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A ditadura do medo

REALIZADORA. Fanny Ardant assina em “O Divã de Estaline” o seu terceiro filme

antónio pedro ferreira

Com a imagem do poder absoluto como metáfora, “O Divã de Estaline”, com estreia marcada para esta quinta-feira, põe em evidência o medo de uma sociedade como a nossa. Quem o diz é Fanny Ardant, a realizadora, em conversa com o Expresso

Alexandra Carita

Alexandra Carita

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Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

Na memória coletiva, Estaline é visto como o emblema do poder absoluto. Por isso quis utilizá-lo para contar uma fábula sobre como esse poder transforma os seres, sobre aquilo em que nos tornamos quando temos medo”, começa por explicar Fanny Ardant. A realizadora não pretende mostrar qualquer realidade histórica, mas sim, a partir do passado, remeter-nos para os dias de hoje. “Toda a gente tem medo de tudo. A própria Europa quer que tenhamos medo e por isso oferece-nos segurança. Se a aceitar-mos estamos a perder a nossa liberdade. Infelizmente, muita gente prefere isso.”

O filme mostra isso mesmo. A aceitação por parte do povo do poder e da sua proteção em troca da liberdade e do silêncio. “Mostramos sempre o lado mau do poder mas também temos que que expor o que as pessoas fazem ou não para o contrariar. A forma como lhe obedecem faz parte dessa não ação”, continua a realizadora e atriz.

Em “O Divã de Estaline”, protagonizado por Gérard Depardieu, observamos o grupo de funcionários de um palácio onde Estaline descansa durante dez dias e vemos o modo como o pânico está estampado nos seus rostos, incapazes de exprimir seja o que for, completamente submetidos àquele símbolo de poder. Mas vemos também a capacidade individual de uma tomada de posição. Basta atentarmos nas personagens de Lídia e Danilov, a amante de Estaline, e o jovem artista contratado por ela para eternizar a figura do ditador na Praça Vermelha, em Moscovo. “É possível haver comportamentos diferentes. Lídia salva-se e redime-se do jugo do poder, mesmo que isso signifique a sua morte. E Danilov decide entrar no sistema, por exemplo”, avança Fanny Ardant.

antónio pedro ferreira

A não resignação é o fio condutor da vida da última musa de Truffaut. Ardant diz não saber “alinhar com a autoridade”, mas afasta o empenhamento político da sua perspetiva de ação. “Acho que é uma viagem sem retorno. Não é como ir ao cabeleireiro ou à manicure. Para mim o envolvimento político é violento”.

No entanto, chegou a defender publicamente Renato Curcio, líder das Brigadas Vermelhas, que cumpriu 30 anos de prisão. Um ato público que quase valeu à França um acidente diplomático com a Itália. “Ninguém me compreendeu”, assegura. “O que admirei em Renato Cursio foi a sua lealdade. Confrontado com a possível diminuição da sua pena de prisão caso denunciasse os companheiros, nunca abriu a boca. Não apoiei os atos das Brigadas Vermelhas. É diferente. É horrível viver num sistema que funcione com base na denúncia”.

Resistente e lutadora, fala de peito aberto: “Acho que está na altura de acontecer alguma coisa de enorme para que as pessoas abram os olhos e se mexam. Diabolizamos muito Marine Le Pen, como diabolizamos Trump ou Putin, mas as coisas são muito mais complicadas do que isso. Não creio que Marine Le Pen queira o poder. Quem é que quer o poder no momento que atravessamos? É muito mais gratificante estar do lado contrário. Por isso digo à Marine Le Pen que venha. Será essa a altura certa para a revolução. Não podemos ficar-nos sempre pelos pequenos expedientes”.

A realizadora vai ainda mais longe nas suas críticas ao sistema político europeu, em geral, e francês, em particular. “Este medo dos emigrantes é uma vergonha Há três dias estive em Marselha a apresentar-me numa peça de teatro, atravessei a França. Há espaço, há muito espaço para todos. As verdadeiras cidades são as cosmopolitas, onde há uma mistura raças e cores e géneros, religiões e culturas. Ainda há muitas vilas em toda a França, abandonadas muitas, façam vir os sírios e deem-lhes trabalho.” E termina sem papas na língua: “Será que a França é inocente perante esta vaga de atentados? E quando fomos nós que bombardeámos as cidades sírias. Nessa altura ninguém diz que matámos inocentes. É o pensamento único, como se houvesse um diabo de um lado e um santo do outro. É a arrogância do pensamento ocidental”.

O Expresso publica este sábado na Revista E entrevistas com Gérard Depardieu e Fanny Ardant