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Diz algo amoroso / Não me consigo recordar da emoção do carinho

Os últimos anos foram de descanso e descoberta para os The xx: Romy ficou noiva e chorou a morte dos pais, Oliver deixou o álcool, Jamie conheceu os caprichos da fama. Assim, os três amigos de infância cresceram; agora estão de volta e cantam histórias novas sobre o amor e a perda. Mas não esquecem a política, porque o mundo está esquisito. “Sempre dissemos que não queremos misturar música e política. A música é algo completamente diferente de tudo o resto no mundo. Mas se calhar é uma boa ideia assumir a responsabilidade”

Foi uma época estranha para os membros dos The xx: quando a última digressão, a correspondente ao então recém-lançado álbum “Coexist”, terminou em 2012, nenhum dos três soube o que fazer.

Para Romy Madley Croft, Oliver Sim e Jamie Smith, três amigos de infância com um gosto comum por misturar sons e cantar sentimentos, a vida tinha-se tornado aquilo: cantar todas as noites, encore após encore, festa após festa, até se encaminharem para os respetivos quartos de hotel sozinhos, cheios de energia mas sentindo-se vazios, em “piloto automático”.

De repente, pela primeira vez em largos meses, voltavam a casa, cheios de tempo para refletir, para pensar no que os unia e separava e para perceberem aquela amizade de há mais de 20 anos que parecia agora quebrada. Nessa altura, e particularmente no fim de 2014 e no início de 2015, os três amigos sentiram-se desunidos, como se tivessem crescido demasiado para que a magia pudesse voltar a acontecer quando se reunissem de novo em estúdio; mas felizmente, dois anos depois, chega o novo disco “I see you” para demonstrar que eles também se enganam.

Os anos que passaram entre o lançamento de “Coexist” e a revelação de “I see you” foram difíceis para todos, anos em que os três se viram individualmente a braços com a tarefa de crescer e de arrumar assuntos passados e, por outro lado, de conjugar esse crescimento com a amizade de uma vida – se Romy Madley Croft e Oliver Sim já se conheciam desde os três anos, quando frequentavam o mesmo infantário dos subúrbios de Londres, Jamie Smith recorda-se bem da altura em que, aos 11 anos, os três se mudaram para a mesma escola e passaram a dividir o xilofone nas aulas de música: “Acho que manter os melhores amigos por perto é a melhor coisa a fazer”, explica agora à NPR.

Crescer e enfrentar o passado

O projeto musical surgiu em 2005, o primeiro álbum (“xx”) em 2009, e com ele um sucesso aparentemente indomável de um trio que sabia cantar sentimentos sobre batidas, por vezes nuas e dando espaço às vozes introspetivas e simples de Oliver e Romy, outras vezes conquistando as canções e dando lugar a verdadeiros hinos de discoteca pela mão do engenheiro de som do trio, Jamie. Com milhões de álbuns vendidos e mais uns quantos prémios acumulados, os três amigos tiveram de perceber como dariam os próximos passos: como consolidar um sucesso crescente com a necessidade de se manterem relevantes musicalmente e, ao mesmo tempo, crescerem enquanto jovens que entram agora na casa dos 30.

Para Romy, boa parte da descoberta dos últimos anos teve que ver com a estabilidade que encontrou ao lado da namorada de longa data que recentemente se tornou sua noiva, a designer Hannah Marshall, e que lhe permitiu lidar com assuntos passados que continuavam por resolver. Afinal, foi logo aos 11 anos, quando começava a conhecer o novo amigo Jamie, que a vocalista perdeu a sua mãe; depois, aos 20, atuava ela em Paris por ocasião da primeira digressão da banda enquanto aproveitava o recente sucesso, soube da morte prematura do pai. Nos últimos anos, conseguiu “ligar-se à memória deles e enfrentar as coisas”, depois de anos a “ignorar as coisas e a seguir em frente”. “Aprendi que tudo volta”, conta ao “The Guardian”.

Foi essa viagem pelos sentimentos que reprimiu nos últimos anos que encorajou Romy a escrever sobre a perda precoce dos pais na nova canção “Brave for you”. “Eu vou ser corajosa por ti / Ficar de pé num palco por ti / Fazer as coisas que me assustam / Sei que queres que as faça (…) Eu tudo o que faço levo-te comigo / Mesmo que não estejas aqui, consigo sentir-te”, canta ela, numa composição dura e franca que antes não estaria preparada para revelar. “A demo acústica era muito emotiva, talvez demasiado, não é como com este instrumental. Agora soa muito mais a uma canção triunfante e não apenas a uma canção triste. Estou agradecida por isso, em palco vai ajudar-me a não me afundar demasiado num contexto de luto”, explica Romy.

Esse acrescento crucial deve agradecê-lo ao parceiro Jamie, cuja habilidade para encontrar os ritmos e batidas apropriados se tornou cada vez mais reconhecida nestes anos de separação, em que esteve ocupado com o seu próprio projeto a solo. As aventuras pela música de dança trouxeram alguma “inveja” aos colegas, como estes são agora capazes de reconhecer, e menos tempo para a banda – mas, ao mesmo tempo, enriqueceram o repertório dos “The xx” e tornaram o novo álbum mais diverso e aventureiro.

