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Quase silêncio para o filme de Scorsese

"O Silêncio" de Martin Scorsese só foi notado pela fotografia (nomeação para Rodrigo Prieto), uma decisão incompreensível

“O Silêncio” de Scorsese foi quase ignorado nas nomeações aos óscares. “La La Land” iguala recordes e a comunidade afro-americana já não tem motivos de queixa

Depois de, em 2016, a comunidade afro-americana ter zurzido forte e feio nos critérios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, de Hollywood, nas nomeações para os Óscares, 2017 abre uma enorme passadeira vermelha aos protagonistas não-caucasianos.

Desde logo, destacam-se as oito nomeações do comoventíssimo "Moonlight", o mais afro filme americano de que tenho memória e uma obra a merecer especial acolhimento pela comunidade LGBT pela problemática, nada usual, que aborda (estreia em Portugal já no dia 2 de fevereiro). Decorre inteiramente num arrabalde de Miami, nos dias de hoje, e parece existir num espaço urbano de onde os brancos estão absolutamente ausentes, num efeito quase concentracionário onde a dureza do quotidiano é total. É um filme muito forte, agora justamente destacado.

Mas convém não esquecer as quatro nomeações de "Fences", a mais recente incursão de Denzel Washington na realização, sobretudo porque ocorrem todas nas chamadas categorias nobres (Melhor Filme, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Ator e Melhor Atriz Secundária). Estreia entre nós no fim do próximo mês.

Todavia, com catorze nomeações – duas das quais na categoria de Melhor Canção – "La La Land" destaca-se sobremaneira na lista dos filmes na calha para os Óscares. É a confirmação de uma história de amor que começou na sua estreia mundial no Festival de Veneza (teve uma das mais vibrantes ovações entre as que se ouviram este ano na Sereníssima) e prosseguiu com os sete Globos de Ouro que arrebatou no princípio do ano, não esquecendo o fundamental sucesso de público. Para uma produção avaliada em 30 milhões de dólares (27,9 milhões de euros), já rendeu quase 90 milhões de dólares (83,8 milhões de euros) no mercado americano e praticamente outro tanto no mercado internacional, sendo certo que continua a faturar em grande em todo o lado.

Merece tão grande alarido, tão esmagadora afirmação? Digamos que é uma fita que nos dispõe bem, que celebra o cinema e Hollywood com algum brilho, que prova que Damien Chazelle, o realizador, estudou bem as lições e apreendeu conscenciosamente. Todavia está a uns quantos anos-luz de "Eva" de Mankiewicz (1950) ou de "Titanic" de James Cameron (1977), os filmes com que partilha a glória de serem os mais nomeados de todos os tempos.

Outros filmes acumulam nomeações numerosas ("O Primeiro Encontro" de Denis Villeneuve – oito; "Hacksaw Ridge" de Mel Gibson – seis; "Manchester by the Sea" de Kenneth Lonergan – seis; "Lion - A Longa Estrada para Casa" de Garth Davis – seis), mas há que destacar algumas, minoritárias, que deixam um doce sabor na boca dos cinéfilos.

A primeira é a de Isabelle Huppert, candidata ao galardão de Melhor Atriz em "Elle" de Paul Verhoeven – tanto mais que o filme não está nos nomeados para Melhor Filme em Língua Estrangeira, no que é um dos escândalos do ano (o outro é a ausência de "Julieta" de Almodóvar, na mesma categoria). A interpretação dela é inesquecível e só por efeito de arrasto poderá perder.

Um segundo motivo de felicidade é a atenção devida a um pequeno e muito bom filme independente – "Hell or High Water - Custe o que Custar!" de David Mackenzie: quatro nomeações, entre as quais a de Melhor Filme e de Melhor Ator Secundário, esta para o veterano Jeff Bridges). Já saiu de exibição em Lisboa, mas se houver aí um exibidor com arrojo, repô-lo neste tempo de Óscares era capaz de ser interessante.

Uma derradeira razão para regozijo é a nomeação dos gregos Yorgos Lanthimos e Efthimis Filippou pelo argumento de "A Lagosta", uma obra provocatória e inusitada, daquelas que, em princípio, parecem fora do radar da Academia. Erro de visão de quem assim pensar.

Uma sombra paira: "O Silêncio" de Scorsese só foi notado pela fotografia (nomeação para Rodrigo Prieto). Incompreensível! Daqui a muitos anos se dirá que 2017 foi o ano em que se premiou o mais fácil e se olvidou o que ia mais fundo. Aposto, singelo contra dobrado: em 2030 "La La Land" estará esquecido, "O Silêncio" há de continuar a ser visto, lembrado e discutido.

Mas uma tradição se mantém firme: uma cerimónia dos Óscares em que Meryl Streep não aparecesse nomeada, só se fosse no outro mundo. Este ano lá está, com a esfuziante interpretação de "Florence, Uma Diva fora de Tom" de Stephen Frears. E ninguém dirá que está a mais.