queria ser lembrado de duas maneiras: enquanto pai e marido exemplar, e enquanto contador de histórias. Conseguiu isso e muito mais no que se mostra e no que se depreende ao longo dos 97 minutos deste documentário, que é simultaneamente um documento, e seguramente muito mais que “A Conversation With Gregory Peck”. A ver na Netflix ou na demais net que ainda encerra muitas portas atrás das quais há outras tantas surpresas. Que assim seja.