Já na vida de Oliver Sim também muita coisa se passou, principalmente a luta pela sobriedade, por ultrapassar o vício do álcool e “estar mais presente”, sem esse escape a turvar-lhe as ideias. Há meses que está sóbrio, uma luta que relata na faixa do novo disco “A violent noise”, uma espécie de rejeição do seu antigo estilo de vida: “Agora saio, mas cada batida é como um barulho violento”. Romy responde: “Tens ficado fora até tarde, a dar o teu melhor para escapar / Espero que encontres o que procuras / Espero que silencies esse ruído”. À NPR, o vocalista conta: “Foi numa altura em que estava a lutar contra o meu lado que bebia, com sucesso. Era a ideia de: ‘Estou a celebrar ou a escapar?’”.

Estaremos condenados à repetição?

A ideia do crescimento e da resolução de conflitos antigos continua presente em todo o álbum, motivada por canções como “Performance”, em que uma batida despida dá espaço às confissões de Romy (“Não me vais ver magoada / Quando o meu coração se partir / Vou montar um espetáculo / Vou mostrar uma cara corajosa”), ou “Replica”, em que a angústia do crescimento é representada pela ideia de cair nos mesmos erros dos seus pais, numa série de versos que são dos mais transparentes que os The xx já produziram: “Dizem que vou tornar-me uma réplica / Estará na nossa natureza estarmos condenados à repetição?”.

Sendo “I see you” um álbum assinado por este trio, seria irreconhecível se lhe faltassem os habituais diálogos de amor entre Oliver e Romy, que tão bem captam as ideias do coração em escassas e diretas palavras, a voz linear e sem precisar de grandes recursos. “Dangerous”, a canção que abre o álbum, descreve a bolha de uma relação que tantas vezes serve de tema às canções do grupo (“Não me vou intimidar / Se tudo ruir, tu terás sido o meu erro favorito (…) Dizem-nos que há sinais de alerta / Devem estar cegos”). A secção de saxofone e trompete distingue a canção e os novos caminhos dos xx, mas o baixo comanda uma batida que convida a dançar.

“Say Something loving”, logo de seguida, continua a explorar o mesmo tema do amor, desta vez numa relação presumivelmente longa e desgastada (“Diz algo amoroso / Não me consigo recordar da emoção do carinho / Preciso de uma recordação, o sentimento está a escapar”), marcada pela sample dos Alessi Brothers, duo pop californiano dos anos 70, com que Jamie a decide pontuar (“Antes de que me escape…”). “On Hold”, o primeiro gosto que os xx deram aos fãs, em novembro passado, foi lançado logo no dia a seguir às eleições nos Estados Unidos. Sobre isso, Romy relata à “The Fader”: “Estávamos a pensar: Avançamos com isto? Será a coisa certa a fazer? Foi difícil, mas decidimos avançar. A música tem sido um grande escape para mim, ajuda-me a lidar com as coisas (…). Por isso, espero – e é a impressão que tenho tido das pessoas – que o single lhes tenha proporcionado um breve alívio”. Jamie acrescenta: “Sempre dissemos que não queremos misturar música e política. A música é algo completamente diferente de tudo o resto no mundo. Mas se calhar é uma boa ideia assumir a responsabilidade”.

“On Hold” é a combinação de tudo o que eles sabem fazer melhor – as texturas ricas trazidas por Jamie, a batida infecciosa que convida à pista, as reflexões românticas inevitáveis sobre sentimentos universais (“Acho que é cedo para nos chamares passado / Quando é que arrefecemos? Pensava que te tinha em espera”, canta Oliver, com a resposta de Romy: “O meu jovem coração escolheu acreditar que estávamos destinados / Todos os corações jovens precisam de amor / As cartas só fazem sentido quando queremos que façam”). No videoclip, um pormenor: por entre vários casais, amigos, relações humanas exibidas em vídeo, um beijo entre dois homens. “Evitamos o género, a sexualidade, o espaço e o tempo, para as pessoas poderem ter o espaço para sentirem uma ligação”, diz Oliver, enquanto admitem que com o crescimento passam a abraçar mais a sua música como um espaço queer.

CRÉDITOS: THE XX | LAURA COULSON

Testa-me, vê se quebro

Com “Test you”, a última faixa do álbum, chega uma espécie de confissão quase nua que une as pontas soltas do álbum e conta a história dos três amigos que chegaram a sentir-se mais desunidos do que nunca, apenas para descobrirem que quando se juntam a tocar se sentem “com 16 anos outra vez”. “Descarrega simplesmente em mim / É mais fácil do que dizeres o que queres / Testa-me, vê se quebro”, escreveu Romy, numa altura em que sente que é muito mais fácil ser transparente com os colegas depois de anos turbulentos. “É sobre uma altura bastante difícil na nossa amizade, entre mim e o Oliver – e em que os três estávamos bastante afastados física e geograficamente. Representa uma nova era em que falamos das coisas em vez de as ignorarmos.”

Quando ouviu a letra, Oliver abraçou a amiga: “Foi difícil, mas foi bom para mim”. Romy nunca acreditou que se separassem, mesmo enquanto Jamie desfrutava do auge do seu sucesso individual e ela e Oliver ficavam em casa, parados, sem escapes criativos. “Testa-me, vê se fico / Como é que podia andar noutro sentido?”. Tudo se confirma no nome com que escolheram batizar o disco, uma escolha difícil porque, como Romy diz, foi difícil encontrar um tema transversal. “Mas depois comecei a pensar na nossa amizade, como nos afastámos e aproximámos de novo. E o quão crucial é sentirmo-nos vistos, em qualquer relacionamento. Não estávamos a ver-nos e precisávamos disso.”